quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Palhaçaria


(texto em andamento)
Ter o riso na ponta da língua
Ter nos olhos o brilho ao falar
Um pequeno gigante que míngua
Um rei que precisa reinar...




quinta-feira, 21 de maio de 2009

O mais importante caso da minha carreira de negociador - Ana Maria




O mais importante caso da minha carreira de negociador de seqüestros.


Na fria expressão do atirador não se via nada, nem aflição, nem cansaço, nem pressa. Matou quatro clientes e uns sete funcionários, e mataria quem mais considerasse necessário. Matou e posou os corpos numa janela sobre algumas cadeiras, e lá os deixou. Dali somente sairia com a grana que foi buscar. Nada mais importava. Mais de um milhão de reais estava fechado em duas maletas, prontas para serem levadas. Do lado de fora a polícia agia. A energia tinha sido desligada. A água cortada. Mas escuridão dentro do prédio passou a ser favorável ao seqüestrador. Lá fora os faróis acesos, as sirenes ligadas, os flashes de câmeras, tudo o auxiliava. O capuz e luvas escondiam seus traços e marcas, nem sua cor podia ser descoberta. Suas ordens às vítimas eram dadas por escrito em papeis com frases digitadas que já vinham prontas, e que ele guardava no bolso depois de usar. Uma mulher gorda foi escolhida para falar com a polícia através do celular dela enquanto ele ficava à sua frente mostrando papeletas para serem lidas em seqüência. Vez ou outra posicionava a arma em sua cabeça e ela gritava durante as transmissões. Um rádio transmissor da polícia nas mãos e ele controlava cada passo dos seus perseguidores. Um rádio de pilha ligado trazia as últimas notícias do fato. E o rapaz atento a qualquer movimento ou ruído. Restava ainda uma última exigência que faria aos federais, e essa seria aquela que o tiraria de dentro da agência bancária com a grana. Ele então esperou o momento exato para faze-la. Tudo estava saindo como ele havia planejado...

Ouvi quando a televisão perguntou alo a meu namorado...- Ana Maria




Ouvi quando a televisão perguntou algo a meu namorado...

Ouvi quando a televisão perguntou algo a meu namorado. Num relance a voz sonora e definida do locutor chamou-o pelo nome e lhe fez uma pergunta sobre a programação dos outros canais. Pasmei. Com a revista Ti Ti TI na mão, meu namorado respondeu de chofre e foi enumerando toda a programação para o locutor invisível. De beiço caído permaneci imóvel enquanto o imbecil continuava a longa lista de programação dos mais de vinte canais. Vez ou outra ele ainda me olhava como se a idiota fosse eu, como se fosse normal a televisão falar com alguém...Se liga cara! Se pelo menos ela estivesse conectada na tomada...

Carta ao filho na cidade



Carta ao filho na cidade

Darci Correia Araújo (Artista plástico e poeta popular em Goiânia, GO)



Salve, salve idolatrado querido filho. Deus te abençoe, assim mesmo de longe, e te cubra com o manto sagrado de Nossa Senhora. Antes de tudo, meu filho, a tua vaca Pombinha pariu uma bezerra, que é um brinco de bonita, e teu pai perdeu todos os documentos quando foi tirar o dinheiro da aposentadoria no Formoso do Araguaia. Mas não teve coragem de comprar um par de botina pra calçar no casamento do Antônio com a Terezinha da dona Socorro. Comprou só umas latas pra pôr a banha do Capado, um pano ruinzinho pra Ana Maria, duas bolas de arame farpado pra fechar a roça de mandioca - senão, o gado do Raimundo Dirico vai comer o restinho que sobrou - e 3 quilos de soda e 5 litros de querosene. Se eu não tiver gripada, vou produzir um sabão dos miúdos do porco.


Eu tava até sadia, mas fui fazer uns canteiros, que tá passando da hora de plantar as cebolas, e, naquele vaivém, me deu umas dores nas juntas, meu filho, que já passei tudo quanto há, até banha de cascavel, que me ensinaram. E foi com que melhorou um pouquinho. Mas não tô güentando juntar os estrumes de galinha de tanta formiga de fogo que deu este ano.


O João Bosco largou as pescarias, fizeram um fuxico tão grande aqui, dizendo até que ele estava pegando pirarucu pra vender. E veio os fiscal do Ibama pra prender as traias, remexeram na casa de farinhada, por debaixo do paiol, mas só encontraram mesmo os anzóis e uma redinha pequena toda cortada de piranha. Era uns rapaiz educado. Tinha um magrão que foi nas panelas, pegou um pé de galinha e saiu roendo, me abraçou chamando de tia, e, batendo no meu ombro, viu que era tudo mentira. Deus queira me perdoar se não foi aquele cabra que queria a bicicleta dele fiado, pra pagar com quê? Se não dá um prego, vive o tempo todo com um galo debaixo do braço, nas portas alheia pondo pra brigar.


Pois é, mudou um povo aqui pra perto que eu nunca tinha visto a tentação, trouxeram uma cachorrada que não sobra mais um indez nos ninhos de galinha. O velho é fazedor de cerca mais um dos dois filhos, tem outro que é casado com a própria irmã, só que é por parte de pai e não foram criados juntos. Ela tem dois meninos e tá buchuda de novo. A mulher do velho chama Fulozina, é parteira das boas, só que bebe uma pinga danada, mas é zelosa. Suas panelas de ferro são bem arriadinha e ela passa cinza com sabão no fundo antes de botar no fogo.


Tu ficou sabendo da morte do Joãozinho do Duca? Desapareceu no rio, não faz um mês. Tava banhando mais uns sete moleque e pulou de cima da piranheira. Aí diz que ele pulou e não saiu mais na flor-d'água, não sabem se se afogou ou se o bicho comeu. O povo juntou, procurou dia e noite, botou redes muito embaixo e nada. Aí as pessoas rezaram a missa de sete dias e puseram uma cruzinha no lugar. O velho quase dá um ataque, coitado, tá assim como quem vai até morrer.


Mande me dizer como está nos estudo; não vá fazer como as filhas daquele nosso conhecido que, depois de formadas, tavam até com vergonha do velho pai, coisa que quando elas moravam aqui viviam aí simplisinhas. Da última vez que vieram pra cá, era pouca gente que estavam conhecendo. Um orgulho que só vendo, tiveram coragem de cheirar os copos de beber na casa da comadre Júlia, só falando em higiene, higiene o tempo todo. Poucos foram com o tipo delas aqui.


Vou terminar agora. Tô muito sem assunto. Dá lembrança pro Expedito, pra Nenzinha e pra Rosa do Luiz Coelho. Fala pra Digé mandar minhas mudas de pimenta-dedo-de-moça e fazer dois pano de coador de café, que o meu tá passando muita borra. Depois eu levo um frango pra ela. Tá?


sábado, 4 de abril de 2009

Mulher faz drama por nada! - Ana Maria






Mulher faz drama por nada

Aflita ao constatar que parte de seu corpo no espelho tinha sumido, a esposa pergunta ao marido:



- Você pode me ver? Olha pra mim, você consegue me ver?



- Vejo sim. É claro que posso, não estou cego.



- Mas você vê meu corpo inteiro, todas as partes?



-Que é isso Jurema, ta com faniquito? Hoje eu to cansado, não quero saber de farra por aqui.



-Não é nada disso Torquato, eu estou desaparecendo aos poucos. Olha pra mim. Você pode ver meu corpo inteirinho? Olha!



- Não, não consigo ver uma de suas orelhas e vejo apenas uma das mãos.



- Então estou mesmo desaparecendo, minha Nooossa Senhoooora!



- Que é isso mulher, fazendo tanto drama por nada? Que desaparecendo o quê?



- Então não estou desaparecendo, homem? E não é pra ficar desesperada se a gente não encontra mais parte do corpo? Vou me acabar em nada, uma fumacinha e pluft, acabou. Dona Jurema já era. Acha que não devo me preocupar, é?



- Mas até chegar o pluft pode levar uns quarenta anos, é tempo pra caramba! Tem muita gente que não vive tudo isso.



- Você não pode estar falando sério. Acha mesmo que eu devo me consolar com essa babaquice que me disse Torquato? Acorda homem, EU ESTOU SUMIIINDOOO!



- Ih, que coisa chata Jurema! Já passa das onze e eu levando às cinco. Relaxa mulher, você ainda tem uma orelha e uma mão, isso ainda tá bom demais. Agora me deixa dormir. E vê se não deixa cair nenhum pedaço seu no meu travesseiro. Vai dormir, vai. Boa noite.



Dia inútil - Ana Maria






Dia inútil

O frágil vigor da manhã
deixava o homem preguiçoso
morgando pós despertador.

A cama amarrotada
Enguiçava os pensamentos dele
fazendo readormecer os olhos pesados.

Na rua iam e vinham
um corre pára
um vai e vem
um abre e fecha
que não tinha fim.

Mas ele delirava nebuloso
Em sonhos atribulados
Pesadelando com altos gemidos
Enquanto o sol rompia a fresta.

Poema de muitas faces - Ana Maria




Poema de muitas faces...



Quando nasceu, um anjo torto
desses que vivem na sombra disse:
Vai! ser gauche na vida...
E ela foi!
Macabeando no viaduto
lenta de passos galopantes



ANTES Antes antes

sorria lágrima de luto.
Rápida postou-se rente.

Demente,
no amargo parapeito
enquanto a tísica lhe ardia.


Glória negra peste branca
para ela Chicuta Campolargo!


Inimigo não se poupa. Ferro nele!


DEPOIS Depois depois


A cabeça que fervia
galreio de boca muda
gritava pela vida fria


VIDA Vida vida


Erige,
toc toc ia e voltava
num olímpico olhar néscio
de suspiro estridente
clamava pela morte quente


morte Morte MORTE.


Virge!





Poema das sete faces – Carlos Drummond e Andrade
A hora da estrela – Clarice Lispector
Os devaneios do general – Erico Veríssimo
Utilização de ambivalências, antinomias


e “Método Lautréamont’

sábado, 28 de março de 2009

CUIDE DO PLANETA - FAÇA A SUA PARTE!!

Hoje às 20:30hs todos nós deveremos desligar a chave geral e deixar o mundo às escurars para cuidar do planeta.
.
Dedique pelo menos essa 1 hora ao nosso planeta.


Afinal de contas este é o maior bem que podemos deixar para nossos filhos: A VIDA !!





Sugestão: Adote a idéia e todos os dias desligue a chave geral por 1 hora. Escolha a sua hora e faça-o!
Além de você cuidar do planeta, certamente fará uma enorme economia na sua conta de luz!

ADOTE ESSA IDÉIA!



domingo, 8 de março de 2009

HOMENAGENS ÀS MULHERES...HOMENAGEM AO PUDOR FEMININO



Que dentre seus atributos possamos sempre enumerar o PUDOR.

Homenagem à mulheres que guardam o pudor como tesouro, ou como arma de sudução.

Não ha mulher mais bonita, mas delicada e desejada do que aquela que tem pudor, e charme.



enquanto isso vai la na bia

O maior Portal de Mensagens nacional, [u]mande também![/u]

www.Mensagens.tk

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Cecilia Meireles - Retrado

Na voz da própria poetisa: Retrato

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?









Cecília Meireles

"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

(Romanceiro da Inconfidência)


Filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil S.A., e de D. Matilde Benevides Meireles, professora municipal, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro. Foi a única sobrevivente dos quatros filhos do casal. O pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe quando ainda não tinha três anos. Criou-a, a partir de então, sua avó D. Jacinta Garcia Benevides. Escreveria mais tarde:

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."

Conclui seus primeiros estudos — curso primário — em 1910, na Escola Estácio de Sá, ocasião em que recebe de Olavo Bilac, Inspetor Escolar do Rio de Janeiro, medalha de ouro por ter feito todo o curso com "distinção e louvor". Diplomando-se no Curso Normal do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1917, passa a exercer o magistério primário em escolas oficiais do antigo Distrito Federal.

Dois anos depois, em 1919, publica seu primeiro livro de poesias, "Espectro". Seguiram-se "Nunca mais... e Poema dos Poemas", em 1923, e "Baladas para El-Rei, em 1925.

Casa-se, em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, com quem tem três filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda, esta última artista teatral consagrada. Suas filhas lhe dão cinco netos.

Publica, em Lisboa - Portugal, o ensaio "O Espírito Vitorioso", uma apologia do Simbolismo.

Correia Dias suicida-se em 1935. Cecília casa-se, em 1940, com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

De 1930 a 1931, mantém no Diário de Notícias uma página diária sobre problemas de educação.

Em 1934, organiza a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, ao dirigir o Centro Infantil, que funcionou durante quatro anos no antigo Pavilhão Mourisco, no bairro de Botafogo.

Profere, em Lisboa e Coimbra - Portugal, conferências sobre Literatura Brasileira.

De 1935 a 1938, leciona Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literária, na Universidade do Distrito Federal (hoje UFRJ).

Publica, em Lisboa - Portugal, o ensaio "Batuque, Samba e Macumba", com ilustrações de sua autoria.

Colabora ainda ativamente, de 1936 a 1938, no jornal A Manhã e na revista Observador Econômico.

A concessão do Prêmio de Poesia Olavo Bilac, pela Academia Brasileira de Letras, ao seu livro Viagem, em 1939, resultou de animados debates, que tornaram manifesta a alta qualidade de sua poesia.

Publica, em 1939/1940, em Lisboa - Portugal, em capítulos, "Olhinhos de Gato" na revista "Ocidente".

Em 1940, leciona Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas (USA).

Em 1942, torna-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro (RJ).

Aposenta-se em 1951 como diretora de escola, porém continua a trabalhar, como produtora e redatora de programas culturais, na Rádio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro (RJ).

Em 1952, torna-se Oficial da Ordem de Mérito do Chile, honraria concedida pelo país vizinho.

Realiza numerosas viagens aos Estados Unidos, à Europa, à Ásia e à África, fazendo conferências, em diferentes países, sobre Literatura, Educação e Folclore, em cujos estudos se especializou.

Torna-se sócia honorária do Instituto Vasco da Gama, em Goa, Índia, em 1953.

Em Délhi, Índia, no ano de 1953, é agraciada com o título de Doutora Honoris Causa da Universidade de Délhi.

Recebe o Prêmio de Tradução/Teatro, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1962.

No ano seguinte, ganha o Prêmio Jabuti de Tradução de Obra Literária, pelo livro "Poemas de Israel", concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

Seu nome é dado à Escola Municipal de Primeiro Grau, no bairro de Cangaíba, São Paulo (SP), em 1963.

Falece no Rio de Janeiro a 9 de novembro de 1964, sendo-lhe prestadas grandes homenagens públicas. Seu corpo é velado no Ministério da Educação e Cultura. Recebe, ainda em 1964, o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro "Solombra", concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

Ainda em 1964, é inaugurada a Biblioteca Cecília Meireles em Valparaiso, Chile.

Em 1965, é agraciada com o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras. O Governo do então Estado da Guanabara denomina Sala Cecília Meireles o grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro. Em São Paulo (SP), torna-se nome de rua no Jardim Japão.

Em 1974, seu nome é dado a uma Escola Municipal de Educação Infantil, no Jardim Nove de Julho, bairro de São Mateus, em São Paulo (SP).

Uma cédula de cem cruzados novos, com a efígie de Cecília Meireles, é lançada pelo Banco Central do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ), em 1989.

Em 1991, o nome da escritora é dado à Biblioteca Infanto-Juvenil no bairro Alto da Lapa, em São Paulo (SP).

O governo federal, por decreto, instituiu o ano de 2001 como "O Ano da Literatura Brasileira", em comemoração ao sesquicentenário de nascimento do escritor Silvio Romero e ao centenário de nascimento de Cecília Meireles, Murilo Mendes e José Lins do Rego.

Há uma rua com o seu nome em São Domingos de Benfica, uma freguesia da cidade de Lisboa. Na cidade de Ponta Delgada, capital do arquipélago dos Açores, há uma avenida com o nome da escritora, que era neta de açorianos.

Traduziu peças teatrais de Federico Garcia Lorca, Rabindranath Tagore, Rainer Rilke e Virginia Wolf.

Sua poesia, traduzida para o espanhol, francês, italiano, inglês, alemão, húngaro, hindu e urdu, e musicada por Alceu Bocchino, Luis Cosme, Letícia Figueiredo, Ênio Freitas, Camargo Guarnieri, Francisco Mingnone, Lamartine Babo, Bacharat, Norman Frazer, Ernest Widma e Fagner, foi assim julgada pelo crítico Paulo Rónai:

"Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo...A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.


Bibliografia:

Tendo feito aos 9 anos sua primeira poesia, estreou em 1919 com o livro de poemas Espectros, escrito aos 16 e recebido com louvor por João Ribeiro.

Dados obtidos em livros da autora e sobre ela, e no site do Itaú Cultural.
http://www.releituras.com/cmeireles_bio.asp

Cecilia Meireles - Elegia a pequena borboleta

Na voz da própria poetisa Cecilia Meireles: Elegia a pequena borboleta

Carlos Drummond de Andrade - Voz e imagem

Especial sobre a vida e obra de Carlos Drummond de Andrade exibido no canal Globo News, programa Arquivo N, em 08/2007, parte 3 de 3 parte 1


http://www.youtube.com/watch?v=g4Zgl_Npk_4&feature=related




http://www.youtube.com/watch?v=l7QbHvrDXeo&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=rd1_dLXT1jo&feature=related




http://www.youtube.com/watch?v=NhFbBFZ8_hE&feature=related




Carlos Drummond de Andrade em documentário de Fernando Sabino e David Neves. 1972. (no DVD Encontro Marcado Todos os direitos reservados)

http://www.youtube.com/watch?v=UP66vBqmiNE&feature=related




Drummond...saudade do poeta. Saudade da poesia apaixonada, ousada ... forte.



Leitura do poema Amor pois que é palavra essencial, pelo ator Sérgio Mamberti, para o filme O amor natural


Mundo grande de Carlos Drummond de Andrade na voz do poeta




Mundo grande
(Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade

Nao, meu coração não é maior que o mundo.
Ê muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme.
Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens.
as diferentes dores dos homens.
sabes como é difícil sofrer tudo isso,
amontoar tudo isso num só peito de homem...
sem que elo estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai’ inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos —— voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubrocomo é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de invidíduo
desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar.
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram
e trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Num verão qualquer...



Foi num desses verões escaldantes que na praia de São Vicente meus pés queimavam na areia branca. O guarda-sol amigo estreito e bom protetor não foi suficiente para dar sombra necessária.


Muitas pessoas iam e vinham de copos nas mãos algumas já bêbadas, chapéus na cabeça, jogando areia em corpos besuntados que douravam deitados. Era Janeiro e as férias urgiam em São paulo. Crianças perdidas e mães aflitas. E meus olhos que tudo seguiam.


Em poucos dias já sentia-me uma detetive em busca de crianças desaparecidas, de velhinhos que se perdiam ao ir molhar os pés na água do mar e não sabiam voltar ao seu grupo.


Essa temporada era para ser boa, então quanto retornava da praia parava diante do espelho à entrada de casa e sorria para mim pensando "o dia está lindo, o mar está calmo, e eu estou de férias!"...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

CONTO DE EDGAR ALLAN POE - O RETRATO OVAL



O RETRATO OVAL


Publicado na Folha da Manhã, domingo, 14 de fevereiro de 1937.
Neste texto foi mantida a grafia original


EDGAR ALLAN POE


Especial para a "Folha da Manhã"


O castello cuja porta de entrada meu creado ousára forçar, para que eu não passasse a noite ao relento, no estado lastimavel em que me encontrava, ferido, era um desses edificios de uma imponencia cheia de tristeza, que durante longos seculos se erigiram entre os montes Appeninos, tanto na realidade quanto na fantasia de "mistress" Radcliffe.


Segundo toda a apparencia, elle fôra abandonado por seus habitantes, não havia muito tempo.


Installamo-nos em uma sala pequena e das menos sumptuosamente guarnecidas. Ficava em uma torre bastante afastada do centro do edificio e mesmo assim mau grado seu estado de abandono e aspecto vetusto, sua decoração era rica. As paredes estavam cobertas com tapeçarias e panoplias varias, além de extraordinario numero de quadros modernos, na verdade, cheios de vida, em molduras luxuosas com arabescos dourados. Esses quadros —suspensos não somente nos pontos das paredes mais espaçosos e mais cheios de luz, mas tambem nos numerosos recantos formados pela singular architectura do castello —esses quadros— repito, por effeito, sem duvida, do estado de semi-delirio em que eu me encontrava, excitaram em mim uma especie de fascinação. Como já fosse noite, dei ordem a Pedro para fechar as pesadas janellas do quarto, accender todos os braços de um enorme candelabro, collocado junto de minha cabeceira e afastar largamente as cortinas de velludo negro com franjas, que envolviam o leito. Essas disposições tinham por fim permittir-me, caso não conseguisse dormir, ao menos examinar os quadros detalhadamente, com o auxilio de um opusculo, encontrado sobre o travesseiro e cujo assumpto era a critica e explicação desses quadros.


Fiquei, por algum tempo lendo, alheio a tudo o mais. Piedosamente erguia os olhos do livro e contemplava o quadro, cuja explicação já lêra.


As horas passaram rapidas e, finalmente, a meia noite bateu.


Como o candelabro não estivesse collocado a meu gosto, estendi a mão com cuidado para não perturbar o somno de meu creado e colloqueio-o de forma tal que elle lançava a luz mais directamente sobre o livro.


Porém esse meu gesto teve um effeito, que eu estava longe de prever. A luz das velas —pois eram muitas— cahia, agora, sobre um angulo do quadro até então mergulhado em espessas trevas, devido à cabeceira do leito, que era muito alta.


Um quadro, que eu ainda não vira, appareceu-me então inteiramente.


Era o retrato de um adolescente, quasi uma mulher. Envolvi todo quadro em um rapido olhar e, quasi em seguida, fechei os olhos.


Por que motivo? Não o compreendi immediatamente. Continuando com as palpebras cerradas, perguntava a mim mesmo por que as fechára. Fôra um movimento impulsivo, afim de ter tempo para reflectir, assegurar-me de que era victima de uma illusão visual... E tambem para acalmar minha imaginação e preparal-a para um exame mais detalhado e efficaz.


Ao fim de poucos instantes, fitei novamente o retrato.


Não podia mais duvidar do testemunho de meus olhos, porque o primeiro lampejo das velas sobre essa tela tivéra por effeito dissipar a estupefacção sonhadora em que meus sentidos estavam mergulhados e, de um só golpe, chamaram-me à vida normal.


O retrato, como já disse, era o de uma adolescente. Viam-se, apenas, a cabeça e os hombros, no estylo de Sully. Os braços e os seios e, mesmo, um pouco da luminosa cabelleira desappareciam insensivelmente na sombra vaga e tambem profunda, que constituia o fundo de téla. A moldura era oval, sumptuosamente dourada e filigranada, à maneira mourisca. Como obra de arte, não se podia sonhar coisa mais admirável. Mas não eram talvez, nem suas qualidades de execução nem a immortal belleza da retratada, que haviam determinado em mim uma emoção tão forte e repentina.


Podia, menos ainda, suppor que minha imaginação, sobresaltada em minha semi-somnolencia, tomára aquella physionomia pela de uma creatura viva. Notei logo que as particularidades do desenho, o aspecto do quadro, não deixariam de me afastar immediatamente de semelhante idéa, seriam mesmo sufficientes para me impedir admitttil-a, mesmo momentanea.


Reflectindo intensamente sobre esses diversos pontos, fiquei talvez uma hora, sentado no leito, com o olhar preso a esse retrato. Acabei de penetrar o verdadeiro segredo do effeito, que elle produzira sobre mim e deixei-me cahir, lentamente, sobre o travesseiro. Descobrira que a magia desse quadro consistia na expressão da vida absolutamente identica à propria vida.


Primeiramente eu estremecera e, depois, ficára confuso, dominado, petrificado. Presa de angustia profunda e respeitosa, voltei a collocar o candelabro em seu lugar primitivo. Tendo, assim, dissimulado a meus olhos o objecto de minha viva agitação, apanhei febrilmente o livro onde se falava nesse quadro e seu historico. Folheei-o até o numero, que correspondia ao retrato oval e li esse estranho e mysterioso comentario.


"- Era uma moça de rara belleza e caracter tão amavel, quão apurado. Sua "má hora" foi aquella em que conheceu, amou e desposou o pintor; elle, rude e apaixonado, trabalhador e já possuindo uma esposa: sua Arte. Ella, de rara belleza e um caracter tão amavel quão esmerado, toda luz e sorriso, alegre como um passaro. Para tudo tinha thesouros de amor, detestando apenas a arte, sua rival. Só temia as palhetas e os pinceis, todos esses instrumentos importunos, que afastaram della o pensamento do amado.


Assim, foi uma terrivel coisa para ella, quando o pintor lhe exprimiu o desejo de fazer seu retrato. Porém era humilde, submissa e durante varias semanas manteve-se sentada, muito quieta, na sombria e alta sala da torre, onde a luz só filtrava do alto, sobre a pallida tela. Porém elle, pintor acima de tudo, punha toda sua gloria em seu trabalho, que proseguia de hora em hora, de dia em dia. E era um homem apaixonado, genioso, taciturno e que se perdia, muitas vezes, em seus sonhos.


De tal forma que não notou, ou não quiz notar a acção malefica da luz, que cahia do alto, arruinando a saude e o espirito de sua esposa; todos a viam definhar, todos, menos elle.


No entanto, ella sorria sempre e sempre, sem o menor queixume, porque via o pintor cujo renome era grande, alegre e orgulhoso, trabalhar dia e noite com paixão febril no retrato daquela, que tanto amava.


Ai, d'ella! Cada dia mais sem forças, mais sem côr... Na verdade, os que vinham vêr o retrato confessavam em voz baixa que a semelhança era um milagre - provando não só o talento do pintor como seu grande amor por aquella, que pintava de modo tão maravilhoso...


Mas com o tempo, quando já a obra tocava a seu fim, ninguem mais foi admittido na torre; o pintor, no ardor incrivel de seu trabalho, não destacava mais do que raramente os olhos de sua tela, mesmo, afim de olhar para sua joven e linda esposa.


E não "queria" notar que as côres, que applicava sobre a tela, era como se as tirasse das faces da doce creatura, que se mantinha immovel, diante delle. E quando muitas semanas foram passadas e restava pouca coisa a fazer —um golpe leve do pincel sobre a bocca, um retoque nos olhos— a alma do modelo vacillou como a chamma de uma vela, que se extingue.


O golpe de pincel final foi dado e o pintor maravilhoso ficou, por alguns instantes, em extase, diante da obra admiravelmente perfeita; mas quando assim a contemplava, eis que um arrepio percorreu todo seu corpo e, muito pallido, elle exclamou:


"— Mas é a propria Vida!..."


Voltou-se rapidamente para a Amada.


"Ella estava morta..."
.

DA SÉRIE SIMBOLOS DA HISTÓRIA - Deu na Folha em 1932



SANTOS DUMONT FALLECEU HONTEM NO GUARUJA'O GRANDE INVENTOR-AERONAUTA BRASILEIRO DESAPPARECE NUMA HORA DELICADA DA VIDA NACIONAL - O CORPO TRANSPORTADO PARA S. PAULO - TRAÇOS BIOGRAPHICOS DO EXTINCTO


Publicado na Folha da Manhã, 24 de julho de 1932


Neste texto foi mantida a grafia original


Um laconico telegramma de Santos, annunciou hontem, à tarde, o fallecimento, no Guarujá, do grande inventor brasileiro Santos Dumont. A noticia correu célere por toda a cidade, causando profundo pezar. Alberto Santos Dumont desapparece numa hora delicada da vida nacional, isto é, quando a campanha constitucionalista empolga a população, de norte a sul do paiz. Assim, pois, as homenagens posthumas, a que merecidademente fazia juz o grande inventor, serão grandemente prejudicadas. Mas o pezar de todo o Brasil, qualquer que sejam as manifestações exteriores que se seguirão, não deixará de ser uma eloquente demonstração de reconhecimento pelo quanto Santos Dumont elevou o nome de sua Pátria, dentro e fóra de suas fronteiras.


Expressão maxima do genio inventivo de nossa gente, o "Pae da aviação" bem merecia melhor sorte para a sua gloriosa velhice. Mas a hora agitada que S. Paulo vive presentemente nos impede do tratar mais pormenorizadamento da personalidade do illustre extincto. A historia dirá melhor e mais amplamente desse nosso glorioso patricio.


DADOS BIOGRAPHICOS


Alberto dos Santos Dumont nasceu no municipio de João Gomes, hoje Palmyra, no Estado de Minas, a 20 de julho de 1873. Era filho de Henrique Dumont e de d. Francisca dos Santos Dumont, já fallecidos. Era irmão do dr. Henrique S. Dumont, fallecido, casado com d. Maria Amelia Ferreira Dumont; de d. Maria Rosalina Dumont Villares, casada com o dr. Eduardo de Andrade Villares, fallecida; de d. Sophia dos Santos Dumont, fallecida; de d. Francisca Dumont, fallecida; casada com o dr. Ricardo Severo; de d. Virginia Dumont Villares, casada com o sr. Guilherme de Andrade Villares, fallecido, de dr. Luiz dos Santos Dumont, fallecido, casado com d. Adalgisa Uchôa Dumont; de d. Gabriela Dumont Villares, casada com o dr. Carlos de Andrade Dumont Villares. Deixa trinta e dois sobrinhos, entre os quaes individualidades de relevo no nosso meio social.


A ACTIVIDADE DE SANTOS DUMONT


Tendo feito estudos especiaes nas escolas de São Paulo, partiu para Paris afim de construir um aerostato munido de um motor e de um propulsor.


A aviação nesse dominio contava apenas com as experiencias de Giffard e dos capitães Krelles e Renard. Devem-se a Santos Dumont as provas mais arrojadas nesse terreno.


Installado na capital da França, Santos Dumont mandou construir o primeiro aerotasto ao qual deu o nome de "Brasil".


A primeira experiencia com o "Brasil" effectuou-se a 4 de julho 1898, com pleno exito.


O segundo aerostato denominado "A Musica" venceu no concurso aberto pelo Aero Clube da França para a escolha dos apparelhos que servissem para o estudo das correntes atmosphericas.
O illustre aeronauta brasileiro concorreu ao premio sem competidores. A experiencia realizou-se em 11 de julho de 1901, gastando o aparelho, no percurso prescripto, 35 minutos.


Não satisfeito com esse resultado, mandou construir o "Santos Dumont n. 5" com o qual tentou ganhar novamente o premio Deutsch.


Essa prova quase custou a vida ao arrojado aeronauta patricio.


Com o "Santos Dumont n. 6" tentou novamente vencer aquelle recorde.


A experiencia foi assistida por milhares de pessoas.


O jury do concurso não lhe quis ainda conferir o premio Deutsch. O proprio Deutsch, consultado a respeito, opinou pela concessão do premio a Santos Dumont. O "az" patricio, ao receber os 100 mil francos, distribuiu-os pelos pobres de Paris.


Reconhecendo inadaptavel a forma espherica dos balões, Santos Dumont imaginou e construiu um outro apparelho de forma cylindrica com as extremidades conicas. Esse foi o "Santos Dumont n. 1" que subiu a 18 de setembro de 1898, sofrendo um accidente em virtude de uma falsa manobra dos que sustentavam as cordas.


A machina foi reparada e executou um segundo vôo com pleno successo.


Em 1899 appareceu o "Santos Dumont n. 2" mais resistente que os anteriores.


Diversas experiencias realizadas em Nice deram resultados estupendos. Na ultima dessas provas o apparelho soffreu um sério accidente. O illustre inventor construiu então o "Santos Dumont n. 3", realizando-se a primeira experiencia em Paris, em 13 de novembro de 1899.


Introduzindo novos melhoramentos, o scientista patricio construiu ainda o "Santos Dumont n. 4".
Nessa época (em 1900) H. Deutsch estabeleceu um premio de 100 mil francos para o aerostato que fizesse a volta completa em torno á torre de Eiffel, no prazo máximo de 30 minutos.


Foi finalmente construido ainda o "Santos Dumont n. 7" que realizou varias experiencias em Monte Carlo.


Todas essas pesquizas scientificas foram realizadas no dominio da aviação do mais leve que o ar.
Santos Dumont, abandonando esse systema de aviação, passou ao dominio do mais pesado que o ar, tendo construido diversos aeroplanos. As experiencias com um delles, realizadas em 23 de outubro de 1906, conduziram-n´o á conquista da taça Archdeacon (premio 3.000 francos).


Em 12 de novembro do mesmo ano, Santos Dumont effectuou um vôo de 220 metros a 8 metros do sólo.


CHEGADA DO CORPO A S. PAULO


O corpo, embalsamado, do grande aeronauta foi hontem mesmo transportado a esta capital e exposto, em camara ardente, armada em casa de parentes do illustre extincto, á avenida Paulista 105. Ainda não estão marcados o dia e a hora dos funeraes que provavelmente dar-se-ão amanhã.


O PATRIOTISMO DE SANTOS DUMONT


E´ certo que o glorioso Pae da Aviação desde muito se achava doente. Mas o seu estado de saude se agravou diante das ultimas calamidades.
As ultimas palavras que nos dirigiu foram de intensa vibração civica. Tinham a data de 14 do corrente. Vamos recorda-las:


"S. Paulo, 14 de julho de 1932. - Meus patricios:


Solicitado pelos meus conterraneos moradores neste Estado para subscrever uma mensagem que reivindica a ordem constitucional do paiz, não me é dado, por molestia sahir do refugio a que forçadamente me acolhi, mas posso ainda por estas palavras escriptas, affirmar-lhes, não só o meu inteiro applauso, como também o apello de quem, tendo sempre visado a gloria da sua patria dentro do progresso harmonico da humanidade, julga poder dirigi-se em geral a todos os seus patricios, como um crente sincero em que os problemas da ordem politica e economica que ora se debatem sómente dentro da lei magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa patria á superior finalidade dos seus altos destinos.
Viva o Brasil Unido! - Santos Dumont."


SERÃO CONCEDIDAS A SANTOS DUMONT HONRAS DE CHEFE DE ESTADO


Communicam-nos dos Campos Elyseos que o governo do Estado resolveu homenagear condignamente o grande inventor brasileiro Alberto dos Santos Dumont, hontem fallecido na vizinha cidade de Santos, deliberando prestar honras de chefe do Estado ao illustre extincto.
Assim que teve noticia da morte do glorioso pioneiro da aviação, o governo do Estado procurou obter de sua familia consentimento para realizar os seus funeraes, sendo attendido.
O corpo de Santos Dumont será transportado para esta capital, sendo immediatamente depositado na crypta da Cathedral, onde aguardará o momento em que possa ser transladado para o Rio de Janeiro, afim de ser inhumado no jazigo perpetuo.

VIDAS SECAS - GRACILIANO RAMOS - RESUMO



Vidas Secas

Graciliano Ramos

Do Etapa Vestibular


Vidas Secas é o último romance de Graciliano Ramos e a única experiência do autor com foco narrativo na terceira pessoa. A obra é constituída em forma de espiral, cujo início fechado ("Mudança", cap 1) abre-se no final, com o último capítulo ("Fuga") conduzindo os personagens para um destino inusitado, mas que mantém o elo da desdita, da miséria, da fome e da pobreza.


Entre os dois capítulos-limites são constituídos 11 quadros que, aparentemente, nada têm em comum a não ser os personagens e a paisagem.


Um tênue fio narrativo faz o leitor conhecer a história de uma família de retirantes nordestinos que foge da seca, encontra período de passageira estabilidade e parte novamente em retirada quando as chuvas deixam de cair, prenunciando um novo período de seca. A economia (de estilo, de linguagem, de vida e de cenário) pode ser destacada como a característica básica do volume.


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4d/Casal_de_retirantes.jpg

Palavras do Doutor: Investimento mal direcionado


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Tropa de Jeca - conto caipira








Tropa de Jeca


Na cangalha trapos.


A estrada seca era estreita para a família de Jeca.


Na carroça Doralice com a de colo, a de dois, o de quatro e o de cinco.


De parelha iam à pé o Jeca, a de sete, o de nove e Josué que tem nome certo porque aquela doença ruim quase matou o moleque.


O de nove tossia cheio, e a de sete mancava com os pés apertados nos tênis do de cinco que não precisava calçar nada naquele momento.


Doralice chacoalhava a de colo que chorava por causa do desconforto da viagem no calor.


Jica a cabrita da família, trotava amarrada ao lado da tropa. Era ela que dava leite para os pequenos. Doralice secou depois do susto com a revoada de saci no terreiro.


O pai apressou-se e Josué tomou a dianteira da tropa.



A de colo chorava forte. Josué redeou Jica junto da carroça e com uma caneca embaixo da teta, ordenhou a cabrita ali mesmo. A de colo bebeu tudo bem ligeiro e amainou. Ainda teve que encher a caneca mais vêzes para os pequenos. Até Doralice bebeu leite da Jica.



E a tropa seguiu calada de olhar perdido na poeirinha que subia devagar.





Puisia Matuta - Briguemu



PUISIA MATUTA

(Autor desconhecido)




Ah!... dispois de tântu amô,

di tântu bêju gostôsu,

di tântu chêru cherôsu,

nóis briguemu...


Foi uma briga fatár

Ela disse: - Acabô

Eu disse: - Isso mermo.

acabô-si tudu!

I nóis fiquêmo mudo,

sem vontádi di falá,

i, na hora da partida,

nem siqué si oiêmo,

i nus xinguêmo,

cumu si podi xingá:

Aba de caruru!!!

Mandinga de sapo seco!!!

Eu dissi:- Ôcê vai pru Nortii eu pru Sur.


Nunca mais queru ti vê,

nem notíça queru tê,i

eu juro pur Deus,

nunca mais queru ti vê,

nem pintada di carvão,

du fundu du quintar...


Onti nóis si incontrêmo,

ninguém tentô disfarçá...

Parti pra riba dela,

Chêiu di fogo nu oiá,

i ela mim deu um arrochoqui,

si ieu fosse um cabra froxo,

tava aqui em dois pedaçu...


I aí, foi tantu bêju gostôsu,

qui nóis alembrêmo...

Cumu u Brasir é piquênu

num dá pra nus separá!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

DADOS INTERESSANTES DESTA CIDADE QUE NÃO DORME NUNCA!




SÃO PAULO - A CIDADE ONDE OS NEGÓCIOS ACONTECEM!


SÃO PAULO - A CIDADE ONDE O TURISMO E O LAZER NÃO DORMEM!



Turismo


» A cidade recebe anualmente 10 milhões de visitantes, entre os que vêm a negócios e/ou lazer que se hospedam na rede hoteleira de São Paulo. Destes, 27% são estrangeiros e 73% são brasileiros.


» Dos turistas internacionais que visitam São Paulo, 38% são da Europa, 30% dos EUA e Canadá, 21% do Mercosul, 7% da América Latina e 4% são da Ásia.


» Do total de turistas brasileiros e estrangeiros que a cidade recebe, 50% vêm a negócios, 35% a lazer e 15% por outros motivos.


» No Brasil os números são respectivamente 27,9% a negócios, 57% a lazer e 15,1% por outros motivos.


» Turistas de Negócios: (permanência média de 3 dias na cidade) - Gasto médio: R$ 600/dia.


» Turistas de Lazer: (permanência média de 7 dias na cidade) - Gasto médio: R$ 180/dia.


Eventos


A capital sul-americana de feiras de negócios realiza 90 mil eventos por ano, que geram:


» Um evento a cada 6 minutos.


» Cerca de 500 mil empregos diretos e indiretos.» 120 das 160 grandes feiras do Brasil.


» Uma feira de negócios a cada três dias.


» 75% do mercado brasileiro de feiras de negócios.


» R$ 2,4 bilhões de receita ao ano.


» R$ 700 milhões em locação de área para exposição.


» R$ 700 milhões em serviços.


» Cerca de 600 mil m² para realização de eventos.


» Só o Anhembi tem em torno de 360 mil m².


» R$ 8 bilhões em viagens, hospedagem e transporte terrestre e aéreo.


» Movimenta 29 mil empresas expositoras.


» Circulam pelos eventos 4,3 milhões de pessoas, entre profissionais e compradores, sendo 45 mil compradores estrangeiros.


» Os setores que mais realizam feiras, reuniões e eventos na cidade são, pela ordem, médico, científico, tecnológico, industrial e educacional.


Hotelaria


» As principais redes hoteleiras nacionais e internacionais estão aqui.


» São Paulo tem 410 hotéis e 42 mil apartamentos disponíveis.


» A taxa de ocupação média dos hotéis e flats de São Paulo em 2007 foi de 67%.


»A diária média no primeiro semestre do mesmo ano foi de R$ 155,00.


» 350 motéis.


» Os períodos de maior ocupação hoteleira são, respectivamente: Outubro 57,36%, Junho 56,51%, Agosto 56,27%, Novembro 56,23%, Julho 54,61%, Março 54,20%, Maio 53,39%, Setembro 52,14%, Abril 47,93%, Dezembro 47,44%, Janeiro 40,42% e Fevereiro 38,21%.


Cultura e lazer


» A oferta turística da cidade totaliza 410 hotéis, 280 salas de cinema, 88 museus, 120 teatros, 27 eventos culturais, 184 casas noturnas, 75 bibliotecas, 41 áreas de patrimônio, 41 festas populares, 72 shopping centers, 53 parques e áreas verdes, 10 centrais de atendimento ao turista, 39 centros culturais, 9 cineclubes e salas especiais de cinema, 7 casas de espetáculos, 7 estádios de futebol, 69 clubes desportivos, 10 ciclovias, 2 iate clubes, 12 clubes de golfe, 1.000 academias de ginástica e 5 parques temáticos.


» Um autódromo: É aqui que se realiza o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1.


» Com mais de 600 peças realizadas por ano, São Paulo é o maior pólo cultural do país (SPCVB 2005).


Gastronomia


» 12,5 mil restaurantes, 52 tipos de cozinhas, 500 churrascarias, 250 restaurantes japoneses, 15 mil bares, 3.200 padarias, 10,4 milhões de pãezinhos por dia e 7.200 por minuto, 1.500 pizzarias, 1 milhão de pizzas por dia, 720 por minuto, 2.000 deliveries.


» São Paulo é a segunda maior cidade em números de restaurantes.*Fontes: Editora Abril, Guia de Restaurantes Japoneses - Editora JBC e Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi)


Consumo e Finanças


» 240 mil lojas


» 4 mil farmácias» 5 mil pet shops


» 72 shopping centers, que recebem 30 milhões de visitantes por mês e contam com 7 mil lojas de vários segmentos


» 900 feiras livres semanais


» 864 mil transações de cartão de crédito por dia


» 1.931 agências bancárias


» 59 ruas especializadas em mais de 51 segmentos


» 34 mil indústrias


» O Produto Interno Bruto (PIB) da cidade é R$ 144 bilhões, ou seja, 15% do PIB nacional (SMF/2005).


» Os nove recursos mais importantes na capital são áreas comerciais, gastronomia, Sala São Paulo, eventos culturais, Mercado Municipal, Anhembi - Centro de Convenções, MASP, Parque do Ibirapuera e vida noturna. O aproveitamento desses recursos é de 56%. (Plano de Marketing do Turismo da Cidade de São Paulo - SPCVB).


Transportes


» 5,2 milhões de carros


» 32 mil táxis


» 21 empresas de rádio táxis


» 10 mil ônibus urbanos


» 990 linhas de ônibus


» 19 terminais de ônibus


» 04 linhas de metrô


» 57,6 quilômetros de linhas de metrô


» 54 estações de metrô


» 513 milhões de passageiros transportados por ano


» 270 quilômetros de linhas de trem


» 91 mil ruas e avenidas


» 5.500 semáforos


» 1.800 postos de gasolina


» 349 mil placas de trânsito


» 500 helicópteros * segunda maior frota do mundo;


» 39 Companhias aéreas


» 04 aeroportos na Grande São Paulo (1 em Campinas e 1 em Guarulhos)


Localidades operadas:


» 25 países e 75 cidades nacionais e internacionais


» 500 vôos diários de Cumbica


» 33 mil passageiros por dia


São Paulo é sede:


» 38% das 100 maiores empresas privadas de capital nacional


» 63% dos grupos internacionais instalados no Brasil » 17 dos 20 maiores bancos


» 8 das 10 maiores corretoras de valores


» 31 das 50 maiores seguradoras


» Aproximadamente 100 das 200 empresas de tecnologias


» BOVESPA – a maior bolsa de valores da América do Sul


» Bolsa de Mercadoria e Futuros - BM&F, a sexta maior do mundo em volume de negócios


» Hospital das Clínicas, o maior e mais renomado complexo hospitalar da América Latina


» O maior shopping center da América Latina – o Centro Comercial Aricanduva, com 500 lojas


» Das 58 editoras filiadas à Associação Nacional de Editores de Revistas, 43 são paulistanas


» Dos 7 portais de Internet mais conhecidos, 6 estão baseados em São Paulo


» 1.769 estabelecimentos de saúde, 40 hospitais públicos, 61 hospitais particulares, 24.957 leitos hospitalares, 99 bases móveis da Polícia Militar, 93 distritos policiais, 04 postos do Poupatempo, 146 faculdades, 26 universidades


» 22 Centros de Educação Tecnológicas


» 10 CITs - Centrais de Informações Turísticas


» A maior Parada do Orgulho GLBT do mundo, que atraiu em 2006 cerca de 2 milhões de pessoas


» A Corrida de São Silvestre, que atrai em média 15 mil corredores de todo o mundo de cerca de 20 países


Dados Gerais


» Fundação da cidade de São Paulo: 25 de Janeiro de 1554


» Localização: Região Sudeste do Brasil


» Distância da Costa: Costa dos Alcatrazes (186 km), Guarujá (93 km), Ilhabela (204 km), Santos (72 km)


» População metropolitana: 18 milhões de habitantes


» População municipal: 10,2 milhões de habitantes


» Área: 1.530 km²


» Idioma: Português


» Telefone: Brasil: 55 / São Paulo: 11


» Altitude: 750 metros do nível do mar


» Umidade Relativa do Ar: 78% (média anual)


» Clima: Tropical Temperado - ( 22ºC a 27ºC no Verão e 15ºC a 21ºC no Inverno)


» Religião Predominante: Católica


» Moeda: Real (R$)


» Fuso Horário: GMT 3 horas



* * Fontes: Editora Abril, PMSP, São Paulo Turismo, Ubrafe, Governo do Estado de São Paulo, Infraero, Fohb, São Paulo Convention & Visitors Bureau, Revista Latin Trade, IBGE, MEC, Sebrae, Guia de Restaurantes Japoneses - Editora JBC, Site Guia de Motéis, Banco Central do Brasil, ADETAXI, Metrô, Assoc. Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi) e SPTrans.


Japão - Veja as maiores curiosidades sobre essa potência


JAPÃO

Um exemplo de organização


No Japão, o número de acidentes de trânsito cresceu de 526.000 em 1983 para 803.000 em 1998. No mesmo período, o número de mortes se manteve estável. Nesses quinze anos, a quantidade de casamentos também permaneceu a mesma, em torno de 780.000 uniões por ano. Os dois dados fazem parte de um dos sites mais completos sobre o Japão, a segunda maior economia do mundo. Em http://www.jinjapan.org/ encontram-se essas estatísticas e outras informações interessantes para quem pretende conhecer um pouco mais da cultura local. Há desde a divisão geográfica do país até uma página especial para crianças. A altura do Monte Fuji também está entre os dados disponíveis. São 3.776 metros.

A fantástica fábula desencantada (sátira)






A fantástica fábula desencantada



Era uma vez dois irmãos Jacob e Wilhelm que viviam na Alemanha nos anos de 1730. Interessados por escrever contos de fadas, contos de encantamento e contos maravilhosos criaram mulheres encantadas perseguidas por madrastas malévolas com irmãs adotivas mimadas e incapazes. Em outro momento concebiam lindas princesas que de tão boas beijavam feras que se transformavam em lindos príncipes. Terminaram quase todas as fábulas com personagens viviam felizes para sempre. Até que um dia...Surgiu a tal Chapeuzinho Vermelho. Personagem que não se encaixava em nenhuma história. Moça ou menina ninguém sabe ao certo. Nem tampouco se sabia da existência de mãe ou pai dessa personagem, será que era órfã a pobrezinha? Nesse conto não havia nenhuma fada e nem havia nenhuma bruxa. Para falar a verdade nem ao menos se conhece seus verdadeiros autores, mas torcemos para que sejam os Irmãos Grimm.


Bem... Imagina-se que alguém nessa história deveria conhecer as tendências da moda e aproveitou-se para lançar o capote vermelho com capuz que veio fazer estrondoso sucesso no mundo da moda até os dias de hoje com algumas variantes na cor. Uns autores de causos e lendas penderam também para a predominância da cor e criaram um moleque negrinho brincalhão que usava capuz vermelho. Mas esse não era bom nem ruim, apenas arteiro.


Não percamos de vista nossa personagem, essa pobre moça sem nome que não era princesa, nem bela, nem nada, apenas nos consta que era boazinha e usava um capuz vermelho. Enfim uma personagem inútil, e o que escrever sobre ela? Teriam que criar alguém que tivesse ativa participação na história já que esta personagem ficava apenas indo e vindo da casa da vovó. Nem essa vovó da moça (única parente que se conhece mesmo após intensa investigação) fazia algo consistente na fábula, passava ela todo o tempo na cama, puro ócio.


Os fofoqueiros de plantão diziam que na verdade essa avó era para ter sido uma vedete do teatro de revista carioca que não conseguiu nenhum papel importante nas badaladas noites do Rio de Janeiro e estava à beira da aposentadoria pelo INSS, mas como haveria um enorme desencontro de tempo na história, botaram-na na cama.


Outros diziam que se sabia de fonte não fidedigna que a vó da moça era proprietária de uma elegante mansão na floresta, premio do jogo do bicho eles afirmavam, onde há tempos recebia garotos de programa na calada da noite e depois da orgia nadavam pelados no lago existente atrás da casa. E para impedir a neta xereta de chegar lá de sopetão e pega-la em plena orgia, dizia então a vó para a pobre e idiota menina que a floresta era escura perigosa e cheia de feras.



Mas nada abalava o bondoso coração da Chapeuzinho Vermelho que imbuída de sua angelical índole atravessava a indolente floresta para levar doces do Amor aos Pedaços para a vovozinha, e fazia isso todos os dias. Meu Deus, essa mulher deveria estar gorda como um cachaço! Ou prestes a morrer com altas taxas de açúcar no sangue... (Soubemos que há tempos não recebe mais os garotinhos de programa, mas finge doença para receber os médicos do SUS os quais tenta cortejar com sua silhueta magrela que míngua sobre os sujos lençóis da MMartan que um vendedor ambulante fez chegar aos cafundós.)Mas cá entre nós, houve um tempo em que suspeitou-se de que a moça queria apenas herdar a casa da velhinha.


E se isso era de fato verdade, essa tal Chapeuzinho Vermelho era tão determinada nessa maldade que enfrentou inúmeras vezes os animais da floresta sem nunca faltar em única visita à casa da avó. Até que um dia deparou-se com um Lobo que os autores resolveram chamar de Lobo Mau e até hoje chamam-no Lobo Mau. Esse bicho seria o personagem de mais forte atuação no texto, mas o roteiro mudou num instante. Ele era muito feio, feio pra caramba, mas tinha uma linda voz quando urrava elegante para ela, tinha corpo esbelto e peludo, a boca carnuda que cantava e cantava, tinha os olhos flamejantes e as unhas de fazer inveja a qualquer mortal. A moça pensou: É hoje ou nunca mais. Se não me agarrar agora com esse coitado que pensa que é mau vou morrer solteirona ou comida por um bicho papão. Foi assim que saborearam os docinhos da cesta, falaram da droga da vida, e amanheceram juntos na moita. Passou a chamá-lo carinhosamente de Lobão e assim tornou-se conhecido.A moça que não era encantada e nem encantadora só podia mesmo apaixonar-se por um animal sem pedigree que não se torna príncipe hora nenhuma nem depois do beijo.E como era de se esperar, com personagens como esses, não dá para casá-los e dizer que vão viver felizes para sempre... Não é mesmo?


Talvez por essa história parecer sem pé nem cabeça, e não merecer nenhum crédito é que eles não assinaram o texto quando o escreveram. Eu também não assinaria.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dicionário caipira


A
acabrunhado: triste, envergonhado

acoitá: esconder, proteger

agorá: desejar mal, desejar que algo bom não ocorra

agrado: o mesmo que gorjeta, presente

ara: ...ora!...


arcado: curvado

amuado: triste

avuado: distraído

B
bacurim, bacuri: criança recém-nascida


balangá: balançar

barriga d'água: efeito colateral de esquistosomose
beiço: lábios

bestagem: bobagem

bigo: umbigo

birrento: que faz
birra; desaforado

boca-de-pito: gole de café frio
C
caboco: pessoa muito simples
cafundó: fim do mundo, lugar ermo

cambada: bando (de malfeitores)

cambito: perna fina

campiá: procurar
cacunda: costas
cósca (fazer cosquinha): cócegas


D

dá o pira: ir embora

dá trela: alimentar conversa fiada

dá um pito: dar uma bronca

dasveis: às vezes

de banda: de lado

de jeito e manêra: de modo algum

desgueio: atravessado

destá: deixe estar



E
Emborná: espécie de alforge dotado de alça que se leva no pescoço e/ou ombro

enfezado: nervoso

enrriba: em cima

escangaiado: destruído

estórva: atrapalha



F
fasto: ré, andar para trás

fiá: vender fiado

fincá: enfiar, cravar

fôrgo: fôlego

fuá: encrenca, escarcéu

fúça: cara, rosto



G
gaitada: risada estridente

ganhá os tufo: ganhar muito dinheiro

gastura: nervoso

gorá: agourar, também se diz dos ovos que não fertilizam

gróta: trecho de mata de difícil acesso entre dois ou mais morros

guspe: cuspe



H
home quá: deixa para lá

humirde: humilde



I
inté: até

intojado: enjoado; metido



J
jacá: balaio

janota: homem vestido com muito apuro
Jojoca: soluço



L
ladino: esperto

lavá a égua: se dar bem; ganhar bom dinheiro

loróta: conversa fiada


M
marrudo: mal-encarado

meia-pataca: insignificante

mió ou milhor: melhor

mistura: guarnicão do prato principal

módequê?: qual a razão?

munheca: pão duro; sovina

muntá: montar



N
Nhô: tratamento respeitoso= senhor

nódia: nódoa


O
ocê: você

orná: combinar



P
pageá: adular

panca: jeito pedante
panelada: cozido de frango

papudo: convencido; cheio de si; pessoa com bócio

pata-choca: mulher desmazelada

pé de boi: pessoa decidida, muito trabalhadoura

pelejá: lutar

picá a mula: ir embora; esporear a montaria para sair mais rápido

picuinha: intriga

pinchá fora: jogar fora

pinguço: bêbado
purgá: verter pus


Q
quá!: qual o quê!

quebra peito: cigarro de fumo ordinário ou muito forte

quebranto: feitiço que qualquer um passa a outrem, por invejar demais algo que o outro possui quentura: calor

questã: briga jurídica; pergunta

quiprocó: briga generalizada



R
rabêra: o mesmo que rabeira

rádia: emissora de rádio

réiva: raiva

relá: tocar (com as mãos ou outra parte do corpo)

relampo: relâmpago

rinchá: relinchar; rinchar



S
sororóca: mandinga para estourar pipóca; estertor de doente terminal

sortá os cachorro: xingar; reclamar aos gritos

suzim: sozinho




T
tá loco, sô: mesmo que "duvido de você"

tacá: jogar, atirar com a mão (pedra)

táio: talho; corte

tôco; pessoa muito rude; pedaço pequeno de um tronco de árvore

trelê: resmungo

trem: objetos em geral= louças, móveis, mals, etc.

trincá: rachar

tropicão: tropeço muito forte




U
unhero: unha inflamada



V
Vam'bora: vamos embora

vixe: valha-me Deus!; Virgem Maria!


X
xicra: xícara

xixilenta: fedida; mal cheirosa
xingo: ofensas

xôxa: sem graça

xurumela: história mal contada

Z
zambeta: que tem a perna torta

zarôio: caolho zóio: olho
Zoada: barulheira
zoêra: tontura

zorêia: orelha

zunhada: unhada, arranhar com as unhas



Pequeno Dicionário de Caipirês / Antonio Carlos Afonso dos Santos - São Paulo: Editora Nativa, 2001


Toinho e Bigaiu - A doença do moleque



A doença do moleque


Toinho andava disgostoso por causa da doença do menino Zeca. Um calombo crescia no pescoço dele que não havia modo de brecar. A mulher dele, dona Bigaiu mulher simplória, mas determinada, cansou de ver a testa febril do moleque e resolveu ir até a casa da benzedêra Filó buscar ajuda.


Danou a correr pela trilha de terra que inté levantava poêra.Chegou esbaforida que só vendo!


Filó pegou uma benzeção no terreiro e voltou depressa com uns galhos de mato na mão, e juntas foram até a casa ver o menino doente.


Filó fez um chá com o mato que trouxe e disse que o menino estava com caxumba. Isso era certo! Toinho e Bigaiu se olharam e disseram: Ah, sei.


Filó recomendou que o garoto ficasse deitado para não complicar a doença. Disse e olhou para o casal. Tornou a explicar. É perigoso ele ficar correndo por aí, ele pode ficar rendido. E o casal se entreolhando com expressão de tudo entendido: É verdade, é verdade!


Filó percebeu que ainda faltava informação para o casal e disse: Seu Toinho, se o menino não guardá repouso a caxumba desce pro escroto e ele pode ficá istérico. É isso que dizem por aí.


Agora sim parecia que tudo tinha sido entendido. Se ainda faltasse alguma explicação, eles que fossem buscar com o doutor letrado, pois o repertório de Filó tinha se esgotado. Então voltou para casa.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Aventura no cinema (da série infanto juvenil)





Aventura no cinema


Andei rápido pela sombra não queria chegar lá todo suado. Que primavera estranha, um calor danado! Olhei pro relógio tantas vezes que parecia que o tempo não passava. Não é bom chegar no cinema quando o filme já começou ir entrando pela escurão tropeçando nos degraus. E como encontrar a turma? No mínimo iam me zoar. Poxa, ainda tem a fila do ingresso caramba! Mas não estava muito grande e logo logo estava eu com ingresso da sala quatro na mão. Eu tava louco pra ver o filme do Pacino. Adoro ele! Às vezes não gosto quando ele faz papel de bandido. Pra mim ele devia ser sempre mocinho. Ebaaaaa. Corri pra entrada, mas não corri muito não queria chegar esbaforido. Mais esbaforido do que eu já tava. Olhei pro meu tênis novinho e fiquei super contente, agora sim eu fazia parte da turminha! Todos iam de tênis novo. Eu tive que quase implorar pra minha mãe comprar um. Ela fez chantagem disse que só compraria se eu desse banho na Teca. Tive que dar e foi super divertido. A Teca tem pêlo marrom e brilha quando tá limpo. Brincamos muito na água. Labrador é assim mesmo, adora brincar na água. O próximo banho eu quero dar de novo. Tadinha, ela vai pro petshop e aquele cara estúpido nem brinca com ela. Noooosa, quando abri a porta foi aquele breu. Entrei e parei, não via nada. Na telona estavam mostrando as saídas de emergências e aquelas coisas que eles mostram pro público. Aí eles pediram pra desligar os celulares. Putz, peguei o meu pra desligar e vi uma mensagem da turma. Eles tinham ido assistir outro filme de aventura na sala sete. Caramba! Tentei sair, mas o filme já ia começar e tive que sentar pra não atrapalhar os outros. Sentei em qualquer lugar e tentei me concentrar no filme, mas minha cabeça estava lá na sala sete. Que zoêra! Ai o Pacino apareceu com aquele jeitão de galã e eu comecei a me interessar pela história. A pessoa do meu lado não parava de comer pipoca, aqueles combão, sabe? Fazia crock crock quando mastigava e tinha o cheiro de manteiga. Olhei tantas vezes que ela teve que me oferecer e eu aceitei é claro. Foi aí que percebi que ela era linda! Não pensei mais na sala sete. Pensei um pouquinho e fiquei curioso, o que será que eles estavam pensando de mim? Tudo na quatro estava bom demais! De vez em quando nossas mãos se encontravam dentro do combo. Não prestei mais atenção no filme. Deixei meu ombro encostar no dela, e ela deixou o pé dela encostado no meu. Quando as luzes acenderam vi direitinho o rosto dela parecia uma bonequinha japonesa. O cabelo bem pretinho cortado que nem uma tigelinha. Limpei o sal que estava parado no canto da boca dela e ela fez “aahhh”. As mulheres são todas assim que nem anjinho?


Marcamos pro outro sábado A era do gelo. Não vou querer chegar atrasado nem um minuto.

Lá vem a colher!




Lá vem a colher!

No prato os grãos de feijão estavam pretos de raiva. Nadavam em caldo grosso e isso não lhes agradava nadinha.

De repente uma mistura de farinha se embolou a eles deixando-os secos e presos entre si. Isso não lhes agradava nadinha.

E lá vinha uma colher de sopa. Imaginem uma colher de sopa!

E não adiantou nadinha que eles não gostassem da colher, pois foram engolidos rapidinho.

Abrolhos




Do outro lado do balcão os olhos esbugalhados laçaram-se em minha direção. Bêbados mal conseguindo manterem-se fixos , engoliam-me.
Oscilavam em longas piscadelas daquelas que quase não voltam, mas iam se reabrindo lentamente.

Às vezes pareciam distantes, mas voltados para mim. Outras, mais intimidativos, me assediavam trôpegos.

Eram olhos de olhar evasivo, perdidos embora me seguissem.

Desequilibrados pelos enormes e seqüenciais goles de vodca os olhos passaram a vagar em sua órbita. Pesados fecharam-se num sono ébrio esquecendo-se de mim.

Medonha transformação




Matei uma mulher esta noite...

Acordei estranha esta manhã, parecia sufocada. Peguei-me apalpando os braços, pernas, tocando meus olhos, lábios, como se estivesse constatando a existência de cada órgão. Permaneci sentada à beira da cama por não sei quanto tempo enquanto olhava atentamente o quarto, o rádio relógio. Fui checando tudo. Cheguei a encantar-me com a cortina branca que sacudia com a brisa na manhã ensolarada. Senti-me satisfeita por estar bem. Tem sido assim desde os meus vinte anos...

...Estava eu parada à beira de uma rodovia. Passava da meia noite chovia muito, os clarões dos raios afugentaram os motoristas da estrada. Exceto o automóvel branco de um homem pardo e sua esposa que assustados com o temporal resolveram encostar por uns instantes. Deram comigo e mostraram pavor quando um clarão me alumiou. Fui logo cumprimentando o casal e pedindo carona. Não portava mala, apenas pequena mochila às costas, o que facilitou que me aceitassem. Estava molhada e pedi desculpas por isso. Eles, sem graça, sorriram e fizeram sinal de que isso não seria problema.

Transcorria tensa a viagem por causa do tremendo temporal, e também por causa da estranha passageira dentro do veículo. Segui calada, e isso causava ainda mais constrangimento aos ocupantes.

Era tudo tão desconfortável que me provocava taquicardia. Tanto que aos poucos algumas mudanças físicas começaram a me inquietar. Senti meus cabelos se arrepiarem devagarinho e, embora tentasse, não conseguia controlar isso. Minhas unhas cresceram num piscar de olhos e os pêlos surgiram nas mãos trêmulas, nos braços, pernas, rosto e peito. Tentei esconder-me do casal dobrando meu corpo para frente, mas quanto mais aflita mais favorecia o surgimento de outras mudanças. Minha boca foi tomando forma animalesca e os dentes aumentaram de tamanho mal cabendo dentro dela, a língua de formato alongado e estreito tinha aspereza ao toque não retinha a saliva que escorria pelo queixo de couro rijo. Senti meu coração pular compulsivamente dentro do peito e rugi quando tentei dizer algo. Assustada, a mulher voltou-se para mim e arregalou os olhos castanhos ao ver o animal no banco de trás. Não conseguiu emitir qualquer som, pois minhas unhas cravaram sua jugular fazendo escorrer o sangue quente que engoli vorazmente. O automóvel titubeou na pista e rodopiou no asfalto molhado, o motorista gritava alucinadamente enquanto tentava frenar o veículo desgovernado. De repente ele foi lançado para fora do carro, estilhaçando o vidro do pára-brisa, quando do impacto contra o guard-rail. Saí calmamente e pus-me a andar pelo acostamento com a chuva fria sobre minha cabeça, relaxada e calma, seguia devagar com passos marcados por um rítimo quase musical.

O corpo todo suado e o coração aos pulos foram entrando em normalidade com a chuva fria que tudo acalma. Tentei falar algo para ouvir minha própria voz e o som era agradável. Meu corpo tinha de novo as formas femininas.

Caminhei. Caminhei sorrindo satisfeita.

Conto insólito: DIA DE AZAR





Querido diário,

Hoje acordei naqueles dias. Nem devia ter me levantado da cama, mas aquele maldito rádio-relógio liga sempre às sete horas. Será que não dá pra programar finais de semana nele? Qualquer hora jogo aquele idiota contra a parede!

Mas hoje se não fosse o rádio-relógio seria o telefone. Não é que tem gente mal educada que liga pra casa dos outros às sete e meia da manhã? Meu essa gente não dorme né? Caramba, quando eu desliguei o infeliz do relógio pra dar mais um soninho de quarenta minutos me vem esse demônio do telefone tilintar no meu ouvido. Putz, mas quando encontrar meu irmão vamos acertar isso. E sabe pra que ele me acordou diário? Pra me avisar que estava na hora de levantar e que eu poderia me atrasar para a prova do vestibular. Carácas, ele me irritou muito com isso, nem me lembrava dessa tal prova. Eu odeio que me acordem cedo!

Afinal me levantei, pois parecia que havia um complô pra acabar com meu sossego. Vixi, já estava me atrasando. Me vesti rapidinho e passei pela cozinha pra um nescauzinho básico bem geladinho, e chuáá, derramei o copo de chocolate na camiseta. Não te falei que era um complô? Putz, ainda querem que eu me submeta a uma prova de vestibular num dia azarento como de hoje! Voltei correndo pro quarto, troquei pela primeira que estava sobre a poltrona e saí em disparada que nem doida.

No quintal aquele gato fedorento da Dona Fran me espreitou outra vez não me deixando passar. Meu, comecei a gritar: “Tira esse bicho traiçoeiro da minha frente senão eu ponho fogo nele”. Ah, foi belezinha, ela veio que nem bala, de cara feia dizendo que ia me denunciar pra Associação Protetora dos Animais. Eu nem tchum pra ela e saí correndo enquanto gritava que não ia dar tempo disso porque o gato dela tinha as horas contadas. Quem tem gato que cuide dele.

Perdi o ônibus das sete e cinqüenta. É hoje!

Pensei em voltar me deitar de novo e recomeçar, mas havia uma prova me esperando. Mas lá vinha a Dona Wilma com o fusca azulzinho dela. Ela estava indo levar a Vera pra fazer a prova. Acenei e ela parou. Pelo menos uma coisa deu certo hoje. Até o pneu furar e ela não ter o maldito macaco pra trocá-lo. Meu, que zica! Mas aí, ela que é tão expedita, deu sinal pra um táxi e nos mandou para a prova. Santa Wilma! Ufa, chegamos quando os portões estavam fechando.

Prova fácil, pensei eu, molezinha. Fui entrando para a minha sala em meio a uma multidão que caminhava junto. Parecia que estávamos indo pra câmara de gás. Odeio filas!

Lotação completa na sala. Um tom formal entre todos. Silêncio sepulcral. Notei que eu estava roendo o lápis. Que nojento isso! A inspetora pediu: coloquem sobre a carteira o RG e o protocolo de inscrição. Ahn! Meu mundo veio abaixo! Senti meu sangue subir para a face e um formigar na ponta dos dedos.

Maldita hora que troquei de blusa!

Eu disse que seria melhor não ter saído da cama. Não disse?

Mini conto - Rápida solução!




Á beira do abismo com os pés juntados Jurema sentia-se feliz por ter finalmente arranjado uma maneira rápida de acabar com seu casamento tempestuoso.

Mini conto - Fórmula em cena.





Nenhuma pista. Tamborello foi a última.

Mini conto - Má notícia!




Sofri estranhamente quando soube que tinha dois meses para viver o resto de minha vida. O que vou fazer enquanto espero todo esse tempo passar?

Clara hipocondríaca




É pouco, dizia Clara, quando o assunto era doença
Ninguém sentia mais febre , ninguém podia supor.
E quando a amiga reclamava
Ela logo ia dizendo: é pouco! A minha é a maior dor.

A mais ardida gastrite
A lente com maior grau
A fratura mais exposta
A pressão mais oscilante
A raiz mais inflamada
A unha mais encravada
A febre mais convulsiva
A mais alérgica rinite
O parto mais perigoso
A mais famosa faringite

É isso, dizia Clara, a minha doença é maior
É mais contagiosa, mais aguda e dolorida
Tanto que ninguém, nenhum médico até hoje
Me curou nem da popular dor de barriga.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Reza braba - AMM




Reza braba

Soco forte no queixo. Tonteou prum lado, e lá vinha outro murro de punho fechado.

Tonteou de novo. Caiu o pobre. O rosto inchou na hora. A boca floreou. O sangue verteu. As pernas trogloditaram pela estrada seca numa fuga desesperada. O homem tinha medo da surra, mas não podia evitá-la. Apenas pedia “PelamordeDeus pára cum isso”. Já ia pra lá mês que apanhava quando passava por lá, o coitelinho. Apanhava por apanhar...

O amor que morava no coração dele, rareou. Chegou a raiva. Muita raiva dos Nereu.

No espelho de casa viu os olhos avolumando. Pensou nos Nereu. A cara arredondava pra caber os olhos crescidos. Inchavam, cresciam de dar medo. Duas bolas acesas na cara redonda do infeliz. Pensou na raiva. Chamou a mulher aos berros. Assustada, benzeu-se e entoou uma reza em voz alta. Era o coisa ruim! - dizia ela. Ele rezou também. De nada adiantou. Suas orelhas se movimentavam sem querer, à olhos vistos.

Incharam e cresceram, cresceram de dar medo. As duas orelhas ficaram enormes, maiores que a cara. A mulher gritava. Ele espumava de raiva. Ela rezava fazendo o sinal da cruz. De nada adiantou.

Saci não existe! - AMM





Saci não existe!


O fogão de lenha clareava o cômodo bem arrumado de Juvenal no sitio Florada do Norte. Juvenal então se embrenhou na roça desde moleque e de lá nunca saiu.

Plantava cana e um eito grande de milho do qual se orgulhava. O trabalho sob o sol nunca desanimou o sitiante.

Incrédulo de todas as religiões até mesmo das lendas sobre saci ou lobisomem, achava graça quando alguém dizia que viu um saci, ou que tem medo de lobisomem. Tinha pena das pessoas que acreditavam em coisas do outro mundo: “Essas coisas não existem”...
Nessa noite quando Juvenal insono perambulava pelo cômodo, viu na parede sua sombra e a fazia crescer quando se afastava, e a diminuía quando se aproximava.

Brincou com essa figura por alguns segundos a voltou-se para o bule de café que era mantido na beira do fogão. No entanto algo lhe chamou a atenção e o fez olhar novamente para sua sombra que não diminuiu quando ele se afastou. Intrigado Juvenal aproximou-se o mais que pode quase encostando o nariz na parede, e mesmo assim a sombra ficou imóvel. Ele riu desconcertado e voltou para seu café tentando esquecer o acontecido. Mas olhou novamente para parede e lá estava a sombra dele com o nariz encostado à parede como se fosse um espelho negro. O homem assustou-se e a caneca de café quente lhe caiu sobre o pé descalço levando-o saltitar agarrado ao pé tal a ardência da queimadura. Parou ao ver que sua sombra saltitava numa só perna e com os braços levantados parecendo rir. Juvenal encostou-se no fogão e agarrou um tição posicionando-se em defesa daquilo que lhe era estranho e que estava dentro de sua casa: “quem está aí?”. Não havia resposta apenas a sombra que teimava em mover-se quando Juvenal estava parado com o tição aceso na mão. Ali ficou até o fogão queimar toda a lenha e a sombra desaparecer.

Durante o dia o homem não sossegou e já temia pela noite que teria. Na roça conversou com os colegas de empreita que lhe disseram que era o saci que estava brincando com ele. Outros disseram que o saci tinha sido visto pelas redondezas e que gostava de brincar com gente que não acreditava nele. O vendeiro afirmou que era o saci e completou que se tratava de um moleque negrinho com capuzinho vermelhinho, e sempre trazia um pito nos beiços, que pulava sempre porque só tinha uma perna. Foi quando Juvenal lembrou-se da sombra pulando numa perna só com os bracinhos levantados: “É ele! Só pode ser essa coisa ruim que ta lá em casa. E agora o que eu faço pra mandar ele embora?”. E muitos palpitaram dando ao rapaz muitas fórmulas para despachar o saci. Ele tinha que caçar ele numa peneira e engarrafar a coisa ruim. Ou então provocar um redemoinho para levar o negrinho embora. Ou até acender vela no terreiro à meia noite perto do galinheiro para que a coisa levasse uma galinha e fosse embora de vez.

Ao anoitecer Juvenal tratou de arrumar logo uma peneira e se posicionar no quintal para caçar o negrinho. Esperou muito até o que o sono veio e a coisa não apareceu.

Acordou com frio já de madrugada e resolveu ir para cama. Ao entrar notou que a porta estava escancarada e viu na parede a sombra que pitava. As pernas do homem tremeram pela primeira vez. O negrinho sagaz pulou para cima do fogão e derrubou as panelas que estavam dependuradas, fez uma ventania na casa que os móveis até andaram de lugar. Juvenal rezou muito sem saber para qual santo deveria rezar. Apenas rezou pedindo para levar de lá a coisa ruim. Pela manhã Juvenal não foi para roça, foi à igreja ver o Padre Luiz que lhe ensinou umas rezas e lhe deu água benta para jogar no saci. Isso sim seria certeiro para afastar de vez a coisa ruim.

À noite Juvenal ficou à porta da casinha onde havia uma vela acesa e um potinho de água benta. Ajoelhado o homem rezava fervorosamente desta vez para o santo certo.

Santo André das Almas estava ali representado pela imagem postada ao lado da vela e pelas rezas de Juvenal. Quando num certo momento as galinhas cacarejaram numa arruaça no galinheiro, e as cabras correram alvoroçadas pelo quintal, Juvenal já podia adivinhar o que estava acontecendo, era o saci brincando com as criações.

Podia ser ouvida ao longe a oração de Juvenal. Com o vento a vela se apagou então o homem apanhou o pote de água benta e se levantou. Numa mão o pote e na outra a imagem de Santo André. A ventania aumentado, aumentando e as tralhas do quintal voando de um lado para outro. Juvenal rezava, rezava, rezava e salpicava gotículas de água benta pelo ar. Até que num momento qualquer tudo cessou, a ventania abrandou e a criação aquietou-se. A reza continuou até que o homem viu as folhas do canavial se afastando com alguém correndo desembestado no meio da plantação.

No dia seguinte na roça havia muita especulação sobre o acontecido no sítio, mas Juvenal disse para os colegas: “saci não existe, mas se ele resolver aparecer lá de novo eu cato ele ponho num saco e trago aqui pra vocês verem a coisa ruim”. Os colegas foram unânimes em dizer: “não carecia essa prova de jeito nenhum”.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Contas pagas...




Noite fria na dura calçada da capital paulista. Uma névoa pinta os ares e turva os olhos da profissa exageradamente maquiada que baforava um Free com filtro. A roupa inadequada para o clima era apropriada para atrair olhares masculinos. Estava fraco, passava de meia noite e nenhum cliente apareceu.

Geni era diferente das outras moças, tinha os cabelos naturalmente ruivos e os lábios atraentes, vestia-se com estilo próprio e era a mais procurada. Mas estava cansada. O salto alto já a incomoda quando enrosca nos buracos do cimento. As esbeltas pernas geladas cobertas por meias pretas movimentavam-se com elegância de um lado para outro no passeio público. Os seios quase à mostra exuberavam como grandes frutas maduras. Vez ou outras ensaiou poses ousadas com o poste de iluminação. Mas não havia ninguém na rua além das moçoilas.

Tinha que pagar o aluguel no dia seguinte ou corria risco de ser despejada. Há muito pensava em se mudar para um apartamento só dela, mas os ganhos ainda não eram bastante. Esperava pelo cavalheiro estrangeiro que prometeu vida séria num país que ela nem sabia dizer o nome. O nome dele também era tão complicado de dizer que ela nem ousava. Começa com “V”.

Um farol então quebra a esquina e quase cega os olhos verdes da moça. O automóvel avança devagar próximo da calçada e como numa vitrine o motorista passa os olhos pelas dezenas de raparigas que precisam ganhar a vida. A luz do freio se acende ao lado de Geni. Ela se curva sexy e encara seu cliente com um enorme sorriso de contas pagas. A porta se abre para ela que altiva se senta ao lado do motorista. Quase não entendia o que ele perguntava, mas respondia “Yes”. Foram para um luxuoso hotel localizado nos Jardins onde parecia uma rainha sobre o tapete vermelho do hall. Foi quando notou que o cliente era seu estrangeiro.

Geni nunca mais foi vista na calçada de lama. Mas escreveu para as amigas da calçada da fama...

AMM

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Meu interior - Gilda Pereira de Souza



Meu interior
(Dedico à artista plástica Alice de S. Carracedo)



As cores de
Meu arco-íris
Eu mesma pintei

Os acordes de
Minha melodia
Eu mesma criei

As flores do jardim
Que enfeitam meu lar
Eu mesma plantei

As luzes que iluminam
O palco da minha vida
Eu mesma acendi

E as poesias do livro
Que contam
As histórias que vivi
Eu mesma escrevi.



Gilda Pereira de Souza

domingo, 3 de agosto de 2008

Comparando esforços - Ana Maria




Lá estava eu na oficina com a minha CB 125 para uma revisão. Diante de tantas motos cilindrosas de alta potência, me sentia até pequenininha.

O Nando, dono da oficina, mecânico habilidoso e experiente, fazia qualquer tipo de reparo mecânico e deixava a máquina novinha em folha. Ele tinha muito orgulho do que conhecia, e sabia que nem na oficina das fábricas os consertos eram feitos com tanto primor.

Enquanto esperava a minha vez de ser atendida, ouvia as queixas do Nando, dizendo que trabalhava feito um doido e não dava conta de saldar as dívidas. Reclamava que ressuscitava uma moto e não ganhava quase nada por isso. Ele falava enquanto lidava com Yamaha que chegou de um acidente. Notei que o dono da moto, ali num canto, não falava nada, apenas ouvia.

O Nando virou para ele e disse que a moto já estava nova de novo. O proprietário agradeceu elogiando o trabalho do rapaz. O jovem descontente com o valor que iria cobrar pelo serviço tão esmerado, comparou seu trabalho ao de um cirurgião:

- Aí, doutor Fernando, o senhor é cirurgião, e sabe que não é fácil abrir o cara, trocar válvulas, coração, e limpar os canais, e o paciente acordar assim novinho em folha. Senhor não acha que meu serviço é igual ao seu, e que eu deveria ganhar o mesmo que o senhor ganha nas cirurgias de coração?

E o médico, pacientemente, respondeu:

- Não, Nando, não se podem comparar os trabalhos. Tente fazer isso tudo com o motor funcionando.

Doença esquisita - conto caipira - Ana Maria




Toinho andava disgostoso por causa da doença do menino Zeca. Um calombo crescia no pescoço dele que não havia modo de brecar. A mulher dele, dona Bigaiu mulher simplória, mas determinada, cansou de ver a testa febril do moleque e resolveu ir até a casa da benzedêra Filó buscar ajuda.

Danou a correr pela trilha de terra que inté levantava poêra.

Chegou esbaforida que só vendo!

Filó pegou uma benzeção no terreiro e voltou depressa com uns galhos de mato na mão, e juntas foram até a casa ver o menino doente.

Filó fez um chá com o mato que trouxe e disse que o menino estava com caxumba. Isso era certo! Toinho e Bigaiu se olharam e disseram: Ah, sei.

Filó recomendou que o garoto ficasse deitado para não complicar a doença. Disse e olhou para o casal. Tornou a explicar. É perigoso ele ficar correndo por aí, ele pode ficar rendido. E o casal se entreolhando com expressão de tudo entendido: É verdade, é verdade!

Filó percebeu que ainda faltava informação para o casal e disse: Seu Toinho, se o menino não guardá repouso a caxumba desce pro escroto e ele pode ficá istérico. É isso que dizem por aí.

Agora sim parecia que tudo tinha sido entendido. Se ainda faltasse alguma explicação, eles que fossem buscar com o doutor letrado, pois o repertório de Filó tinha se esgotado. E voltou para casa.

Conto do improviso - Ana Maria



Agonizava Seu José Pereira da Silva no passeio estreito de uma Rua Singular. No bolso da camisa a velha carteira de identidade lhe dava o nome.

Olhares apressados de curiosos conferiam atônitos a gravidade da vítima sem nenhum compromisso com ela. Passos ligeiros quase lhe pisavam na mão. Alguns paravam por alguns minutos e esperavam que ele reagisse, e como isso não acontecia, torciam para que finasse logo pois tinham pressa.

Eu me abaixei e segurei sua cabeça seguindo orientação de um bombeiro num programa de televisão. Era para fazer apenas isso, então fiz. Perguntaram-me se era meu parente, e quando eu respondi que nem o conhecia, mostraram-se irônicos.

Olhos fechados, corpo trêmulo, espumando pela boca rija, era assim que estava José Pereira estirado na calçada de cimento, depois de ter sido atropelado. “Foi só de raspão”, diziam alguns. Mas ainda assim lá estava o homem quase sem vida. Desconhecido de todos, ninguém se interessou por sua salvação.

Uma mulher falava afoita: “Eu vi tudo, ele atravessou sem olhar. É nisso que dá a pressa!”. E dessa forma o pobre desconhecido Zé Pereira passou a culpado do próprio atropelamento.

Alguém chamou o resgate do Corpo de Bombeiros dizendo que a Rua Singular estava com trânsito parado por causa de um homem quase morto, que viessem logo para liberar o trafego.

Mas não deu tempo, Zé finou. Finalmente, levaram-no. E assim pode o transeunte circular à vontade sem ter que desempenhar nenhum outro papel. E fluiu o trânsito para alegria dos apressados motoristas.

Alô? Falta bom senso - Ana Maria




Tenho ouvido que a Telefônica é a campeã de reclamações por parte dos usuários assinantes e fico perplexa diante disso. Fico sim, porque me lembro de ter ouvido há alguns anos, não muitos, que o sistema de telefonia no Brasil era o empregado mais barato que alguém podia ter, o mais eficiente, e o que cobrava o menor imposto. Não é para ficar perplexa com a involução do sistema?

Eu, assim como milhares de brasileiros, que têm telefone em casa ou no escritório foram sentindo no bolso o “crescimento” de nossas contas telefônicas na mesma proporção que aumentaram os problemas com a empresa responsável. Ou seria irresponsável ?
Hoje a Telefônica detém o rancking de maior empresa no ramo de “saídas estratégicas” para burlar o usuário. E com isso foram se somando centenas de processos e reclamações que ela ostenta com um certo “orgulho”, o que me faz temer pelo insucesso dos resultados de defesa ao consumidor.

Não se trata de “perseguição”, não. Certa vez, decidi testar a idoneidade da empresa e retirei da tomada uma de minhas linhas telefônicas, que depois de muitos chamados para resolver um chiado que havia na linha, não fui atendida à contento tornando a linha inoperante. Aguardei a conta telefônica que me veio cobrando uns tantos pulsos. Assustei. Liguei para eles, e depois de muitos telefonemas, pois os operadores estavam sempre ocupados, consegui finalmente me posicionar. Mas a operadora, que já tinha sido informada de que o aparelho telefônico não estava conectado, alegou que seriam então cobranças de pulsos derivados de serviços e testes que os técnicos faziam em nossas linhas. Ahn? Duzentos e quarenta pulsos de testes? A coisa ficou pior ainda. Cobravam o que não usei, mas que a própria Telefônica usou.
Telefonemas pra lá, e pra cá, e não consegui nada em termos de ressarcimento. Desliguei de vez essa linha encrencada.

Hoje a Anatel obriga que a Telefônica cobre em minutos, e não pulso. Alega que é para que o consumidor possa controlar o tempo que utiliza o telefone. Até me pareceu algo de bom senso essa medida. Mas como faremos isso se esse tempo está por conta da prestadora de serviços? Deveríamos sim, ter um equipamento telefônico OFICIAL que marcasse em nossa casa a quantidade de minutos utilizados, aí sem saberíamos o quanto nos seria cobrado, e saberíamos que estaríamos pagando pelo que usamos. É assim com a Sabesp, Comgas, Eletropaulo...

È só uma questão de bom senso..............ou de boa fé.

Alooow?...

Navalha na carne - Crônica - Ana Maria




Zuleido é o nome dele! Ele é o cara!
Já sabemos que ele não é um entregador de pizza, mas que seu caso poderá acabar em pizza.

Ontem um caseiro derrubou um certo ministro só de reconhece-lo como freqüentador de uma casa suspeita no interior de São Paulo. Desesperado, o ministro meteu os pés pelas mãos quando mandou vasculhar a conta bancária do caseiro, e para isso envolveu o colega da Caixa Econômica Federal. Queria aterrorizar o pobre infeliz, o único entre dezenas de nobres homens, que falava a verdade. Essa pizza ainda está sendo assada mas o braseiro já enfraqueceu e não aquece mais os noticiários.

Hoje não é de caseiro que falamos, mas de um mega empresário da construção civil que molhava a mão de muitos parlamentares para que suas obras fossem contratadas pelo governo por valores descomunais. Nos deparamos com obras inacabadas, mas pagas. Com dinheiro que vai e vem pelos corredores do Palácio. Com secretárias e assessores que circulam com sacolas e envelopes recheados de bufunfa para comprar homens desonestos. E dessa forma, infelizmente, descobrimos que há tantos espertos destes nas vitrines de Brasília, e de outros Estados brasileiros, que fica até difícil abonar tantas mãos estendidas para Zuleido. E eu que pensei que o caso LALAU fosse o mais forte comprometimento do judiciário brasileiro!

Reconheço a dificuldade dessa articulação policial diante de tantos ilustres nomes apresentados como suspeitos, mas ao mesmo tempo parabenizo o Sr Zuleido que, genialmente, colocou tantos parlamentares à sua mão. E mais ainda, pelo enorme feito, ou não feito, de obras espalhadas pelo Brasil sem que nenhum mortal as tenha reclamado ou sentido falta delas. Ilusionista. Talvez o homem não seja um empresário comum, mas sim um ilusionista de jogada mortal, e agora é a vez do Xeque-Mate.

Estão sentindo o cheiro da pizza?

Crônica desesperada - Ana Maria




Há que amar e calar, dizia o poeta mineiro.

Talvez ele já nos desse pistas de como sobreviver nos dias de hoje, sem ao menos tê-los vivido.

Atrelada ao meu patriotismo, me calo. Um calar cúmplice de tantas maledicências, de tantos duros golpes. Mas um calar necessário.

Quisera gritar ao mundo meu desespero pelo que enxergo para o nosso futuro desde há muito. Lastrar sobre as falcatruas que são estampadas nos jornais todos os dias, executadas por, nada mais nada menos que, nossos representantes legais nos órgãos do governo. Nossos eleitos brasileiros.

Temera sempre que o descaso fosse tão retumbante e brilhasse mais forte que o amarelo de nosso lábaro. Que o verde amarelasse e minguasse como hoje em dia está acontecendo. Que o azul acinzentasse poluído pelos gases maléficos de nossas indústrias se tornasse natural. Que o nosso branco avermelhasse. Mas me calei. Calamos todos nós e nos fizemos cúmplices desses fatos.

O medo de viver, ou de não consegui-lo, nos obriga a traçar trilhas primordiais e não sonhadas. Nossas crianças não brincam, lutam e birram. Nossos idosos, abandonados à própria sorte, nada mais têm para nos ensinar. Os professores, sem estímulo, desarticulam- se da promessa de ensinar para travar luta contra a violência nas escolas.

As famílias que antes se reuniam no reduto para trocar experiências, traçar caminhos, hoje desacampadas e sem agregação, perdem-se nas ruas e nas delegacias.

Não somos mais os mesmos brasileiros, somos sim apenas expectadores do caos.

E agora?

Operação Hurricane - Crônica - Ana Maria



Chegou mesmo como um verdadeiro furacão o enxame de notícias quase simultâneas sobre os envolvidos na máfia dos bingos. A história está num crescente sem fim.

Liminar daqui e outro jeitinho dali fazem os bingos atuarem a pleno vapor. Alguns andaram fechando as portas, porque será? Será que se tratava de uma “articulação” para fazer de conta que a lei estava sendo cumprida?
Mas quem ganha com isso tudo? Os apostadores comuns não ganham...

Apesar de tudo ouvi a Dercy Gonçalves dizer em entrevista televisa, semana passada, que ela e os milhares de idosos sentem muito essa proibição dos bingos. Disse que os velhinhos passam horas deliciosas na aventura de jogar onde também se relacionam com colegas. E que ela gostaria e até já tentou, ser a porta-voz dos idosos no sentido de tentar falar com Presidente e se legalizar esse brinquedo. Fico aqui pensando se os bingos não podem ser “abraçados” pelo “Código Nacional do Idoso”, tornando-se parte integrante das atividades oferecidas para essa classe. Talvez fosse um caminho para a legalização desse entrenimento. Por outro lado vejo com clareza que eles, os bingos, não podem viver apenas dos “benefícios” dos aposentados.

Entre os suspeitos na Operação Hurricane, estão bicheiros, delegados e magistrados acusados de crimes como corrupção, tráfico de influência e envolvimento com jogos ilegais e formação de quadrilhas. E com isso, formaram-se toneladas de documentos investigados, escutas telefônicas, e gastos de avião que levam pra lá e cá os envolvidos. Custos altíssimos com o incansável trabalho da Polícia Federal que destinou centenas de homens para essa operação. Tudo para esclarecer quem compra, quem vende sentenças, e quem autoriza que o jogo ilegal funcione. Mas com nomes tão ilustres envolvidos nessa operação, é bem capaz que a Policia Federal não encontre provas de nada.

Aqui, onde a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, é bem capaz de prenderem a centenária Dercy por incitar os idosos ao jogo ilegal. E não ficaria surpresa se numa “blitz” num bingo qualquer encanassem também os aposentados que lá estivessem gastando seu salário mínimo.

Tudo a seu tempo...Enquanto esperamos para ver o que sobrou do furacão sentimos o braseiro desta pizza também esfriando. É tudo muito rápido. Já passaram a Navalha nela.

Mini Contos - Ana Maria



Na calada da noite ele visitava a libertina. Constrangia-se quando atrasado saía com o sol raiado.



Sofri estranhamente quando soube que tinha dois meses para viver o resto de minha vida. O que vou fazer enquanto espero todo esse tempo passar?



Não viveu para contar, mas falou o nome de outro durante toda a noite.



Á beira do abismo com os pés juntados Jurema sentia-se feliz por ter finalmente arranjado uma maneira rápida de acabar com seu casamento tempestuoso.



As mãos pregadas à cruz de madeira ainda sangravam depois de 2000 anos.



Ao telefone a voz rouca e ínfima pedia socorro, mamãe. E o corpo da mãe inerte ao lado do aparelho, sangrava há horas.



Durante a viagem senti um solavanco do carro na estrada e logo em seguida tive a impressão de estar caindo por um precipício. Mas do porta-malas, onde estava, era impossível saber o que realmente estava acontecendo. È tudo que posso lhe contar São Pedro.



Na bebida envenenada a empregada doméstica via sua chance de finalmente ficar às sós com o patrão. Na casa seriam apenas ele, e ela.



AUTORIDADE MÁXIMA! Ela a dona da casa. Mas ele o chefe do lar, o dono do controle remoto da televisão.



No sofá o gato estrebuchava asfixiado pelo marido insensível e ciumento.



As mãos trêmulas de Isabel seguravam firme o revólver que mataria seu amante infiel.

Vida de cachorro! - Ana Maria



O cachorro pensativo se distrai com a chegada de uma mosca mal educada que pousa em sua orelha esquerda.
Flap Flap Flap pra lá. Flap Flap Flap pra cá. E mosca vai, mas volta.
O cão se levanta e vai deitar sob a mesa do jardim. Suas patas dianteiras esticam para frente e ficam sob seu focinho preto. Lá não tem moscas. Mas tem formigas. E elas sobem pelas patas do cão. Vapt pra lá. Vapt pra cá. Bate com as patas no chão espalhando as formiguinhas pelo gramado, e vai repousar em lugar menos povoado.
Preguiçoso ele insiste e deita-se no tapete da sala de estar. Lá não tem moscas e não tem nenhuma formiga. No tapete ele gosta de dormir.
Mas lá vem a Margarida de vassoura na mão e Vupt pra lá. Vupt pra cá. Espanta o animal de lá.

Sonhos de criança - Ana Maria



Da sacola saiam gargalhadas espalhafatosas que até tremiam as alças molengas. A mão enluvada penetrou lentamente provocando mistério e trazendo a pomba que alçou vôo imediatamente.
De repente um livro amarelo saltou para fora assustando a criança curiosa. Do livro voaram porcos, lobos, coelhos, raposas, e outros animais dos contos de fadas, e deu pra ver um pedacinho da imagem do Pequeno Príncipe.
E lá vinha uma cartola preta de onde escapuliam línguas de tintas. O lápis ia rabiscando o espaço criando gnomos e fadas, rainhas e castelos, enquanto a tinta ia colorindo tudo.
A sacola foi aos poucos se escancarando e a mão foi lentamente trazendo criaturas pequenas e delicadas. Eram os incansáveis habitantes da Terra do Nunca.
E lá vinham outras gargalhadas estridentes. E a sacola foi aos poucos desaparecendo dentro da luva branca.



Vida torta - Ana Maria



O sapato esquerdo,
torto, surrado,
Num canto jogado,
esquecido.
Buraco na sola,
Couro trincado,
Cor desbotada,
Demais laceado.

Segredo - Ana Maria



Sabe guardar um segredo?
Tenho uma história, um mistério.
Se prometer não contar, concedo.
Promete? Promete que estou pronto.
Só conto se prometer. É sério.
Não promete. Então me quedo.
O que custa prometer?
Olha que não conto...
Guardar segredo não dói. Promete, vai!
Do que afinal você tem medo?
Ái, que vontade de contar tudo.
Seu tonto!

Saudade - Ana Maria



Solidão que cala, encurrala
Mãos que não mais tão perto
Olhos jamais vistos de novo
Sonhos que lentamente
perdem-se
Medo que invade.
Instala-se!
Costurando assim
com linhas mortas
sem cores
a vida sem covo.
Os mortos que amamos
que nos herdem!

Repatriando - Ana Maria



Motivam-me seus olhos
A recolher pedaços
Trocar novos passos
Formar outro ser
Com o que for possível juntar.

Detalhes estarão perdidos
Os sonhos quebrados
Caminhos interrompidos
A língua truncada

Alguém sem o mesmo rumo
De identidade desconfiada
Atrapalhada e confusa
Sem a mesma história,
presumo
Mas que tem seus olhos
para ser mirada.

Prostitutas - Ana Maria



Travessuras de gruas robustas em noites de lua
Cardumes escusos de mulheres no escuro da rua
Saltitantes vaga-lumes rústicos em atitude corrupta

Nuas.
Frustram.
Relutam.

Olhar em fagulhas de unhas pontudas
Bocas carnudas, e bundas tesudas.


Estranhas!
Anônimas!
Ingênuas!
Fajutas!


Fúteis madames da noite impura
As putas, vacas tetudas de rude ternura
Mulas enxutas em salto agulha
Escutam insultos, mergulham de bruços
Risadas tocas, trituram os lucros
Simulam prazer com muito talento
E mostram orgulho!
Depois morrem de algo virulento.

Poema confuso - Ana Maria



Estrada estreita. Difícil.
Porta amarela. Trancada.
Criança pálida. Perdida.
Aliança dourada. Esquecida.
Janela do céu. Quebrada.
Marca profunda. Estranha.
Tela molhada. Descoberta.
Boca vermelha. Vazia.
Cama espalhada. Aquecida.


Estrada espalhada.Estranha.
Porta vermelha. Vazia.
Criança molhada. Aquecida.
Aliança do céu. Quebrada.
Janela profunda. Trancada.
Marca dourada. Perdida.
Tela pálida. Esquecida.
Boca amarela. Descoberta.
Cama estreita. Difícil.


Estrada dourada. Vazia.
Porta estreita. Perdida.
Criança do céu. Aquecida.
Aliança pálida. Difícil.
Janela vermelha. Descoberta.
Marca amarela. Esquecida.
Tela profunda. Quebrada.
Boca espalhada. Vazia.
A cama molhada... Estranha.

Patriazinha - Ana Maria




Quero cantar esta cidade!
Sorrir para ela, meu riso rasgado
Abraçá-la no meu abraço apertado
Dizer que a amo de verdade
Pisar suas ruas, cheirar suas flores!
Seus ruídos noturnos, seu gemido
Seu choro, seu grunhido
Quero escutar sua voz, minha senhora!
Conte-me sua história,
Seus lamentos, sua glória
Abraça-me cidade minha!
Você, quase patriazinha,
Quase peito, quase lar
Que nunca me desampara
Que floresce, que anoitece
Que brilha, e entontece
Que grita e emudece
Abre teus braços cidade boa
E fecha-os em torno de mim
Maravilhosa cidade que ferve
Escandalosa terra da garoa

Oh grandiosa cidadezinha!
Grande sim, gigante sim, mas “inha”
Aqui estou, fico, e ficarei.
Aqui aprendi tudo que sei
Dou-te os meus dias, minh’alma
Meu canto, meu riso, minha calma.
Em troca apenas, eu peço:
Além do carinhoso abraço
Para este paraíso incauto
Permita-me reprisar este verso:
“Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá”

Paraíso - Ana Maria



Aqui o galo canta fora de hora
Flores desabrocham a noite
Enfeitam a madrugada.
Onde rio desliza, não corre
Vento sussurra em brisa
Criança ri, não chora


Aqui as letras cantam
Homens amam
Mulheres parem

Onde o tempo não passa
Tardes não caem
Onde as mãos se apertam
Olhos se vêem
Risos se espantam

Aqui se vive
Desafia-se a alma
Aquieta-se o espírito
Morre-se aqui.
Não sem antes amar.

Lá vem o trem! - Ana Maria



Piuííí...Piuíííí! Lá vem o trem
Puxando história pela locomotiva
Que rasga o vento até a estação
Vem fazendo barulho, anunciando chegada
Repete incansável cacoete da máquina erosiva
Tiqui-xiqui, tiqui-xiqui, tiqui-xiqui...
Um suspiro e uma arfada, um suspiro uma arfada
Lá vai o trem
Piuííí...Piuíí!!!


De porte elegante a máquina avança
De rumos traçados e trilho no chão
Lá vaia ela, a máquina de aço
Tiqui-xiqui, tiqui-xiqui, tiqui-xiqui...
Realizando momentos, levando emoção
Tirando a gente do nosso compasso
Entre suspiros e outras arfadas, suspiros e arfadas
Entre partidas ou chegadas, sem suspiros sem arfadas
Fazendo historia a composição.
Piuíí...Puííí!!!

Lá vai o trem de aço
Partindo daqui, partindo dali
Deixando aos poucos nossos cenários
Tiqui-xucu, tiqui-xucu, tiqui-xucu...
Não apita mais a locomotiva
Não ouvimos mais estardalhaço
Nem há marcas dos trilhos lendários
Última chamada:
Ultimo carro. Não haverá cacoetes, nem outro horário
Último trem: Não haverá apitos, nem haverá mais arfadas
Ticu-xucu, ticu-xucu, ticu-xucu...
E desaparece nas cordilheiras nevoadas
Nunca mais suspiros, nunca mais arfadas
Já foi o trem...

Terror na infância! - Ana Maria





Na infância tem o conto
Que apesar de atrocidades
Sempre traz final feliz
A Gata Borralheira, e a tal da Chapeuzinho

A Bela Adormecida e o Pequeno Polegar.

Personagens que levam a vida por um triz.

Depois de sofrerem muito, têm lição para ensinar




Na Europa o Pequeno Príncipe
No Brasil Meu Pé de Laranja Lima

Mas as cantigas de menina
Oh meu Deus, estas são de assustar!
Quem teve a infeliz idéia de atirar o pau no gato
E inda fazer o pobrezinho não morrer, agonizar ?

Para a criança inocente mamãe canta a canção:
Terezinha de Jesus deu uma queda foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão.
Cobravam o pagamento certamente. Cobravam seu quinhão
Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada.
Samba Lelê precisava
De uma boa palmada.
Meu Deus, não bastasse a dor da fratura
Inda ganharia, a infeliz, uma dolorosa corretura.



Ha também a ironia que mamãe sabe cantar
No refrão ela ri e inda por cima, se põe a gargalhar:
A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

Madrugada adentro e nada de adormecer
Cansada, ela ajeita o travesseiro e o cobertor
Humm...Lá vem agora o golpe de aríete!
É a hora do terror!
E ela com voz macia, cantarola com amor:
Boi, boi, boi.
Boi da cara preta
Pega esta criança que tem medo de careta...


Estranhos momentos - Ana Maria



Sob os pés descalços feridos
Louças quebradas em cacos
Rastros estranhos aos poucos
Esquecidos!

A porta escura entreaberta
Janelas trancadas
Cama vazia
Fotografia esquecida
Um soldado sobrevivente
Estranho soldado sobre aparador!

A luz difusa do abajur
Flor murcha no vaso
Aliança no bolso
Sonho perdido
Estrada longínqua
Beijo esquecido
Estranho beijo sobrevivente!

Imagem no espelho
Sombra perdida
Boneca de pano, morta
Cartão postal não enviado
Jardim ainda florido
Estranho jardim...

O horizonte da colina, orvalhado
Tela descoberta
Nela, céu de brigadeiro
Estranho orvalho acoberta...

Corpo que malha - Ana Maria



Inspira, expira, inspira, expira, inspira,
Tum, tum, tum, tum, tum,
Mexe e remexe, mexe e remexe
Corpo que a tudo responde
Onde tudo se esconde
Onde vai você?
Parte a todo instante
De chegada constante
Quem é você?
De pele macia, cheiro gostoso
Cadência e molejo, imenso desejo
Sua na rua, inspira e expira
Malha, remalha, toalha, navalha
Inspira, respira, de novo na mira
Mas luta e reluta, chuta se salva
Respira, respira, respira, respira

O que busca esse corpo
Que nunca está pronto?
Surge, ressurge, abala, embala
Corpo de musa, mulher confusa
Enverga, contorce, esfrega
Esconde, se entrega
Tum, tum, tum, tum, tum...
Sua, se cansa, suspira
Respira, respira, respira, respira...

Malha, o que valha
Se olha, se molha
Se fere, se ama,

Exercícios de voz - Ana Maria




Devaneios musicais me aquecem.
Obstinada entre clave de sol, do e si
Ádvena harmonia me vem à tona
lampejos graves incandescem.
Exercito o diafragma. Respiro.
Até que suave nota encontro
e o piano acrisola o canto.
Entôo suave melodia. Suspiro.



(ádvenas = estranhas, estrangeiras, esquisitas)
(acrisolar = purificar, limpar, tirar impurezas)

Meus textos no Palavras todas palavras...



Site delicioso composto de textos diversos (prosa e poesia), todos de bom gosto.
Eles já publicaram uns 5 textos meus e agradeço muito por isso.
Vale à pena dar uma passadinha pelo "Palavras todas palavras"!!!

http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/?s=ana+maria+maruggi

Esfelintus vai pegar! - Ana Maria




Eis aqui uma sátira com um produto "revolucionário" inventado.

Mil histórias são contadas
Já nem sei se verdadeiras
Esfelintus é sempre o tema
É vendido até em feiras

Substância interessante
De sabor inigualável
Cor de burro quando foge
De consistência mutável

Cientistas brasileiros fizeram a descoberta
Esfelintus, substrato de silício derretido
Pode ser utilizado em sanduíche
No automóvel e na fralda do recém nascido

Causa estranheza esse produto tão versátil
Mas Esfelintus é de longe o mais potente
O mais forte, mais gostoso e mais barato
Já existe até o eletrônico em formato portátil

Se ainda não conhecia procure logo se inteirar
Produto revolucionário com diversas utilidades
Da gasolina à estética, da construção à culinária
De grande valia, o Esfelintus, vai “pegar”.

sábado, 2 de agosto de 2008

Marido desconfiado - poesia caipira - Ana Maria




Fon Fon abuzinei bem alto
Pra móde a Zumira iscuitá
Tava chegando mais cedo
E não quiria mi assustá

Fon Fon fiz outra veis
E isperei um bocadinho
Era um tempo justo
Pra correr o ricardinho

Fon Fon insisti de lá de fora
Gritei fingindo alegria: Zumiraaa
E entrei cantando alto
Pra móde dele ir embora

Eita trabalhêra danada toda veis que eu chego cedo
Pra ispantá um intruso que se ocupa do meu lar
A Zulmira jura que não existe o tal ricardo
Mas privinido nunca chego sem avisar

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Falando sério...- Ana Maria



Um nó na cabeça e tropeços no andar fatigado, as ancas caídas e peito sôfrego não desanimavam a mãe desesperada em busca do filho desaparecido.

Já passava das cinco da tarde quando em lágrima e gritos toscos Dona Silvana ainda corria de um lado para outro dentro da estação de metrô em São Paulo. A multidão se debatia por um espaço no corredor que levava à bilheteria e a mulher agonizava em meio a esse turbilhão.

Às duas da tarde o garoto de quatro anos segurava firme na mão de Dona Silvana até o momento em que ela o soltou para apanhar o bilhete na bolsa. Não deve ter durado nem dois minutos e foi tempo suficiente para desaparecer do local o menino Fernando. Espantada ela olhou para todos os lados chamando-o pelo nome. Os seguranças da estação Bresser foram alertados e imediatamente posicionaram-se nas saídas, mas nenhuma criança passou por ali. Os trilhos foram examinados, e nada. Os banheiros evacuados, os nichos, as pequenas lojas. Todos foram indagados e ninguém viu a criança.

A Polícia Militar foi chamada e Dona Silvana espumava pelo canto da boca enquanto gritava ao tentar contar o ocorrido. Desmaiou por alguns segundos e foi socorrida pelos paramédicos de plantão. A estação foi bloqueada por quase uma hora e novamente tudo foi vasculhado, na Bresser e em todas as outras estações. Pela câmara de segurança era visível a criança segurando a mão da mãe ao descer pela escada rolante. Na catraca uma multidão aglomerou-se e a criança não pôde mais ser vista.

Noite alta e a mulher não queria ir para casa sem o seu Fernando. O que diria aos outros dois filhos? Como relatar essa desgraça para o esposo que sofria do coração? Mãe relapsa que era. Como encarar a vida tendo como carga esse pecado pesado de não ter sido capaz de cuidar de uma criança de quatro anos? Abatida ela encontra forças para correr de encontro ao último trem que chegava à Bresser naquele momento...

domingo, 6 de julho de 2008

Conversa eletrônica - Ana Maria




Ouvi quando a televisão perguntou algo a meu namorado. Num relance a voz sonora e definida do locutor chamou-o pelo nome e lhe fez uma pergunta sobre a programação dos outros canais. Pasmei. Com a revista Ti Ti TI na mão, meu namorado respondeu de chofre e foi enumerando toda a programação para o locutor invisível. De beiço caído permaneci imóvel enquanto o imbecil continuava a longa lista de programação dos mais de vinte canais. Vez ou outra ele ainda me olhava como se a idiota fosse eu, como se fosse normal a televisão falar com alguém...Se liga cara! Se pelo menos ela estivesse conectada na tomada...

O homem nú - Mini conto - Ana Maria





À margem do asfalto escondia-se entre os arbustos o irritado homem nu. Surrupiaram-lhe os trajes em brincadeira de velhos amigos. À distância os outros, segurando as peças, desafiavam-no a ir buscá-las. Da outra margem eu observava tudo e preferia que ele ousasse aceitando a brincadeira.

Recortes para ensaio de Dercy - Ana Maria

(Recortes para criar ensaio de Dercy)

Há mais de cem anos ela veio ao mundo sob tormenta familiar e muita pobreza numa família em desordem. Dolores nascia em 1907 na pequena cidade Santa Maria Madalena no interior do Rio de Janeiro. Seu pai um alfaiate medíocre não ganhava o suficiente para lhe dar sequer um pão por dia. Sua mãe, dona Margarida abandonou o lar em troca de aventuras amorosas. E para a pequena Dolores, nome que já tinha rima certa, trocou sua infância pela luta contra a fome trabalhando em bilheterias de cinema, e se apresentando para hóspedes em hotéis.

“Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom”

Iluminado seu rosto resplandecia no entardecer ao ar livre e sob a lona do circo mambembe onde sua pele alva se tingia na poeira esvoaçante da cidade pequena. Sua alma dolorida e pequena ainda, se contorcia na miséria e na aceitação de abrir as pernas para os homens que aplacavam a fome.

Era muito jovem para caminhar de outra maneira, sozinha. A figura da mãe que a abandonou no mundo psicoartístico a enojava, mas não a abatia, pois sua garra a fazia sempre viver mais um dia.

Era evidente que faria humor com tanta desgraça. Afinal desgraça era tudo o que conhecia e vivenciara em sua vida. E fez isso muito bem. De maneira escrachada e bem humorada ela revelou sua vida nos palcos dos teatros que mais tarde a acolheria com espetáculos de Chanchada e Teatro de Revista. Para isso deitou-se com homens que lhe indicariam para outros homens da vida artística.

“Sou famosa, sou grande, sendo pequena”

Trabalhou quase toda a sua vida inteira sozinha. Atuou no cinema, televisão, e teatro. Foi vítima de empresário inescrupuloso e teve que retomar sua carreira já idosa, com mais de oitenta anos, por conta de dificuldades financeiras.

Numa conversa decontraída ela contou que um de seus netos a segurou pela mão para ajudá-la a atravessar uma rua alegando que ela corria o risco de ser atropelada, e ela rebateu dizendo: “Olha aqui menino eu te ajudei a falar, a andar, a comer, e agora eu deixo você seguir sozinho e correr seus próprios riscos. Então me dixa também correr meus próprios riscos, eu quero tentar não morrer atropelada, sozinha”
“Só vou morrer quando EU quiser., dita aos 95 anos”

Somente uma figura de garra poderia ver que o caminho ainda poderia continuar a ser percorrido após os oitenta anos de idade. As redes de televisão que a tem em boa conta, lhe ofereceram pequenas passagens por programas de calouros onde atuaria como jurada, até que lhe deram seu proprio programa, mas que teve bem curta duração.

Despojada tirou a roupa na avenida em pleno carnaval carioca sobre um carro alegórico revelando seus seios pequenos e chupados de uma pessoa de quase cem anos de idade. Foi quando tomou para si a atenção de todo o mundo que precisava ver através dos coloridos e envelhecidos olhos de Dolores que a vida tem que ser vivida enquanto estamos juntos aqui neste plano, não importando que o tempo lhe tenha gasto a pele, embranquiçado os cabelos ou trazido dores para os ossos.

Foi sua personalidade marcante e seu vobulário xulo e sua coragem que a levou aos grandes palcos da vida, à todos eles.

Recentemente numa entrevista televisiva, a centenária demonstrou cansaço e disse que em breve deverá entregar o bastão do sucesso, mas não permitirá que lhe apaguem a chama que ela tanto lutou para que sempre se mantivesse acesa:a vida.

Meus textos no Recanto

No site Recanto das Letras andei publicando alguns contos, poesias e causos. Quando puder dê uma passadinha lá para conferir:

http://recantodasletras.uol.com.br/autores/anamariamaruggi

sábado, 5 de julho de 2008

Velhos tempos...Belos dias... Relembrando...

Video da velha "Jovem Guarda" para recordar os bons tempos.




(valdirkassick)

Namoradinha de um amigo meu - Roberto Carlos ao vivo em 1968

Quero que tudo vá pro inferno!




O Rei Roberto Carlos canta um de seus maiores sucessos no Especial de fim de ano de 1975.

QUERO QUE VÁ TUDO PRO INFERNO
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
Se você não vem e eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
De que vale a minha boa vida de playboy
Se entro no meu carro e a solidão me dói
Onde quer que eu ande tudo é tão triste
Não me interessa o que de mais existe
Quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
Oh, oh,
E que tudo mais vá pro inferno

Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno...


(acurtina)

Eu te darei o céu - Jovem Guarda - Anos 60



"Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também...

Quanto tempo eu vivi a procurar
Por você, meu bem
Até lhe encontrar
Mas se você pensar em me deixar
Farei o impossível prá ficar
Até!...

Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também...

Você pode até
Gostar de outro rapaz
Que lhe dê amor
Carinho e muito mais
Porém mais do que eu
Ninguém vai dar
Até o infinito eu vou buscar
E então!...

Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também...

Toda a minha vida eu já te dei
E agora já não sei
O que vou fazer se te perder
Eu morrerei!...

Ah!
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também...

Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também...

Toda a minha vida eu já te dei
E agora já não sei
O que vou fazer se te perder
Eu morrerei!...

Ah!
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também
Eu te darei o céu meu bem!
E o meu amor também..."
Category: Music

Quem tem medo da verdade?

O Rei Roberto Carlos é acusado de mal influenciar a juventude com o seu jeito de ser. (Posted By Alinaldo Mota).








(AlinaldoMota)

Canzone per te - Roberto Carlos - Anos 60

Roberto Carlos sobrevoando o Rio de Janeiro, no final dos anos 60. Parece que a cidade naquele tempo era mais tranquila





(Vaumedina)

Notícias dos anos 60

Retrospectiva Anos 60.






victorloback

Lembrando anos 60...

Uma série de imagens dos anos 60 relatando um pouco desta decada tão importante.

Comercial da Volkswagen do Brasil - Anos 60

Para relembrar...



Comercial da Volkswagen do Brasil em meados dos anos 60 onde aparecem Fuscas e Kombis da polícia da cidade de São Paulo

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Perdeu-se carteira de identidade - Ana Maria




Perdi carteira marrom no bairro central na esquina das Ruas São Bento com Quitanda. Foi no dia de ontem, quinta feira, por volta das 13 horas. Estava fazendo tanto sol e o calor me deixou tão distraída que perdi a tal carteira. Acessório importante para todos, principalmente para as mulheres que nela carregam de tudo. Nesta havia bem pouco dinheiro, talvez mais que dez reais, e umas parcas moedinhas incômodas. Nela havia também uma foto minha, material de péssima qualidade. Alguns papéis dobradinhos que não merecem atenção alguma nem preciso fazer constar. Um cartão de estacionamento carimbado pelo Bradesco e já vencido. Um bilhete da mega sena não premiado. Cartão do plano de saúde que não precisa ser restituído.

Não quero nada de volta, nem a carteira, nada. Quero apenas o documento de identidade original que está atrás do Santo Expedito. Apenas esse documento.

Recompenso com dez reais, as moedinhas, e uma boa carteira de couro marrom.

Contato com Ana Maria. Sigilo absoluto.

A revolta das palavras - Ana Maria




Preocupado com o sentido exato que daria às suas poesias, o poeta examinou atento cada palavra e sua aplicabilidade. Buliu com elas. Revirou-as de um lado para outro, virou às avessas cada uma. Notou, com isso, que escrever era arte complicada e exigia muita perícia e pesquisa. As palavras passaram a poder ter diversos significados dependendo da conotação que o poeta queria dar ao texto. Sentiu-se mal em expô-las a tal situação de inconveniência e dúvida, mas era necessário colocar tudo em pratos limpos. Elas, as palavras, não gostaram de estar sendo assim remexidas. Num verso solto no meio do poema pareciam saltar com medo do que viria a seguir. Mas o poeta as fez resistir e tentou minimizar o impacto de tantas interpretações com sentidos e significados tantos. Tratou, o escritor de apenas qualifica-las com modestos adjetivos suaves acreditando que assim todas as palavras do texto passariam a trabalhar a seu favor. Ledo engano. Elas sentiram-se subjugadas, menosprezadas pelo autor e trataram de se rebelar largando-se pelos versos de maneira aleatória e quase provocando falta de sentido ao poema. Não fosse a habilidade do profissional que as criava, elas teriam exercido total comando sobre o trabalho que estava sendo executado, mas o poeta as cercou de advérbios e ornou as ações com imagéticos verbos transitivos dando um complexo parâmetro estratégico para poema. Foi assim, com essa luta travada de difícil resolução, que finalmente o poeta conseguiu colocar o ponto final em seu trabalho.

Ufa!

Minha primeira ponta - Ana Maria




Uma menina bonita aparentando ainda uns doze anos de idade e já mostrando fortes sinais de sensualidade no seu vestir e no portar-se. Estava ela sentada no saguão do aeroporto e pareceu-me estar sozinha. Portava pequena maleta preta e uma frasqueira da mesma cor.

Estranho para meus olhos aquela garota quase menina que já desabrochava para a quase mulher. Inda mais quando ela de repente abriu a maleta de mão para em seguida retocar a maquiagem deixando expostas a grande variedade de cosméticos que possuía.
Espantei-me!

Na posição em que nos encontrávamos, uma em frente da outra, era impossível não notar, e muito difícil não estranhar.

Meus pensamentos sofreram uma súbita parada quando ouvimos uma voz masculina gritar “CORTA”, e ela levantou-se sorrindo.

Escreva escritor, escreva! - Ana Maria




Era seco o clima naquele momento. Também seca estava minha garganta naquela noite de janeiro. O calor entrava por todos os canais, pela porta, pela janela, pelas fendas do teclado branco, por baixo da camisola, por tudo. As paredes pareciam tremular de tanto calor. O ventilador, girando como um doido varrido, era mero coadjuvante no cenário desolador de um verão descontrolado.

O computador, velho companheiro, parceiro e cúmplice de tantas confissões literárias, parecia não querer registrar qualquer digitação naquele momento esbaforido. Até ele se ressentia, coitado.

Sentia rolar pelas minhas costas gotas de suor que umedeciam minha roupa íntima. A cadeira me incomodava, quente que estava. Minhas mãos suadas escorregavam pelas teclas e nada escreviam. Tudo andava desnorteado pelo calor intenso que fazia naquela noite, atrapalhando meu processo de criação.

Vejam vocês a que ponto chega um escritor. Devido ao seu constante e contínuo ato de escrever, fica o profissional literário obrigado de criar até mesmo quando as condições não lhe são propícias. Não há nenhuma lei que o proteja dessa falta, não há. Se ele é um escritor, ele tem que escrever, e ponto final. Mas e se o texto não vem, se o calor atrapalha, se as palavras não se encaixam, se as mãos estão suadas, se é aniversário de casamento, e se, principalmente, não tiver energia elétrica para conectar o computador? Quem então vai defender esse pobre profissional de não ter criado seu texto ou de tê-lo adiado? Ninguém. Sabe o que vai acontecer com esse escritor faltoso, como castigo por não ter escrito? Ele não será lido. E não há punição maior para um escritor do que essa de ficar confinado em sua própria gaveta

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Sarau de poesias nas Faculdades Campos Elíseos


http://www.euframodesto.com.br/


É isso mesmo!!
A Faculdade tem recebido uma vez por mês os escritores, poetas e músicos para uma apresentação livre e cheia de charme. O mestre de cerimônias é o nosso querido Eufra Modesto que com simpatia e dinâmica faz o evento ter uma característica exclusivamente cultural.


O próximo Sarau está marcado para o dia 12 de Agosto (em Julho o espaço vai passar por uma reforma)das 15 às 17 horas. A Faculdade fica na Rua Vitorino Camilo, 644 na Barra Funda, bem pertinho do Mterô Marechal Deodoro.Não perca!!

domingo, 15 de junho de 2008

Projeto nordeste fértil - Ana Maria





Projeto Nordeste Fértil


Conta que o presidente Luiz Horácio e sua comitiva visitavam o sertão nordestino para aferir o sucesso do Programa Nordeste Fértil.

Nesse Projeto foram construídas muitas cisternas espalhadas pelos municípios e a água era conduzida por meio de tubos de ferro fundido para quase todo o sertão nordestino. Com essa medida o solo estaria mais apropriado para as diversas culturas da região e a fome começaria a ser erradicada do nordeste.

Saíram da capital do país em Boing presidencial ultra moderno aterrizando numa próspera capital nordestina. Lá o presidente deparou com um Programa que ia de vento em popa. O que lhe parecia normal.

Mas havia queixas de que nos cafundós do Estado a coisa ia de mal a pior. Incrédulo, o homem ordenou que embarcassem para um distrito pouco assistido para que ele soubesse com era o “ir de mal a pior”.

As notícias começaram a ficar ruins naquele mesmo instante, pois não poderiam viajar de avião para distritos que não tivessem aeroportos. É claro!

Isso lá era verdade, pensou o presidente com seus bufões. Iriam de carro então. E lá foram até Esperancinha, cidade pequena com pouco mais de 2500 habitantes, poeirenta, com algumas lojinhas de alimentos toscos e uma mercearia onde se servia refeição em prato-feito. No armazém, sentaram e comeram arroz, feijão com toucinho, mandioca cozida com alecrim, e galinha de panela. Não se tratava de um banquete, mas a comida era boa. Não fossem aqueles mosquitos, a sujeira acumulada nas mesas, a louça quebrada nas beiradas, os talheres entortados, o sol escaldante sobre as cabeças, teria sido um bom almoço. Salvo pela cerveja gelada que foi oferecida gratuitamente para comitiva. Uma única latinha para cada um.

Eu estava sentada numa outra mesa e vi a cara de desolação da comitiva quando lhes foi negada a segunda latinha sob alegação de que faria falta para o freguês que chegasse depois deles.

Curioso o presidente tomou a frente e perguntou ao proprietário se o Projeto Nordeste Fértil tinha beneficiado Esperancinha, no que a resposta foi afirmativa devido a proximidade com a Capital.

Mas o Chefe do país ainda queria visitar um lugarejo que não tivesse nada além parcas casinhas de pau-a-pique, e seguiram em pau-de-arara até a desconhecida Jaicosa.

Movida pelo impulso patriota, juntei-me a eles nesse trecho da viagem. A estrada que nos levava à cidade escolhida era quase intransponível. Sinceramente não saberia dizer o que havia mais: buracos ou poeira. Nenhuma vegetação à beira da estradinha. Ninguém cruzou nosso caminho em mais de duas horas. Mas, finalmente, lá estava Jaicosa! Cidade ausente do mapa do Estado, mas lá estava ela com suas, quase dezoito casinhas. Quase porque uma delas estava em construção há mais de cinco anos e seus proprietários haviam morrido de doença ruim. O esqueleto de construção, num caso como esse, era abandonado à própria sorte. Era aquela a cidade que o presidente queria conhecer!

Meu corpo doía em todos os músculos e ossos. O calor nos castigava. Nossas vestes não eram apropriadas e nossa última bebida tinha sido aquela única latinha de cerveja lá em Esperancinha. Desci com dificuldade do pau-de-arara, mas estava tão curiosa em saber que tipo de gente habitava aquele lugar inóspito que nem liguei para minhas dores. Embolei-me no meio da comitiva de mais de 20 pessoas e me esgueirei para frente do grupo, pois não queria perder nem uma ceninha do acontecimento histórico que estávamos vivendo. Eu, e Jaicosa.

O presidente Luiz Horácio protegido pelos seguranças pediu ao assessor que batesse à porta da casa mais próxima. Saiu de lá uma mulher barriguda, despenteada, cheirava mal a pobre coitada, com vivos sinais de sujeira por todo o corpo. A boca sem dentes nem sorria. Não demonstrou nenhum espanto ao ver aquele bando de estranhos à sua porta, apenas perguntou o que queriamos. O assessor sorriu brandamente diante da falta de curiosidade da moradora e pediu água para beber. Ela nem titubeou, fechou a portinha e manteve o grupo do lado de fora.

O assessor sem entender olhou para o Presidente que disse “insista, ela não entendeu o que você disse”. Ele bateu de novo. A porta que não estava trancada, foi abrindo lentamente e lá vem a mulher desajeitada, mancando e coçando a cabeleira.

Ele diz: “Boa tarde. Somos da comitiva do Presidente e queremos saber se o Programa Nordeste Fértil chegou por aqui”.

Ela foi imediatamente dizendo: “Aqui não chegou ninguém não sinhô. Faiz mais de seis anos que não vem ninguém aqui. O derradêro foi o Doto Lino, meu cumpadre. Veio e me feiz um fio, o Luiz, e dispois num vortô mais. Nunca mais.”.

O grupo não pode evitar um risinho aqui e outro ali. De repente estavam todos rindo alto. Inclusive a dona da casa. Quando todos já conseguiam falar o assessor se apressou em pedir água para beber. E ela não demorou em atende-lo. “- Luiz Horááááácio, vem cá meu fío. Vai lá na tina buscar água pro moço bebê que ele chegô agora de viaji e tá aguniado”.

Ao ouvir que ela dera seu nome ao filho, o presidente adiantou-se e, com um sorriso incomum, perguntou: “- A senhora deu o nome de Luiz Horácio ao seu filho em homenagem a alguém?”

A mulher não reconhecendo o presidente foi logo dizendo: “- Ahn, qui nada seu moço! O nome dele é Eufrázio Lino. O mesmo nome do pai, do avô e de um montão di genti aqui de Jaicosa. Mas dizem qui ele se parece muito com um tar de Luiz Horácio, intão o povo chama ele assim”.

E o presidente emendou: “Ele ainda poderá ser famoso, senhora. Poderá ser até chegar a Presidente do Brasil”.

E a mulher se benzendo: “Arre qui não, seu moço, é que farta um dedinho na mão dele , i é purisso que o povo daqui chama ele assim.

AMM

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Declaração de amor - Ana Maria


12 de junho é dos namorados!!!


Caminhávamos de mãos dadas pela rua molhada. Desafiávamos os passantes com nossos risos descomprometidos, com nossos abraços recheados de ternura. Ninguém naquele momento parecia amar alguém mais do que nós nos amávamos. Lembra disso?

Lembra como seus olhos se perdiam nos meus enquanto falava do nosso futuro? Sua boa irrequieta se apressava em me prometer uma vida de amor e paixão. Lembra? Chovia a cântaros naquele final de tarde, e aquele foi o cenário que escolhemos para viver momento tão especial.

Sua mão apertava a minha. Sua voz estava trêmula. Um calor inexplicável andava pelo meu corpo. E as palavras não escolhidas chegavam lentamente aos meus ouvidos. Era a mais linda declaração de amor que uma mulher poderia ouvir!

A chuva estancou. Os ruídos cessaram, e apenas sua voz existia naquele instante. Um momento mágico. Arriscamos uma dança. Uns riscos de água escorriam dos seus cabelos mas as palavras ainda chegavam ...lentas e mágicas...traduziam o amor que você sentia por mim, prometiam felicidades e paixão...lentas e mágicas palavras de amor...

Inesquecível final de tarde ...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Flor de Lis - Djavan



Flor de Lis

Valei-me, Deus!
É o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei,
Que amei, que amei, que amei
Será talvez
Que minha ilusão
Foi dar meu coração
Com toda força
Pra essa moça
Me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz
De uma flor de lis
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira,
Poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem Margarida nasceu.
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem Margarida nasceu.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Sarto do meio - Gilda P. de Souza



Autora: Gilda Pereira de Souza

Em memória aos meus pais



De tempos em tempos
Là vão
Nhá Maria mai Nhô Bento
inté a cidade compra os mantimento
Na venda di Seu Salomão
compram do alimento inté o sabão
Pras criança
Num pode farta, marmelada, groséia
e a bulacha qui a mãe ganha
dispois da conta somada
Na loja de tecido
a chita é a mais indicada
pras roupa da mininada
Apois a visita a casa da cumadi
saco nas costa,pé na istrada
qui a noiti num tarda
Lá no arto, o cachorro ispera ancioso
a vorta da famia
pois a sardadi já judia do danado
Di vorta ao lar
Nhã Maria vai pra cuzinha
nu preparo do jantá
Nhõ Bento pra lida
trata dus animar
Ao termino da ceia
café quentinho
pra ouvi radio e i iscuta os causo
Só intão drumi tranquilo e acorda
cu cantar du galo

Escritores Paulistanos



Alguns escritores paulistanos
| 400 anos de literatuera |

POr: JÚLIA BANDEIRA


Antônio Cândido
Nascido no Rio de Janeiro, em 1918, Antonio Candido de Mello e Sousa mora em São Paulo desde 1936. Um dos mais importantes críticos de literatura e cultura brasileira, lecionou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, do qual foi um dos fundadores. Desde a década de 1940 atua em movimentos e partidos de esquerda, sendo que em 1980 foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.

Principais obras: Brigada Ligeira (1945), Ficção e Confissão (1956), Formação da Literatura Brasileira (1959), O Observador Literário (1959), Os Parceiros do Rio Bonito (1964), Tese e Antítese (1964), Literatura e Sociedade (1965), Vários Escritos (1970), Na Sala de Aula (1985), O Discurso e a Cidade (1993).


Augusto de Campos
Nasceu em São Paulo em 1931. Poeta fundador do movimento concretista, utiliza em sua poesia recursos visuais, acústicos, de movimento e de disposição espacial dos versos. Formou-se em Direito na Universidade de São Paulo em 1953, mesmo ano em que compôs a série de poemas em cores Poetamenos, primeira manifestação da poesia concreta brasileira. Na época, ele já integrava o Grupo Noigandres, do qual fora fundador, com Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Nos anos seguintes, publicou estudos críticos e teóricos, além de traduções e poesia. Suas obras poéticas mais recentes são Despoesia e Poema Avulso (1994).

Principais obras: O Rei Menos o Reino (1951), Poetamenos (1953), Equivocábulos (1970), Linguaviagem (1970), Colidouescapo (1971), Caixa Preta (1975), Despoesia (1994), Poema Avulso (1994).


Décio Pignatari
Nasceu em Jundiaí em 1927. Poeta, semiólogo e ensaísta, Pignatari foi um dos criadores do concretismo, movimento literário que fundou em 1956 ao lado dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Foi um dos criadores da editora e da revista Invenção, lançada em 1962 como veículo da poesia concreta. Em 1964, lançou o Manifesto do Poema-Código ou Semiótico, com Luiz Angelo Pinto. Foi membro-fundador da Associação Internacional de Semiótica, em Paris. Nas décadas de 1980 e 1990, colaborou em vários periódicos, entre os quais a Folha de S.Paulo. Foi professor da faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo e da pós-graduação da PUC-SP.

Principais obras: O Carrossel (1950), Exercício Findo (1958), Poesia pois é Poesia (1977); Poesia pois é Poesia, 1950/1975. Poetc, 1976/1986 (1986), Letras, Artes, Mídia (1995), Podbre Brasil (1988), Cultura Pós-Nacionalista (1998).


Haroldo de Campos
Nasceu em São Paulo em 1929. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1952, e no mesmo ano fundou, com o irmão Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres de poesia concretista. Trabalhou como tradutor, crítico e teórico literário e foi professor no curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Literatura da PUC-SP. Em 1992, recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano e, em 1999, o Jabuti de poesia, com o livro Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um.

Principais obras: Auto do Possesso (1950), Servidão de Passagem (1962), Xadrez de Estrelas (1976), Galáxias (1984), A Educação nos Cinco Sentidos (1985), Finismundo (1990), Os Melhores Poemas (1992), Crisantempo (1998), A Máquina do Mundo Repensada (2000).


Hilda Hilst
Nasceu em Jaú em 1930. Formada em direito pela Universidade de São Paulo, a poeta, dramaturga e ficcionista, lançou seu primeiro livro de poesia, Presságio, em 1950. Seu arquivo pessoal foi comprado pelo Instituto de Estudos de Linguagem (IEL), da Unicamp, em 1995, e aberto a pesquisadores. Alguns de seus textos foram traduzidos para o francês, inglês, italiano e alemão. Recebeu diversos prêmios literários, entre eles dois Jabuti: o primeiro em 1984, pelo livro de poemas Cantares de Perda e Predileção, e o segundo em 1993, com o conto Rútilo Nada.

Principais obras: Baladas de Alzira (1951), Roteiro do Silêncio (1959), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Serigrafias (1970), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Poemas Malditos (1984), Bufólicas (1992), Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995), Do Amor (1999).


Lígia Fagundes Telles
Advogada, contista e romancista, nasceu em São Paulo em 1923. Começou a escrever ainda adolescente. Em 1949, seu livro de contos O Cacto Vermelho recebeu o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. Em 1982, foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Pedro Calmon. Lígia recebeu diversos prêmios entre eles Prêmio do Instituto Nacional do Livro (1958); Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (1965); Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras (1973); Prêmio Ficção, da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1974 e 1980); Prêmio Jabuti em 1974; Prêmio II Bienal Nestlé de Literatura Brasileira Contos em 1984, e Prêmio Pedro Nava, o Melhor Livro do Ano em 1989.

Principais obras: Ciranda de Pedra, romance (1954); Histórias do Desencontro, contos (1958); Verão no Aquário, romance (1963); Histórias Escolhidas, contos (1964); O Jardim Selvagem, contos (1965); Antes do Baile Verde, contos (1970); As Meninas (1973); Seminário dos Ratos, contos (1977); Filhos Pródigos, contos (1978); A Disciplina do Amor, fragmentos (1980); Mistérios, contos (1981); As Horas Nuas, romance (1989); A Estrutura da Bolha de Sabão, contos (1991); A Noite Escura e Mais Eu, contos (1995).


Marcos Rey
Nasceu em São Paulo em 1925 com o nome de Edmundo Donato. Atuou como jornalista, cronista, redator de rádio e TV, publicitário e roteirista de cinema. Membro da Academia Paulista de Letras, fez de São Paulo personagem da maioria de seus contos e romances, retratando tipos tradicionais, estranhos e marginalizados. O suspense presente em inusitadas situações era sua marca registrada. Especializado também em literatura juvenil, foi roteirista dos programas Vila Sésamo e Sítio do Pica-Pau Amarelo, além de radionovelas para a extinta Rádio Excelsior. Em 1992, passou a escrever crônicas quinzenais para a revista Veja São Paulo. Morreu em 1999, aos 74 anos e teve suas cinzas espalhadas pela cidade.

Principais obras: O Enterro da Cafetina (1967), Memórias de um Gigolô (1968), O Pêndulo da Noite (1977), Malditos Paulistas (1980), O Roteirista Profissional (1981), Ópera de Sabão, O Mistério do Cinco Estrelas (1981), O Rapto do Garoto de Ouro (1982), Sozinha no Mundo (1984), Um Rosto no Computador (1992), O Último Mamífero do Martinelli (1993), O Coração Roubado e Outras Crônicas (1996), Fantoches (1998).


Ignácio de Loyola Brandão
Nasceu 1936, em Araraquara, interior de São Paulo. Veio para a capital aos 21 anos e logo começou a trabalhar no jornal Última Hora. Seu primeiro livro, Depois do Sol, foi publicado em 1965. No ano seguinte, entrou para a equipe da Editora Abril, onde atuou nas revistas Realidade e Claudia. Em 1974, lançou na Itália o romance Zero, sua obra mais conhecida, censurada pelo regime militar. O livro foi liberado somente em 1979. Passou a se dedicar à literatura e só retornou às redações em 1990, quando assumiu a direção da revista Vogue e passou a escrever crônicas para os principais jornais da capital.

Principais obras: Depois do Sol (1965), Bebel que a Cidade Comeu (1968), Zero (1975), Dentes ao Sol (1976), Cadeiras Proibidas (1976), Cuba de Fidel: Viagem à Ilha Proibida (1978), Não Verás País Nenhum (1981), O Verde Violentou o Muro (1984), O Ganhador (1987), Os Melhores Contos (1993), Veia Bailarina (1997).


Lourenço Carlos Diaféria
Nasceu em São Paulo 1933. Trabalhou como jornalista, cronista, contista e autor de histórias infantis. Em 1977, trabalhando como cronista da Folha de S.Paulo foi preso e processado com base na Lei de Segurança Nacional pela autoria da crônica Herói Morto Nós, publicada no jornal. O texto foi considerado ofensivo às Forças Armadas. Depois de três anos, o cronista foi absolvido. Criado no bairro do Brás, e profundamente identificado com a cidade, tem nas figuras humanas, na vida da metrópole e na realidade urbana o principal assunto de seus textos.

Principais obras: Um Gato na Terra do Tamborim (1976), Circo dos Cavalões (1978), A Morte sem Colete (1983), A Longa Busca da Comodidade (1988), O Invisível Cavalo Voador (1990), Papéis Íntimos de um Ex-boy Assumido (1994), O Imitador de Gato (2000).

Adoniran Barbosa ou João Rubinato





A bicicletinha foi uma das inúmeras que ele fez. Ele adorava trabalhar com as mãos e aproveitava qualquer pedaço de arame, lata vazia, cano plástico, enfim, qualquer material usado para construir seus brinquedos. Montou uma pequena oficina nos fundos da sua casa e lá fez um trem, um tobogã, um carrossel, um triciclo de entrega de mercadoria, as bicicletinhas, uma chaleira, enfim, alguns objetos




Adoniran Barbosa, nasceu em Valinhos, São Paulo, no dia 6 de agosto de 1910. Foi compositor, cantor, humorista e ator. Era filho de imigrantes italianos. Viveu até 23 de novembro de 1982.

"Adoniran Barbosa é um grande compositor e poeta popular, expressivo como poucos; mas não é Adoniran, nem Barbosa, e sim João Rubinato, que adotou o nome de um amigo funcionário do Correio e a soberania de um compositor admirado. A idéia é excelente, porque um artista inventa antes de mais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu a realidade tão paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro de raízes européias. Adoniran Barbosa é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelas heranças necessárias de fora.

Já tenho lido que ele usa uma língua misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal da terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se aliaram com naturalidade às deformações normais do português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nós fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse país. Em São Paulo, hoje, o italiano está na filigrana.

A fidelidade à música e à fala do povo permitiram a Adoniran exprimir a sua idade de modo completo e perfeito. São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá. Mas a cidade que nossa geração conheceu (Adoniran é de 1910) foi a que se sobrepôs à velha cidadezinha caipira, entre 1900 e 1950; e que desde então vem cedendo lugar a uma outra, transformada em vasta aglomeração de gente vinda de toda a parte.

A nossa cidade, que substituiu a São Paulo estudantil e provinciana, foi a dos mestres-de-obra italianos e portugueses, dos arquitetos de inspiração neo-clássica, floral e neo-colonial, em camadas sucessivas. São Paulo dos palacetes franco-libaneses do Ipiranga, das vilas uniformes do Brás, das casas meio francesas do Higienópolis, da salada da Avenida Paulista. São Paulo da 25 de março, dos sinos, da Caetano Pinto dos espanhóis, das Rapaziadas do Brás, - na qual se apurou um novo modo cantante de falar português, como língua geral na convergência dos dialetos peninsulares e do baixo-contínuo vernáculo. Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as cantinas do Bixiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também, “intacta, boiando no ar”.

A sua poesia e a sua música são ao mesmo tempo brasileiras em geral e paulistanas em particular. Sobretudo quando entram (quase sempre discretamente) as indicações de lugar, para nos porem no Alto da Mooca, na Casa Verde, na Avenida São João, na 23 de Maio, no Brás genérico, no recente metrô, no antes remoto Jaçanã. Quando não há esta indicação, a lembrança de outras composições, a atmosfera lírica cheia de espaço é a de Adoniran, nos fazem sentir por onde se perdeu Inês ou onde o desastrado Papai Noel da chaminé estreita foi comprar Bala Mistura: nalgum lugar de São Paulo. Sem falar que o único poema em italiano deste disco nos põe no seu âmago, sem necessidade de localização.

Com os seus firmes 65 anos de magro, Adoniran é o homem da São Paulo de entre as duas guerras, se prolongando na que surgiu como jibóia fuliginosa dos vales e morros, para devorá-la. Lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante de sua voz anti-rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade. Talvez a borboleta seja mágica; talvez seja a mariposa que senta no prato da lâmpada e se transforma na carne noturna das mulheres perdidas. Talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos carreadores de café para inventar no plano da arte a permanência de sua cidade e depois fugir, com ela e conosco, para a terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido da cantareira."

Antônio Cândido (*)
(*) Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e um de nossos maiores críticos literários. Nascido no Rio de Janeiro, vivendo em São Paulo, escreveu o texto para figurar na contracapa do primeiro LP de Adoniran, lançado em 1976. (Odeon).


Adoniran e Elis Regina: No Bar Carmela no Bexina em 1978.


Adoniran e Elis Regina: "Saudosa Maloca" - Adoniran Barbosa e Elis Regina se encontram no bar da Carmela, bairro de Bexiga, em São Paulo, para almoçar e cantar. Depois, vão passear pelo Bexiga, vendo a transformação que o progresso trouxe.



(texto extraído do site: http://www.almacarioca.com.br/adoniran.htm)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Victor Hugo



Victor Hugo (1802-1885), poeta, novelista e dramaturgo francês cujas volumosas obras constituíram para um grande impulso, possivelmente o maior dado por uma obra singular, ao romantismo da França.

As obras do Víctor Hugo marcaram um decisivo marco no gosto poético e retórico das jovens gerações de escritores franceses, e ainda é considerado como um dos poetas mais importantes deste país. Depois de sua morte, na época de 22 de maio de 1885, em Paris, seu corpo permaneceu exposto sob o Arco do Triunfo, e foi deslocado, segundo seu desejo, em um mísero carro fúnebre, até o Panteão, onde foi enterrado junto a alguns dos mais célebres cidadãos franceses.

Reflexões de Victor Hugo

" Seja como os pássaros que,
ao pousarem, um instante,
sobre os ramos muito leves,
sentem-nos ceder, mas cantam!
Eles sabem que possuem asas ".


"O Romantismo é o liberalismo em literatura";
"A liberdade literária é filha da liberdade política";
eis-nos libertos da velha forma social;
e como não nos libertaríamos da velha forma poética?
A um povo novo, uma nova arte".




A FONTE

Da espalda de um rochedo, gota a gota
límpida fonte sobre o mar caia,
Mas, ao vê-la tombar em seu regaço:
" O que queres de mim?" O mar dizia.
"Eu sou da tempestade o antro escuro;
"Onde termina o céu aí começo;
"Eu que nos braços toda a terra espreito,
"De ti, tão pobre e vil, de ti careço?...
No tom saudoso do quebrar das águas
Ao mar, serena, a fonte assim murmura:
"A ti, que és grande e forte, a pobre fonte
Vem dar-te o que não tens, dar-te a doçura!"


Texto extraído de: http://www.nossosaopaulo.com.br/Reg_SP/Barra_Escolha/B_VictorHugo.htm

O homem e a Mulher - Victor Hugo



O HOMEM E A MULHER

O homem é a mais elevada das criaturas;
A mulher é o mais sublime dos ideais.
O homem é o cérebro;
A mulher é o coração.
O cérebro fabrica a luz;
O coração, o AMOR.
A luz fecunda, o amor ressuscita.
O homem é forte pela razão;
A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence, as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
A mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece, o martírio sublima.
O homem é um código;
A mulher é um evangelho.
O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem é um templo; a mulher é o sacrário.
Ante o templo nos descobrimos;
Ante o sacrário nos ajoelhamos.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter , no crânio, uma larva;
Sonhar é ter , na fronte, uma auréola.
O homem é um oceano; a mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que adorna;
O lago, a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa;
A mulher é o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço;
Cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra;
A mulher, onde começa o céu.

sábado, 31 de maio de 2008

Mau humor matinal - Ana Maria




Mau Humor matinal

- Oi, Seu João, bom dia! Já acordou?!

- Não, Dona Maria eu estou dormindo e sonhando que estou regando o jardim. Não vê que estou acordado? Que pergunta mais sem sentido.

- Nossa, Seu João não precisava ser tão grosso. Eu só queria te desejar um bom dia.

- Se queria, quer dizer que pode não querer mais. E se quer me desejar bom dia, já o fez. E se vai dizer mais alguma coisa referente ao seu “bom dia” é melhor não dizer nada porque não estou numa boa hora.

- Credo homem! Depois que sua Neusinha morreu o senhor piorou muito. Podia pelo menos ter um pouco de educação, afinal somos vizinhos há mais de trinta anos.

- Olha aqui, Dona Maria se a senhora me conhecia antes da Neusinha e me conhece agora tão bem a ponto de me “analisar a personalidade”, então deveria saber que acordo sempre mal humorado. E que esse papo assim de “relacionamento bonzinho” pela manhã, me irrita.

- Calma homem!! Vai que te dá um enfarto aí e vou me sentir culpada. Se eu não prezasse nossa amizade, e se o senhor não fosse tão idoso, já teria cortado nossas relações.

- Olha aqui, ô Dona Maria, não precisa ter dó de mim não. Ser idoso não é doença, e eu não sou nenhum coitadinho. E quer saber mais? A senhora não tem respeito pelo idoso, coisa nenhuma. A senhora finge que tem. O que a senhora tem é egocentrismo. É sim. E vai sair por aí dizendo pros outros vizinhos que é por causa de seu amor pelos velhos que a senhora me “tolera”, e vai meter a boca em mim. Pensa que sou bobo?

- Mas...O senhor está cada vez mais impossível de agüentar. Nem sei como sua mulher te agüentou quase cinqüenta anos, Deus me livre!

- Ah, quer saber como? Pois bem, ela não me interrompia. Ela nunca falava comigo antes das nove da manhã. Não me ”analisava a personalidade”. E jamais bateu boca comigo.

- Era uma coitada vivia sendo humilhada.

- Era uma rainha, com certeza a senhora não entende isso. Aliás, gostaria de saber se a senhora não tem o que fazer em casa e se dispõe de todo esse tempo pra ficar se metendo na vida dos outros?. Por acaso sua família não está esperando o pão para o café da manhã?


- Oh! Até amanhã, Seu João.

- Se me vir, só fale comigo depois das nove.

AMM

sábado, 17 de maio de 2008

Sinto vergonha de mim



Sinto Vergonha de Mim

Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia, pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez
no julgamento da verdade, a negligência com a família,
célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido, a tantos “floreios” para justificar
atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”, voltar atrás e mudar o futuro.Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos que não quero percorrer…Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço.Não tenho para onde ir pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!
“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto”.

(Este texto foi sempre atribuido a Rui Barbosa, mas não foi confirmada essa autoria)

Singing In The Rain








Singin' in the Rain (Cantando na Chuva no Brasil) é um filme americano estrelado por Gene Kelly. O filme, e especialmente a sequência de Kelly cantando (e dançando) na chuva, são amplamente conhecidos. Singin' in the Rain foi homenageado, por exemplo, por Stanley Kubrick em A Clockwork Orange (Laranja Mecânica no Brasil).

Na cena em que Gene Kelly dança na chuva, na verdade é utilizada uma mistura de água com leite; antes da gravação desta cena, Gene Kelly estava ardendo em febre, mas resolveu ir adiante depois de fazer uma sessão de acupuntura ( o que teria supostamente resolvido o problema).

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são dois dos astros mais famosos da época do cinema mudo em Hollywood. Seus filmes são um verdadeiro sucesso de público e as revistas inclusive apostam num relacionamento mais íntimo entre os dois, o que não existe na realidade. Mas uma novidade no mundo do cinema chega para mudar totalmente a situação de ambos no mundo da fama: o cinema falado, que logo se torna a nova moda entre os espectadores. Decidido a produzir um filme falado com o casal mais famoso do momento, Don e Lina precisam entretanto superar as dificuldades do novo método de se fazer cinema, para conseguir manter a fama conquistada.

Serenata à chuva (PT)

Cantando na Chuva (BR)

Estados Unidos

1952 / cor / 103 min

Dirigido por: Stanley Donen
Gene Kelly
Elenco Gene Kelly
Donald O'Connor
Debbie Reynolds
Jean Hagen
Roteiro/Guião Betty Comden
Adolph Green

Género musical, comédia
Idioma inglês


( texto extraído de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Singing_in_the_rain)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Silêncio no Palácio Imperial - Ana Maria



Silêncio na sala de música do Palácio.

Ré menor! Anunciou o cravista.
Ouvidos atentos para o deleite que se anunciava, Pedro demonstrava orgulho.
As notas esvoaçavam pela sala de música, e o Imperador acompanhava o rítimo cadenciando batidas das botas no assoalho nobre.
Os convidados embevecidos nem olhares trocavam.
Só a música falava.


AMM

Vibração Dali - Ana Maria





No caldeirão a poção efervescia.
Dos olhos flamejantes da bruxa saiam labaredas amarelas.
Amarelas substâncias granuladas eram adicionadas.
Adicionadas também ervas daninhas raras.
Raras flores desidratadas se juntavam ao ungüento.
Ungüento escurecido depois com pele de corvo.



AMM

Surrealismo Dali - Ana Maria



A fúria do Pacífico engoliu meu corpo durante a tempestade.
A boca selvagem se abriu maior que o iate e devorou tudo.
Cavalos de água galoparam sobre mim na escuridão.
Olhos arregalados num tom azul desconhecido me encurralaram.
Pequenas flechas guiavam os olhos de um lado para outro.
E eu me via plainando ao fundo entre limo e peixes.


AMM

Ao amigo Neruda - Ana Maria







Desconfio de sua ousadia e não me surpreendo, Neruda. Não, não leve a mal esse meu comentário, não se trata de uma critica. Talvez seja até uma pontinha de inveja, queria ter seu coração às vezes.

Analisei os desenhos que esboçou e o projeto parece mesmo ter a sua cara. Saleta revestida de jacarandá, com lareira e adega climatizada para vinhos, isso é coisa de apaixonado, meu amigo. Banho de imersão com vista para jardim de inverno, vejo que você quer mesmo criar um clima especial. Essas idéias partiram de sua cabeça, é claro, pois apenas uma mente voltada para a paixão e para o amor teria uma criação arquitetônica tão afinada. O detalhe do forro rebaixado no dormitório vai tornar o ambiente acolhedor e dar um ar de mais intimidade. Uma obra de arquitetura assinada por um poeta, cujo título é La Chascona, isso é incrível. Além de tudo, poderia acumular a profissão de arquiteto pois parece que tem habilidade de criação também para projetos de residências aconchegantes.

Estou curiosa, Pablito, e não poderia ser diferente. Aliás, já sabia que me aguçaria a curiosidade quando me enviou o projeto para analisar, não sabia? Desculpe ser assim tão direta e invasora de sua intimidade, mas com Os Versos do Capitão de maneira anônima no ano passado, dedicados para Matilde, fiquei esperando que outros versos pudessem vir falando de “arrebatamento de amor e fúria”. Você foi tão explícito com as imagens do seu coração que parecia um raio X. E agora La Chascona torna mais evidente ainda essa aura intensa de sentimentos, a mesma aura que você deixou escapar em Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada que fez em 24 quando estava apaixonado por Maria. Lembra disso? Então ouso perguntar: La Choscana é um ninho de amor para você e Matilde, não é? Como eu soube disso? Ah meu amigo, detalhes construtivos tão apurados parecem palavras escolhidas para um poema de amor.

Espero que seu espírito de criação literário receba muitos fluidos positivos dentro dessa casa.

Assim que o lay-out estiver pronto nos falaremos.

Um abraço fraterno
Ana Maria Maruggi

terça-feira, 13 de maio de 2008

E-mail falsos mas que o amigo virtual envia para lista de contatos.

Quem não recebeu e-mails como estes?:

Video mostra o verdadeiro assassino de Isabella!
Senha invertida no caixa eletrônico salva seu dinheiro!
Veja foto da ginasta sem cabeça!
A cartas mágicas de Davida Coperfielfd!
Chá de folha de graviola cura cancer?
Ericsson te dá laptops de graça!


Sem contar as correntes de oração, de criança desaparecida, de ajuda financeira para criança fazer cirurgia etc...

O site www.e-farsas.com vai conferir tudinho e mostra o que é verdade e o que é mentira nesses e-mails.

Visite o site que esclarece e diverte.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Mãe! - Ana Maria



Mãe

A mãe pode do alto de sua plenitude agir seguramente de diversas maneiras na educação dos filhos. Ela pode prometer ou desprometer, castigar ou recuar do castigo. Ela pode pedir com carinho, ordenar com severidade, ameaçar disso ou daquilo. Não importa, nada trincará sua imaculada imagem ou a removerá de sua função de mãe.
A mãe tem característica absolutamente própria que a classifica de acordo com seus métodos de atuação no momento de corrigir ou educar as crianças. Vai depender de como ela se comporta e de quais das artimanhas que Deus lhe deu, ela vai fazer uso:
1. Mãe do tipo frágil, de corpinho fininho e pouquinho cabelo, com voz baixinha e pausada quando precisam ganhar numa argumentação apelam pela ameaça: “Vou contar tudo para o seu pai quando ele chegar. Você vai ver só!” Note-se que ela usou o verbo “contar” em vez de conversar, além disso, acrescentou o advérbio “tudo”, dando a conotação de que há MUITA coisa errada para ser revelado ao pai. E esse “Você vai ver só!” parece uma ameaça pré-estabelecida para a criança não teime em persistir com o que estava fazendo.

2. A mãe ditadora não argumenta. Ela dita as regras e exige que tudo seja seguido à risca. Num momento de impasse ela logo procura preencher cada espaço não deixando para o filho nenhuma possibilidade de argumentação: “Meu filhinho querido não queira criar um caso agora com um assunto que já foi decidido muito antes de você nascer!”. Note-se que o filho não participou da decisão citada e não há nenhuma possibilidade dessa decisão ser modificada. Pelo menos por enquanto...

3. A mãe chantagista não argumenta também, ela nunca se presta a exposição quando os problemas aparecem. A mãe chantagista é sempre demasiadamente carinhosa e atenciosa e não deixa ninguém à deriva Mas quando se encontra encurralada, chora. Chora e observa os filhos para que eles se compadeçam de sua dor. “Coitadinha da mamãe” Percebe-se que quando ela apela pelo sentimento do filho, ela normalmente consegue seus objetivos. Pelo menos por algum tempo...

4. A mãe protetora está sempre onde está a prole. Atenta a tudo e a todos, ela não deixa escapar nada. Se alguém ousar afligir sua criança (não importando a idade da criança), ela desce do salto e arma o barraco. Se for preciso entra em luta corporal para defender sua cria: “Aqui não meu caro, em filho meu ninguém põe a mão! Se a criança for pequena é possível entender essa tomada de frente, mas se o filho já for adulto torna-se evidente que ela não deixou para ele nenhuma possibilidade de, ele mesmo, resolver seus problemas.

5. A supermãe é aquela que está em todos os lugares ao mesmo tempo. Prestativa e amorosa ela nunca se cansa e não demonstra contrariedade diante de situações embaraçosas. Normalmente é muito educada e consegue tudo o que quer dos filhos, e dos amigos também: “Já deixei sua calça no tintureiro, tirei as cópias que você vai precisar para seu trabalho da faculdade, fiz um jantar gostoso daqueles que você adora, e amanhã vou levar seu carro para consertar o estepe”. Ajuda tanto os filhos que nunca tem tempo para ela, mas isso não a incomoda, pois essa prestatividade é o que lhe agrada.

6. A mãe ameaçadora não conversa e não dá moleza, ela vai logo ameaçando caso não seja seguido o que estava combinado: “Não invente nenhuma balada para hoje à noite senão o bicho vai pegar aqui em casa, hein!” Ameaçar é o forte de uma mãe desse tipo, embora ela nunca tenha cumprido nenhuma ameaça. Pelos menos ainda não...

7. Mãe carinhosa, exageradamente carinhosa. È claro que já viu uma dessas. Nas salas de espera dos consultórios pediátricos há sempre esse tipo de mãe. É fácil reconhecê-la, pois ela está sempre fazendo carinho nas mãozinhas das crianças, afagando os cabelinhos, massageando os dedinhos dos pés, etc. E quando os filhos crescem, ela continua incansável na arrumação dos cabelos deles, ajeitando o colarinho, a gravata. A mãe carinhosa precisa estar sempre em contato físico com a criança dizendo coisas boas e sinalizando positivismo. Enquanto for possível...

8. Em quase todos os casos a palavra foi a regência dessa relação, mesmo quando a relação é ditatorial. É por força da palavra que a argumentação supostamente protetora ou ditadora acontece. Sendo assim pode-se reconhecer o exagero do qual a maioria delas faz uso para tentar conseguir o que almeja sem muitas explicações ou conversas:

“Se você não estudar e vier com nota baixa eu te mato!”

“Come tudo senão eu faço você engolir esse prato”

“Desce daí senão eu amarro você e aí sim você nunca mais vai subir em lugar nenhum!”

“Pára de chorar senão eu te dou uns tabefes e aí sim você vai ter razão para chorar!”

“Desliga essa televisão e vai tomar banho senão eu jogo a TV pela janela!”

“Se você não se comportar na igreja, nunca mais sai de casa!”

“Cuida do seu tênis que custou muito caro, senão você vai andar de chinelo para o resto de sua vida!”

“Se eu vir você mascando essa porcaria de chiclete outra vez, faço você engolir!”

“Se fizer xixi na cama outra vez, vai passar a dormir no chão!”

“Nunca mais fale palavrões nesta casa, senão corto a sua língua!”

“A próxima vez que você deixar essa torneira ligada eu dou seu cachorro para doação”

“Se não vai mesmo escovar esses dentes então vou mandar arrancar um por um”.

Calma!
É claro que tudo isso é força de expressão. E que mãe que é mãe não tem coragem de cumprir nenhuma dessas ameaças exageradas.

Elas mudaram muito com o tempo. Algumas saíram da cozinha, outras de casa para ajudar o marido no orçamento doméstico.

Hoje em dia elas estão se cuidando, procurando se atualizar para acompanhar a evolução dos filhos. Muitas estão plugadas também com os amigos das crianças, e cobram participação de toda a família para que a educação seja dada em conjunto pelos pais, avós, tios e padrinhos, além dos professores.

Prontas para a vida. Prontas para a maternidade. Prontas para o lar. Prontas para o trabalho externo. Prontas para amar, sempre.

O ato de ser mãe é insuperável, inigualável! E o de ser filho então, nem se fala...


AMM

domingo, 27 de abril de 2008

Rastros





Meus pés
em sendas frescas
te procuram.
Vagueiam cegos,
corajosos, incautos
enfrentam espinhos
e tempestades
tateiam
surdos
incansáveis
perseguidores
Pisam flores
dantes amadas
Pisam sonhos
nunca traçados
Seguem afoitos
meus pés indomados
vertem
Sangram
embrenham
alcançam
Regressam
os quatro pés juntos
Caminham serenos
pela trilha antiga
Ora lado a lado,
ora frente a frente
Sempre apaixonados
Sustentando passos
compassados...

AMM

Megera - Ana Maria





Tal qual náufrago remeto
trôpegos versos calados
âncoras lançadas
em águas distantes.
Sem resposta, arreto.

Tal qual pintor desenho
silhueta frágil
profanando o credo
de nudez incauta
Lépida e fria, desdenho.

Emaranhado na espera
Ato-me em nós
Fustigo meu coração
Lascivo por teu desdém
Flagelo de amor, megera.

AMM

Lua minguante





Repente,
e lá está você
Lua minguante
Acesa e nova

Subitamente,
silente presença
Calmo silfo
a me doutrinar

Inesperadamente,
lá está você
Jorrando raios
pelas crateras brancas
Domando meu espírito


De assalto você lá está,
roubando meus gestos
Lasciva e nua a me torturar
Lua a meu gosto
Mingua em meus olhos
Lua de agosto

AMM

Estagnação - Ana Maria




Nosso amor
envelheceu
perdeu forças.

Acalmou-se
Virou
chamas mornas
brasa fria.

Amor minguado
triste
irado.
amor sem
vida.

Olhar sem
brilho
atrofiado
prostrado
olhar de adeus...

AMM

domingo, 20 de abril de 2008

Vazio planeta água


By Yuri Ochakovsky - Israel

O que será de nós sem ela?...Já pensou nisso?

O segredo do Segredo




O maior fenômeno literário do segmento de auto-ajuda adapta teorias baseadas na ciência para fornecer uma alternativa racional à conquista da felicidade e do sucesso.

"Posso falar em dinheiro por experiência própria, porque um pouco antes de descobrir o Segredo meus contadores me informaram de que minha empresa tinha sofrido um grande prejuízo naquele ano e que iria falir em três meses... Então eu descobri o Segredo, e tudo em minha vida - incluindo a saúde de minha empresa - mudou completamente... Eu sabia com cada fibra do meu ser que o Universo daria, e deu. Deu de um modo que eu nunca tinha imaginado... Eu quero contar a você um segredo do Segredo. O atalho para qualquer coisa que você queira na sua vida é SER e SE SENTIR feliz agora! É o meio mais rápido para levar à sua vida dinheiro e qualquer outra coisa que queira. Concentre-se em transmitir para o Universo esses sentimentos de satisfação e felicidade... Quando transmite sentimentos de alegria, eles voltam a você como as experiências da sua vida. A lei da atração está refletindo seus pensamentos e sentimentos mais recônditos na forma de sua vida."

O parágrafo acima saiu da pena da autora australiana Rhonda Byrne e está no livro "O Segredo", o maior lançamento da história da auto-ajuda. O best seller vendeu no Brasil 250 mil cópias em apenas um mês. Nos EUA, ultrapassou a marca dos 6 milhões de livros de janeiro para cá. Para ter uma idéia do fenômeno, basta saber que outro campeão de vendas nessa categoria, "Quem Mexeu no Meu Queijo", foi adquirido por 2,5 milhões de pessoas no mundo todo, entre eles, 46.529 brasileiros - isso apenas nos últimos 12 meses. "O Segredo" não é só livro. Antes de tornar-se grande best seller (sobretudo nos Estados Unidos), a obra nasceu como um documentário - que já vendeu 1,7 milhão de cópias em DVD - criado pela própria Rhonda

(texto extraído na íntegra: http://canetasemfronteira.blogspot.com

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Homenagem à Cidade de São Paulo pela passagem de seu aniversário.







FELIZ 454 ANOS!!!

25/01/2008

A CIDADE DE SÃO PAULO



Vejam abaixo uma estatística elaborada em 2007:



População na cidade é de 10.434.252 milhões ( 3º maior cidade do Mundo ).

A cidade de São Paulo tem um território de 1.530 km2.

A taxa de alfabetização está em 95,4% da população.

O PIB da cidade de São Paulo é de US$ 76 bilhões.

A Região Metropolitana possui PIB de US$ 147 bilhões.

Restaurantes? São 10.000 na cidade! ( Oficialmente a Capital Mundial da Gastronomia! ).

São mais de 70 shoppings ( Maior número do Brasil ).

Os shoppings da cidade recebem mais de 30 milhões de pessoas / mês.

Táxis? 30 mil ( 3ª maior frota da América Latina ).

São mais de 5.500 milhões de automóveis circulando em toda a cidade.

O Metrô de SP transporta 2,5 milhões de pessoas por dia.

A cidade conta com mais de 5.000 mil pizzarias.

As pizzarias da cidade de São Paulo produzem cerca de 40 mil pizzas por hora - algumas delas dentre as melhores do mundo.

São produzidos, aproximadamente, 16.800 sushis por hora na cidade.

A cidade tem mais de 5.500 cruzamentos com semáforos.

O Metrô da cidade tem hoje uma rede de 57,6km de extensão em 4 linhas.

A cidade tem mais de 15.000 ônibus em operação em todas as regiões.

Meio milhão de pessoas andam diariamente pela Rua 25 de Março.

Cerca de 30.000 milionários vivem atualmente na cidade de São Paulo.

60% de todos milionários do Brasil, vivem na cidade de São Paulo.

Na cidade são efetuados 10 compras por segundo via cartão de crédito / débito.

Pela Avenida Paulista passam mais de 5.700 carros e 1.400 ônibus por hora em horários de

pico.

A cidade tem mais de 205 Hospitais (Municipais, Estaduais, Particulares e Federais).

A cidade tem mais de 120 teatros e casas de show, 71 museus e 11 centros culturais.

São Paulo é a maior realizadora de eventos da América Latina, com 70 mil eventos por ano.

Das 170 grandes feiras realizadas no Brasil, 140 são feitas em São Paulo.

São 42 ruas temáticas de comércio em toda a cidade.

Na cidade são mais de 100 peças teatrais por semana, ou 4.800 peças por ano.

A cidade tem em torno de 1.500 agências de bancos nacionais e internacionais.

Aeroporto de Congonhas, Campo de Marte e Guarulhos têm mais de 380 mil pousos e decolagens.

Aeroporto de Congonhas possui o maior número de pousos e decolagens do Brasil

Aeroporto de Cumbica (Guarulhos-SP) é o maior da América Latina.

No Aeroporto de Cumbica operam 39 companhias aéreas.

A primeira rede de TV da América Latina foi inaugurada na cidade de São Paulo, a PRF-3 TV

Tupi-Difusora inaugurada em setembro de 1950.

A cidade de São Paulo é mais rica que Nova Zelândia, Irlanda, Chile, Venezuela e Peru.

A cidade de São Paulo é considerada a Capital Mundial da Gastronomia ( Desde 1997 ).

A primeira Faculdade de Direito do Brasil é paulistana, criada em 1827 no Largo São Francisco.

São Paulo é a Capital Cultural da América Latina com a maior diversidade em manifestações

culturais.

O edifício do Banespa, construído em 1948, foi inspirado no Empire State, de Nova York.

A Rua Oscar Freire é uma das 8 mais luxuosas do mundo de acordo com a "Mistery Shopping International".
São Paulo é um dos maiores centros geradores de tendências em moda do mundo.

A Serra da Cantareira, na zona norte, é considerada a maior Floresta Urbana Natural do Mundo.

A cidade de São Paulo é o maior centro Médico-Hospitalar da América Latina.

É possível até tomar banho de cachoeira no núcleo do "Engordador", na Serra da Cantareira.

Na cidade, no bairro do Itaim, existe uma Oficina Mecânica especializada somente em Ferraris.

A melhor Pizza do Mundo hoje é considerada a Pizza feita na cidade de São Paulo!

São Paulo é a 3ª maior cidade italiana do mundo.

São Paulo é a maior cidade japonesa fora do Japão.

São Paulo é a maior cidade portuguesa fora de Portugal.

São Paulo é a maior cidade espanhola fora da Espanha.

São Paulo é a 3ª maior cidade libanesa fora da Líbano.

E AINDA...38% das sedes das 100 maiores empresas privadas de capital nacional...

63 % das sedes de grupos internacionais instalados no país...

As sedes de 16 dos 20 maiores bancos múltiplos, comerciais e Caixas Econômicas...

As sedes de 6 das 10 maiores empresas de cartão de crédito...

As sedes das 8 das 10 maiores corretoras de valores...

As sedes de 5 das 10 maiores empresas de seguros...

A Bovespa, a maior bolsa de valores do continente sul-americano...

BM&F - Bolsa de Futuros e Opções de Commodities, sexta do mundo em volume de contratos

negociados...

9 das 10 maiores editoras de revistas do país...

3 dos 5 principais jornais brasileiros...

7 das 10 maiores editoras de livros do país...

6 das 10 maiores empresas de equipamentos de informática...

6 das 10 maiores empresas de software...

7 das 10 maiores empresas de internet que atuam no país...

A cidade de São Paulo é um dos 47 centros mundiais de inovação tecnológica, de acordo com o Pnud / ONU.

Em São Paulo estão 98 das 200 maiores empresas de tecnologia do país, contra 26 no Rio de Janeiro, 9 em Belo Horizonte, 4 em Porto Alegre e 1 em Curitiba.

Na cidade de Londres existem um pouco mais de 11.000 bares e restaurantes, e em São Paulo são mais de 38.000.

Na cidade de Londres existem 20 mil táxis, e em São Paulo são mais de 30 mil.


Fonte: Dados estatísticos extraídos de um trabalho de Marilene Laurelli Cypriano apresentado em 2007.


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Frio cotidiano - Ana Maria








Hipnótica comedia
da vida urbana
Nos passos estressados
que avançam
Nos gestos mecânicos
que se cumprem
Onde a lágrima
vermelha
esparrama-se

Riso pálido
Olhar cinza
Mãos serradas
Pernas cruzadas
Sangue frio
Homem cálido

Anoitecem corações
frágeis
todos os dias
Fervilham mentes
desesperadas
por atitudes
Morrem emoções
e falem os sonhos
Abandonam-se as
carícias
e as alegrias

Riso cálido
Olhar frio
Mãos cruzadas
Pernas serradas
Sangue cinza
Homem pálido


AMM

Inúteis palavras





Inúteis palavras
Com sede
de encontros
Enrijecidas bocas
sem encantos
Frágeis discursos
Com medo
de ontem
Endurecidas
almas em prantos


AMM

Marcas




Seu nome
No meu
Nos meus olhos
Nos meus lábios
Torturando
meus ouvidos
Ressecando
minha língua.
Mas é teu
esse nome
E é tudo que tenho
Além dele
Lágrimas
que me inundam
Silêncio estridente
Sua ausência
Seus sinais


AMM

domingo, 6 de janeiro de 2008

Sons de você





Adoro o som,
a forma,
o cheiro
e o tom de suas
palavras
A cor cremosa,
de tez macia,
de gestos brancos
Adoro a simbologia,
anáforas,
até os imperativos
As flores
desabrochadas
que jorram
de sua boca
às sílabas.
Curvo-me
às regências
de suas frases
nunca subordinadas

Há palavras
que nunca diz
mas que sempre finjo
que ouço
Há verbetes
que nunca usa
mas que anseio ainda
ouvir
Há declarações
que nunca fez
mas que espero que
ainda faça
Há sutilezas
que ainda faltam
para coroar
suas falas
Há gestos
que faltam para
suas mãos,
em mim...


AMM

Ato contínuo





Desaforadas
palavras
frias que me
açoitaram.

Frases
rudes
sem norte,
sem sorte.

Palavras
ofensivas
que machucaram.

Desnorteada
ao ouvir
o que achei
que você
nunca diria,
cambaleei
pela praia
desejando
a morte

Minha cabeça
entontecida
sentia dor
Minhas pernas
bambeavam
num caminhar
teso
Os olhos
marejados,
lábios
trêmulos
O coração
partido
Fazia-me levitar
Senti
medo,
pena
e desprezo.


A imagem
de sua boca
cuspindo acusações,
Do dedo em riste,
e dos brados ferozes,
não me abandovam

Tive pena
de você e de mim,
por tantas
decepções.

Conduzi-me
até as ondas
de onde
nunca mais voltei...


AMM

poesia exagerada





Pensamentos perdidos partidos em partes pendentes

Pequenos pretextos processados em parcelas pregressas

Imperam no impulsivo pecador imputrescível, impropério...

Pedidos pobres, premissa de apelos pregados, prostrados...

Pingentes problemas, pecados primários, promíscuos passados...

Pústula putrefata, de pessoa púnica, de palavra perdida...

Pândega podre, partícula pasmosa, imprópria para pudicos.

Sem prumo, os pensamentos pairam em prisma privado...

Pungem sem piedade, apunhalam sem prudência, provocam...

Poderosos protagonistas se prestam a pensar em perversão:

Políticos, palhaços, pedreiros, padeiros, porteiros, e padres.

Sem pompa, sem poda, nem ponta, pejorativa peleja...

Não parem! Aprimorem, improvisem, mas pensem!

Penúria de prazer, pensamento pênsil, peludo...

Pretérito perfeito, sem perdas, sem roupas, com ponta, aponta...

Pode-se perjurar, pedir, penar, perder, ponderar...

São apenas pensamentos impróprios, ou próprios...

Pedaços de prazeres impuros, espalhados...

Pingos esporádicos, arrepiados, espertos de impurezas...

Partam para o pecado perverso de prazeirar!

Pois não...

Pois sim...

AMM