domingo, 7 de fevereiro de 2010

CORAÇÃO BANDIDO - AMM



CORAÇÃO BANDIDO



Giselda entrou dengosa pela porta vermelha do boteco do Juarez: Hora errada, não vem aqui encher meu saco num momento deste, não vê como ta bombando de gente isso aqui? Mas Giselda aprendeu a conquistar o lado manso do Jura e foi chegando devagar como uma gata manhosa, queria ficar ali no burburinho para fisgar uma emoçãozinha mais forte. E foi ficando.

O boteco estava lotado como nunca, tinha acabado uma partida final do campeonato de várzea da zona norte e os atletas se concentravam no Jura onde a cerveja era gelada e não custava mais caro que o sanduba de mortadela com queijo.

 
Giselda ignorou a clientela e se embrenhou no meio da turma. Trabalhar, nem pensar: eu vim ao mundo à passeio. Ajeitou seu cabelo lisinho, certificou-se de que o vestido estava alinhado, e apoiou-se no balcão pelo lado de fora, e retocou o batom vermelho. Estava ela no canto bem pertinho do centroavante adversário, que tomava uma cervejinha, e que lhe aguçou pensamentos libidinosos: Atleta de olhos claros e de corpo suado é tudo de bom!. E ela foi então resvalando vagarosamente seu corpinho mignon no sujeito, como quem não quer nada. Ele foi gostando da brincadeira, e até provocava alguns outros esbarrões, e também fingia não querer nada.

 
Juarez estava ocupadíssimo, parecia enlouquecido, corria de um lado para outro atendendo aos pedidos de clientes que levantavam a mão: Traz mais um. Traz, mais uma. Nesse momento o centroavante bateu no balcão e apontou para Jura: faz uma porção de fritas e traz mais um copo. A moça se sentiu lisonjeada e trocou olhar significativo com o rapaz. O goleiro que conhecia Juarez há muitos anos, viu a cena e não aprovou. Levantou-se de onde estava e foi até balcão: Meu, somos amigos do Jura, e essa aí é mulher dele. Não cria confusão aqui cara.

 
De nada adiantou, pois ele continuou a se engraçar com ela: ninguém segura essa fera! E ela sorriu lânguida para ele.

 
O atacante do time local conhecia Giselda desde o tempo da escola e tinha uma quedinha pela moça desde a adolescência, mas ela tinha coração bandido e gostava de muitos ao mesmo tempo, então ele largou mão. Foi aí que surgiu o Juarez, dono do boteco, já estabelecido na vida, e atraiu Giselda. Acabaram casando e o atacante foi até padrinho, por ironia do destino. Agora ele estava lá no fundo do boteco vendo que senhora Juarez dar em cima do centroavante adversário, descaradamente. Então se remoia de inveja do sortudo.

 
Juarez chegou nesse exato momento e viu o atacante cochichando no ouvido de sua esposa: Caramba, meu! O que é que está rolando aqui, hein? Não esperava isso de você, m’ermão!

 
O atacante local tentou se explicar, mas desistiu, pois só iria piorar as coisas e ainda colocaria Giselda em confronto com o marido, então aceitou a bronca e saiu do bar de cabeça baixa. Os clientes já bêbados tomaram as dores de Juarez e cada uma à sua maneira gritava desaforos para o rapaz com palavrões de baixo calão. Saiu rapidamente sem nada falar, confuso e amedrontado. Saiu se remoendo de inveja de quem ficou.

 
Foi então que Juarez pegou a mulher pelo braço, abrutalhadamente, e a levou para o lado de dentro do balcão onde supostamente estaria à salvo dos galanteios masculinos. O centroavante fez cara de quem não gostou do gesto bruto. Giselda notou e sorriu.

 
O goleiro adversário aproximou-se de novo e pegou o amigo pelo braço: companheiro aproveita pra se mandar senão a coisa vai sobrar pra você. Mas o nosso “don Juan” esquivou-se das mãos do amigo: fica na sua, cara. E olhou para Giselda que o encarava encantada. Ela então levantou o copo para mostrar que estava vazio, e ele tratou logo de enchê-lo.

 
E a situação se complicou quando a porção de fritas chegou ao balcão. Giselda que não se preocupava nem um pouco com o que pensavam dela, ia se servindo dos longos palitos de batata, deixava uma ponta para fora da boca e a oferecia ao centroavante para que ele abocanhasse. O homem hesitou algumas vezes e conseguiu não aceitar temendo confusão com o marido dela.
Até que ela, ousadamente, subiu num engradado de cerveja, e com a batata palito na boca encostou-se no centroavante a ponto dele sentir o cheiro da batata e o calor dela. Não sabia ao certo se o calor vinha da boca da moça ou da fritura. Os peitos dela pareciam querer saltar do decote laranja do vestidinho. Olhos nos olhos e ele a abocanhou devagar.

 
Todos viram, até o Juarez, que correu desembestado até o onde estava o garanhão e socou-lhe a cara com raiva. Giselda não queria: pára seu brutamonte! Mas a confusão estava formada, e o ajudante de cozinha se apresentou em defesa do proprietário: não põe a mão nele seu perna de pau! E a clientela toda saiu em defesa do Jura.. A turma toda era uma briga só.
 
Giselda, a adúltera, procurou sair de fininho, às escondidas, antes que apanhasse também. Foi correndo para casa no seu saltinho agulha, e de lá chamou a polícia. Nisso, soou a campainha de sua casa e lá estava o atacante suado, sem camisa: não avisei que podia acabar em confusão aquela sua pouca vergonha? E ela olhou para o rapaz languidamente, daquele jeitinho irresistível: Eu guardei uma batatinha para você também, seu invejoso. Entra. Aquela confusão lá vai demorar pelo menos duas horas...

ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA



ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA



Passados 18 anos de sua elaboração, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa promete finalmente sair do papel. Ou melhor: entrar de vez no papel. O Brasil será o primeiro país entre os que integram a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) a adotar oficialmente a nova grafia, já a partir do ano que vem.

As regras ortográficas que constam no acordo serão obrigatórias inicialmente em documentos dos governos. Nas escolas, o prazo será maior, devido ao cronograma de compras de livros didáticos pelo Ministério da Educação.

As mudanças mais significativas alteram a acentuação de algumas palavras, extingue o uso do trema e sistematiza a utilização do hífen. No Brasil, as alterações atingem aproximadamente 0,5% das palavras. Nos demais países, que adotam a ortografia de Portugal, o percentual é de 1,6%.

Entre os países da CPLP, já ratificaram o acordo Brasil, Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Ainda não definiram quando irão ratificar o documento Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

A assinatura desses países, porém, não impede a entrada em vigor das novas regras em todos os países, pois todos concordaram que as mudanças poderiam ser adotadas com a assinatura de pelo menos três integrantes da comunidade.

No Brasil, o acordo -- firmado em 1990 - foi aprovado pelo Congresso em 1995. Agora, a implementação definitiva depende apenas de um decreto do presidente Lula, ainda sem data para ocorrer.

Mesmo assim, o MEC (Ministério da Educação) já iniciou o processo de adoção da nova ortografia. Entre 2010 e 2012 é o período de transição estipulado pela pasta para a nova ortografia passar a ser obrigatória nos livros didáticos para todas as séries.

Novas regras

O acordo incorpora tanto características da ortografia utilizada por Portugal quanto a brasileira. O trema, que já foi suprimido na escrita dos portugueses, desaparece de vez também no Brasil. Palavras como "lingüiça" e "tranqüilo" passarão a ser grafadas sem o sinal gráfico sobre a letra "u". A exceção são nomes estrangeiros e seus derivados, como "Müller" e "Hübner".

Seguindo o exemplo de Portugal, paroxítonas com ditongos abertos "ei" e "oi" --como "idéia", "heróico" e "assembléia"-- deixam de levar o acento agudo. O mesmo ocorre com o "i" e o "u" precedidos de ditongos abertos, como em "feiúra". Também deixa de existir o acento circunflexo em paroxítonas com duplos "e" ou "o", em formas verbais como "vôo", "dêem" e "vêem".

Os portugueses não tiveram mudanças na forma como acentuam as palavras, mas na forma escrevem algumas delas. As chamadas consoantes mudas, que não são pronunciadas na fala, serão abolidas da escrita. É o exemplo de palavras como "objecto" e "adopção", nas quais as letras "c" e "p" não são pronunciadas.

Com o acordo, o alfabeto passa a ter 26 letras, com a inclusão de "k", "y" e "w". A utilização dessas letras permanece restrita a palavras de origem estrangeira e seus derivados, como "kafka" e "kafkiano".


Dupla grafia

A unificação na ortografia não será total. Como privilegiou mais critérios fonéticos (pronúncia) em lugar de etimológicos (origem), para algumas palavras será permitida a dupla grafia.

Isso ocorre em algumas palavras proparoxítonas e, predominantemente, em paroxítonas cuja entonação entre brasileiros e portugueses é diferente, com inflexão mais aberta ou fechada. Enquanto no Brasil as palavras são acentuadas com o acento circunflexo, em Portugal utiliza-se o acento agudo. Ambas as grafias serão aceitas, como em "fenômeno" ou "fenómeno", "tênis" e "ténis".

A regra valerá ainda para algumas oxítonas. Palavras como "caratê" e "crochê" também poderão ser escritas "caraté" e "croché".

Hífen

As regras de utilização do hífen também ganharam nova sistematização. O objetivo das mudanças é simplificar a utilização do sinal gráfico, cujas regras estão entre as mais complexas da norma ortográfica.

O sinal será abolido em palavras compostas em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento também começa com outra vogal, como em aeroespacial (aero + espacial) e extraescolar (extra + escolar).

Já quando o primeiro elemento finalizar com uma vogal igual à do segundo elemento, o hífen deverá ser utilizado, como nas palavras "micro-ondas" e "anti-inflamatório".

Essa regra acaba modificando a grafia dessas palavras no Brasil, onde essas palavras eram escritas unidas, pois a regra de utilização do hífen era determinada pelo prefixo.
A partir da reforma, nos casos em que a primeira palavra terminar em vogal e a segunda começar por "r" ou "s", essas letras deverão ser duplicadas, como na conjunção "anti" + "semita": "antissemita".
A exceção é quando o primeiro elemento terminar em "r" e o segundo elemento começar com a mesma letra. Nesse caso, a palavra deverá ser grafada com hífen, como em "hiper-requintado" e "inter-racial".
(Deu na Folha em 01/07/2008




É CLARO QUE TEREMOS MUITAS DÚVIDAS.
E QUE TEREMOS QUE CONSULTAR MANUAL ORTOGRÁFICO MUITAS VEZES.

ENTÃO DISPONIBILIZAMOS ABAIXO O LINK DA ÁTICA ONDE ELA NOS PRESENTEIA COM UM MANUAL MUITO BOM:





sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A MAGIA DE REBECA - texto infantil - AMM

A MAGIA DE REBECA


Rebeca fazia mágica com os dedos.



Segurou nas mãos a boneca de pano de sua mãe e desejou que ela se tivesse vida.


Os dedos iam pra  lá e pra cá, estalavam no alto e abaixo do brinquedo... e nada.


Uma palavra mágica aqui e outra ali para transformá-la em amiguinha de verdade.


E ... Pliiiiim! Uma onda de fumaça encheu o quartinho. A antiga boneca com cabeça de porcelana ganhou vida e sentou ao lado da menina: Oba, eu conseguiiiii!


A amiga ria feliz. Ria, ria, ria. Depois beijou tanto o rosto de Rebeca que a boca virou beiço. Ih, a mágica não estava bem feita!


Novas palavras mágicas, novas estalações de dedos e a criaturinha calou-se em seu corpinho de pano e cabeça de porcelana.

DIGNA DE RAINHA - AMM



DIGNA DE RAINHA


Estreita o bastante para aconchegar meu corpo dentro dela e me trazer a sensação de relaxamento.

Sua cor mecla de esverdeado e dourado com pequenos pontos levemente descorados ainda fulgurava diante dos meus olhos.

O tecido claro em tom pérola de “schienale” que a cobria reverenciava uma época regencial ornado com grandes flores em ramos e folhas compondo um arranjo no espaldar interno que parecia esparramar pelo espaldar externo.

O espaldar não era alto, mas empunhava um cuidadoso contorno rococó dourado em torneado de madeira nobre, que me abraçava um abraço justo o que me fazia ter mais prazer em desfrutar seu conforto.

Os pés de madeira da mesma nobreza eram afunilados o que lhe dava aspecto altivo como tinha que ser. Eram altos e torneados com desenhos circulares imitando o quase rosquear de um parafuso.

Nas laterais deixavam-se firmes braços ostentados que apoiavam os meus em almofadetas do mesmo tecido enquanto eu descansava.

OLHAR FATAL - AMM


OLHAR FATAL




Era um sábado à tardinha quando no bar a família Lima reuniu-se numa pequena mesa para comemorar o aniversário do menor. O do meio estava encantado com a janta fora de casa. A mais velha usava a melhor roupa que imaginava combinar com o baton barato. O bolo Pullmann trazido na bolsa de mãe estava arrumado num prato de louça com as beiras quebradas e a tubaína já podia ser servida aos pequenos.

À porta surgiu Miro Silva com panca de famoso estancando com pose de galã e engolindo a mãe com olhos de vaqueiro. Ela desandou a ajeitar o cabelo da mais velha e fez o que pode para desatinar de pensamento ruim.

Miro caminhou atrevido em direção à mesa da família e pediu emprestado o fósforo. A mãe enfiou a mão na bolsa magra e de lá saiu com olhos culpados em direção ao rapaz.

O chefe da família percebeu a ousadia do moço e levantou-se devagar. Para um homem de bem isso já seria o bastante para fazer com que o safado se afugentasse.

Mas não foi para Miro. O rapaz ali permaneceu mais alguns segundos e ainda ensaiou perguntar quem fazia aniversário. O pai de punhos cerrados puxou o rapaz pelo camisa encarando o moço com ódio e disse que na família não cabia mais ninguém e recomendou que ele sumisse dali enquanto estava vivo para isso. Mas Miro riu abusado da ameaça do homem e nem se moveu. A ofensa cresceu para o rei daquela família que assustada a tudo assistia encolhida no canto sob o balcão de bebida. O pai puxou a peixeira da cinta e num golpe rápido e forte golpeou o rapaz na barriga. O sangue do rapaz correu ligeiro para fora da roupa. Miro arqueou derrubando a mesa do bolo, mas ainda ostentava o riso sarcástico. O chefe da família suava frio tremendo até os ossos pasmado diante do fato. De repente Miro sacou a garrucha e disparou dois tiros certeiros no peito do rei Lima.

Um grito de mulher tomou conta do ambiente, e depois o silêncio.

OS SEGREDOS DO MECÂNICO - AMM



OS SEGREDOS DO MECÂNICO


No Natal o mecânico esperava por um milagre. Enfático em suas orações pedia proteção aos Reis Magos . Espera uma luz solucionadora de problemas.

Ia se casar em breve e ainda guardava íntimos segredos. Coisas bobas como: o mau cheiro que exalava do pé esquerdo todas as noites. As ásperas mãos tratadas sempre antes dos encontros. As cáries escondidas não corrigidas por falta de dinheiro. Tudo o atormentava. Mas a perna mecânica o deixava inseguro. O lado direito tinha ficado preso sob um veículo enquanto o consertava e precisou amputá-la. Não contou nada a Madalena até aquele dia.

Casamento marcado para Janeiro com preparativos avançados. E o mecânico desesperado com tantos segredos. Temia pela noite de núpcias quando tudo se revelaria de maneira grosseira. Os amigos aconselhavam a contar tudo para a moça antes de gastar os tubos de dinheiro sob pena de nada se concretizar. Mas ele titubeava, não queria perder a amada por isso nada revelava. Quem sabe para ela nada signifiquem esses segredos e o amor dela por você seja tão grande que ela nem se incomode com esses segredos, diziam os amigos. Mas ele refletia, refletia, e nada fazia. Quem sabe ela tem outros defeitos e até piores e ela também tema revelar para você, insistiam os amigos. E o jovem mantinha-se calado.

Chegou o Natal quando ele acreditava no verdadeiro milagre. Em orações enfáticas pediu que os males fossem curados para ele puder ser feliz com Madalena.

E pliiiim! Uma luz colorida se espalhou pela sala escura e ele sentindo-se estranho sentou-se na poltrona diante da árvore de Natal de onde viu tudo acontecer. A porta foi se abrindo lentamente e uma imagem difusa de um Papai Noel surgiu entrando com uma lanterna acesa na mão. O mecânico não conseguia ver o rosto, mas acreditava no milagre de Natal e rezou em voz alta. Noel ajoelhou-se diante dele e aos poucos foi removendo a velha perna mecânica amiga de mais de doze anos. O rapaz rezava enfático e agradecia pelo milagre da Noite de Natal. Papai Noel então se levantou devagar segurando a prótese nas mãos e saiu pela porta deixando a lanterna no chão ao lado do nosso jovem. As preces podiam ser ouvidas ao longe.

Ali amanheceu nosso mecânico sem seu milagre e sem sua perna.

E longe já estava o ladrão de prótese.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

CONVERSA FIADA - conto caipira - AMM





CONVERSA FIADA



Obrigada pelos elogios. Mas não precisa tecer elogios só para conseguir ouvir de mim as coisas que eu sei. Eu vou contar de qualquer maneira e você sabe disso.


Vi sim o filho de Dona Dora, o Florival, aquele que brigou com o Marinho na festa do Zé Venâncio. Fiquei sabendo que o Marinho ofendeu o coitado com umas bobageiras de moço virgem, coisa à toa. Mas o Florival não gostou nadica da conversa desaforada do Marinho e exigiu um pedido de desculpa. Imagine se o Marinho é homem de pedir desculpa para alguém? A coisa foi tomando vulto e rolaram feitos porcos na lama perto do laranjal. Você lembra disso? Você estava lá com sua senhora, que Deus a tenha! Era soco e pontapé que não acabava mais. Até o Zé Venâncio, homem bom que Deus pôs na terra, teve que apartar a brigaiada dos dois mocinhos. Então, ontem o Flô passou na frente da minha porta, mas não falei com ele não. Tive um pouco de medo de bagunça, de confusão. Estava um calor de agoniar, até a cadelinha Marica estava aflita, então fomos sentar na varanda esperando que a brisa refrescasse um bocadinho com o entrar da noite. Luz apagada pra afugentar a muriçoca e diminuir o calor. Mas, qual nada, a noite chegou e o calor se instalou. Parecia um forno! O Julio cochilou um tiquinho na cadeira dele, e eu estava lendo uns causos do Boldrin quando assuntei uma figura esquisita, mal vestida, passar bem devagar como quem vai pra banda da bica do Chico. Ele estava estranho, com umas roupas grandes que não pareciam ser deles. Tinha um chapéu preto na cabeça, e a barba estava grande. Parecia um mendigo, o pobre. Ele até deu uma paradinha, de costas, pra minha casa. Pensei em chamar pra saber o que estava acontecendo, mas hesitei e acabei não falando com ele. Levantei devagarzinho da minha cadeirinha e caminhei até o portão da rua, e ele nem me viu. Vi que ele andava mancando um pouquinho da perna esquerda será que foi naquela briga do ano passado? Mas ele parecia confuso, dava a impressão de que ele não sabia onde estava. Tive até medo do infeliz. É, depois que a Dona Dora morreu, no começo desse ano, de uma morte muito esquisita que até agora não ficou esclarecida, o rapaz andou fechado em casa e quase não fala com ninguém. Dona Dora tinha um bom dinheiro que ficou do falecido Luiz, e o rapaz herdou tudinho com a morte da mãe. É por causa dessa dinheirama que as coisas não ficaram bem esclarecidas. Até a escola o Flô abandonou. Estranho, você não acha? Não vi pra onde ele foi ontem à noite, mas escutei uns zuns zuns lá pra banda da bica e parecia ser a voz dele, mas não tenho certeza. Por causa do calor a gente fica um pouco zoada, né? Sabe que eu até puxei minha cadeirinha pra bem perto do portão para eu ver se ele voltava, e ele voltou lá pelas tantas da madrugada. Não sei dizer com exatidão a hora que era, mas era bem tarde. O Julio já tinha se recolhido, com calor e tudo. Mas eu estava lá, firme e forte com os causos caipiras. O Flô voltou sem chapéu. Lembra que eu disse que estava com chapéu preto? Pois então quando ele voltou já estava sem chapéu. A roupa bamba que estava usando parecia que tinha molhado. Fiquei imaginando se ele não tinha entrado na lagoinha da bica pra se refrescar. Ele estava segurando alguma coisa na mão, e não era o chapéu. Parecia uma caixa bem pequena. Lembrava uma caixa de leite longa vida pelo tamanho. Mas estava escuro do outro lado da rua. Cansei de pedir pro Bastião da Prefeitura clarear aquela banda da rua, mas aqui na nossa cidade as coisas demoram demais pra acontecer. É, ele passou do outro lado da rua. Vez ou outra um clarão vindo de alguma casa da vizinhança, alumiava o rosto dele. Ele parecia mais estranho do que quando foi. Parecia abatido, cansado, sei lá. Descuidei e deixei cair o livro. O baque fez ele parar e procurar de onde veio o barulho, me encolhi atrás da amoreira e ele não me viu. Só que aí ele apertou o passo, quase correu na direção da casa dele. Pensei em seguir o infeliz pelo menos pra ter certeza de que ele ia pra casa, mas o meu Julio apareceu lá e ficou brabo comigo: “Vem dormir mulher! Ta pensando que você vai ganhar alguma coisa com investigação da vida alheia?” Resolvi ir cama pra não brigar com ele. Mas dormir, eu não dormi nadinha. Levantei com as galinhas. Além do calor infernal que estava naquela cama, eu tinha essa história na minha cabeça que não me deixava sossegada. Aí você ligou e pediu pra eu vir aqui. Mas, você está me perguntando se eu vi alguma coisa estranha ontem pra mor de quê?


ESFELINTUS, A DESCOBERTA DO SÉCULO - Invenção Maluca - AMM




ESFELINTUS, A DESCOBERTA DO SÉCULO




Mil histórias são contadas
Já nem sei se verdadeiras
Esfelintus é sempre o tema
É vendido até em feiras

Substância interessante
De sabor inigualável
Cor de burro quando foge
De consistência mutável

Cientistas brasileiros fizeram a descoberta
Esfelintus, substrato de silício derretido
Pode ser utilizado em sanduíche
No automóvel e na fralda do recém nascido

Causa estranheza esse produto tão versátil
Mas Esfelintus é de longe o mais potente
O mais forte, mais gostoso e mais barato
Já existe até o eletrônico em formato portátil

Se ainda não conhecia procure logo se inteirar
Produto revolucionário com diversas utilidades
Da gasolina à estética, da construção à culinária
De grande valia, o Esfelintus, vai “pegar”.







ESFELUNTIS - Invenção Maluca - AMM





ESFELUNTIS


Substância mineral, natural, de cor variada, subproduto do silício.



Dada sua extrema abundância na natureza, foi testado como aditivo em diversos ramos da indústria mundial.



Devido a sua capacidade mutante, esta substância se adaptou muito bem ao concreto. Esse casamento gerou uma enorme gama de produtos com diversas aplicabilidades.



Quando misturado em proporções adequadas ao estrume bovino (estrumassa), este produto adquire resistência descomunal, superando a resistência do concreto armado.



Este processo já foi comprovado recentemente em Nova York, nos Estados Unidos, aplicado na estrutura do Word Trade Center e após sua cura total, foi testado com o confrontamento físico de duas aeronaves.



Comprovadamente o choque não abalou de fato a estrutura das torres, isso devido ao efeito “atômico” do Esfeluntis Estrutural. O colapso do WTC deu-se com o derramamento do combustível das aeronaves, que não continham Esfeluntis em seu processamento original.



Sim, o Esfeluntis também é utilizado como componente no combustível, o que inibe sua combustão.



No entanto a sua maior aplicabilidade é de caráter popular, na área de estética. As mulheres, e até mesmo os homens, aplicam Esfeluntis como tintura de cabelo. Para isso a substância é misturada com água de lambreta (caldo extraído do marisco esfelúntico baiano).







DORA A MULHER DO JECA - Conto caipira - AMM




Dora,a mulher do Jeca


A trouxa de roupas sobre a tordilha na cabeça de Dora servia para abrandar o sol que ardia. Pés descalços acostumados aos maltratos da trilha que a levava até o riacho onde lavava os trapos dos pequenos. Os passos eram curtos e firmes. Na boca uma canção antiga que a impelia a prosseguir. O calor escaldante do sol do meio dia não assustava a mulher valente que era. A vegetação cansada caía desfalecida sob os pés grosseiros da mulher, e ela não se deixava abater. Caminhava, e cantarolava.

- Pisa na fulô. Pisa na fulô. Pisa na fulô e não maltrata meu amô.
 
Os pensamentos da mulher vagavam entre os moleques e Jipa, sua cabrita leiteira. A bichinha amamentou mais as crianças que a própria Dora.
 
- Tomara que a Jipa viva um tanto! – pensava.

Dora arriscou uma olhadela pro céu e quase cegou:

- Vixe, tá de arder o coro – pensou, fechando os olhos rapidamente.

Jeca nunca ia até o rio. Ela mesma roçava o matagal para manter a trilha.

Aproveitava a lavação das roupas para se banhar e lavar os cabelos. Esse momento tinha um quê de lazer para Dora. À beira do rio as roupas ficavam abertas e ensaboadas ao sol. Esfregava com cuidado uma a uma, e depois as batia na pedra. Sovava com força. Só depois de tudo isso é que a roupa ia quarar. A trouxa grande ia aos poucos minando, e Dora cantarolando cada vez mais alto:

- Pisa na fulô, pisa na fulô...

Depois de quarar cada peça, ela as mergulhava na água fria e esfregava mais um tiquinho. Agora sim elas poderiam ser chacoalhadas e torcidas. Às vezes Dora as deixava secando nas pedras enquanto se banhava.

Primeiro afundava os pés descalços até os joelhos. Para isso erguia a saia e a prendi no cós. Depois soltava os cabelos pretos que pendiam pelas costas e num gesto rápido jogava a cabeça para frente e os cabelos iam junto fazendo um enorme leque sobre sua cabeça. Dora então se curvava e mergulhava toda a cabeça na água corrente. Assim, Dora permanecia alguns segundos desfrutando desse momento. Depois rodopiava o sabão de pedra pela cabeça ensaboando todo o cabelo. Massageava devagar o couro cabeludo:

- Pisa na fulô, pisa na fulô...

Seu momento de prazer!

Finalmente juntava as roupas num enorme trouxa, se ajeitava e voltava para casa. Os pensamentos voavam longe do sitio e iam pela novela da televisão que viu um dia na casa do delegado quando foi visitar a mulher parida.

Seguia com um leve e honesto sorriso nos lábios. Agora só volta na semana vem pro rio...



BOCAGE - O EU LÍRICO DE UM GRANDE POETA


Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal - Portugal - aos 15 de setembro de 1765. 
Numa rápida passagem pelo Brasil em 1786, Bocage já encantou a sociedade brasileira.



Em 1797, Bocage foi preso em Portugal por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".



Morreu aos 40 anos na casa onde viveu, e acabou por ser sepultado na Igreja das Mercês.


-*-

"Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido

De ti só trago cheia, oh Jónia, a mente;
Do mais e de mim ando esquecido."

*-*

"Travam-se gosto e dor; sossego e lida...

É lei da Natureza, é lei da Sorte
Que seja o mal e o bem matiz da vida!"


*-*

"Chorei debalde minha negra sina",

"em sanguíneo carácter foi marcado
pelos Destinos meu primeiro instante".

*-*

"Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro",

*-*




Marilia, nos teus olhos buliçosos


Os Amores gentis seu facho acendem;

A teus lábios, voando, os ares fendem

Terníssimos desejos sequiosos.


Teus cabelos subtis e luminosos

Mil vistas cegam, mil vontades prendem;

E em arte aos de Minerva se não rendem

Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

Reside em teus costumes a candura,

Mora a firmeza no teu peito amante,

A razão com teus risos se mistura.


És dos Céus o composto mais brilhante;

Deram-se as mãos Virtude e Formosura,

Para criar tua alma e teu semblante





 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

COMO VAI VOCÊ? - AMM




COMO VAI VOCÊ?



Na cama os dias já se confundem com as noites. Os lençóis quentes e amarrotados se amontoam sob o corpo doente e frágil da mulher.
Pouca luz. Pouco ar. Pouca visita, mas ainda assim muita esperança de continuar vivendo.
Há dias ninguém a ajuda com o banho e nem com a alimentação. Há dias não há mais ninguém.
Mas quando num repente a porta se abre e adentra o filho saudável, ela sorri ternamente e avança:
- Como vai você, meu filho?

NO BEIÇO DO JECA - AMM




No beiço do Jeca




O pito no beiço do Jeca já ia a todo vapor quando amuntô na égua Formosa.

Um ventinho lazarento ia abrasando mais e mais a bituca que se pregô na bêra do beiço.

O moço atarantado esporô o bicho enquanto tentava arrancá a brasa pregada.

A égua desandô numa disparada de fazê risco.

A égua corria.

O vento ventava mais.

O pito pregava mais.

O beiço queimava mais...

NA SALA DE ESPERA - AMM




NA SALA DE ESPERA




Na sala de espera a espera da vida

enquanto pinto o retrato severo

enquanto o povo gargalha

enquanto cabulo aula que nem havia

enquanto na revista o tempo não passa

enquanto o exame não é lido

enquanto o grito se escassa



A sala de espera que nos testa

Enquanto travamos amizade

onde o tempo nos contesta

onde esperamos a bondade.



Espera, sala é sala somente

Mas Cassiano fez o mundo na sala

fez o amor e a saudade

Enquanto na sala dos outros

se espera o medicamento



Desesperada na sala de espera

na sala de sarau que canta

enquanto a sala vira um'esfera.

Onde a esperança m'encanta

De horários descompassados

Na sala de concreto a hora não acaba

De cadeiras mudas

As paredes conhecemos de cor.

A espera da vida, o desafio do olhar

Sala de retratos calados

Espera de café

Enquanto o som ambiente se cala

Para dormirem os olhos amendoados...

sábado, 16 de janeiro de 2010

O MASCATE JUVÊNCIO E O VESTIDO DE LINDA





O MASCATE JUVÊNCIO E O VESTIDO DE LINDA

O mascate Juvêncio ruminava um fumo de corda, montado na velha carroça que o levava para as terras do Coronel Severo. Jovem ainda o rapaz herdou do pai a profissão de caixeiro viajante que lhe rendia um bom dinheiro.



No baú ia seda para dona Maria Tereza, chapéu Panamá do velho Severo e um outro de tafetá vermelho para a filha mais velha, a botina de Severinho, fazenda para as cortinas, sapato com salto de verniz nº 36 para Linda, pó de arroz e água de cheiro para as meninas, a cela de couro trançado para a égua Princesa, espelho para a sala, o tapete de sisal para o quarto da negra Felinta, e as revistas da cidade com novidade da moda.


O baú estava cheinho.


Mas o que mais dava prazer ao mascate era o vestido de Linda. A moça encomendou já ia pra um ano ou mais e o que atrasou a encomenda foi a exigência de tantos detalhes: “tem que ser inteirinho vermelho, ter renda importada de Paris nas mangas e no peito, botoezinhos forrados nas costas, e saiote de tafetá branco pra deslumbrar os olhos de quem enxergar”.


Danada essa Linda.


Desde o dia do pedido Juvêncio quase não dormiu. Inquieto o homem ficava imaginando a moça dentro do vestido vermelho caminhando no caramanchão fazendo-se descuidada deixando ver a pontinha branca do saiote engomado. Mais adiante a mocinha arrumava o cabelo dentro do largo chapéu vermelho, aveludava as faces com pó de arroz, largava um perfume de flor atrás das orelhas e voltava ao caramanchão para Juvêncio admirá-la.




Danadinha essa mocinha.


Quando a carroça aproximou da porteira o rapaz parou, ajeitou o cabelo com brilhantina, trocou a suada camisa, limpou a botina, bochechou com água de colônia. Apeou destrancou a tramela. Viu escancarar a porteira da fazenda, e sorriu.


Gritou como de costume: “ô de casa!” para ver sair em disparada a moça Linda que num sorriso enorme veio em sua direção perguntando: “e meu vestido, meu chapéu, trouxe desta vez?”...
 Que danada essa moça!


Ele apeou de novo para os cumprimentos e percebeu que a moça já estava carregada de perfume. Dona Maria Tereza logo chegou e atrás dela o Coronel Severo: “boas tardes Juvêncio, trouxe tudo desta vez?”.


“Se trouxe, veio até o vestido vermelho de Linda!”.


Aliás, ela nem esperou descer o baú e já foi se apossando de suas compras nem adiantou o Coronel ralhar com ela.


Dona Maria Tereza convidou o mascate para um café na varanda enquanto as meninas esvaziavam o baú.


E lá vinha Linda. Linda!


Dentro do vestido vermelho com os cabelos lisos arrumados dentro do chapéu largo ela desfilava pela varanda...





O moço se abobou vendo aquele corpanzil vermelho se equilibrando no sapato de verniz enquanto a cabeça inclinava para o lado.


Ele não disse que ela era danada?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

BIBI FERREIRA - MONÓLOGO DAS MÃOS

Os anos passam mas Bibi Ferreira não perde nunca o charme e o encantamente no palco:



E aqui temos um video onde ela, magistralmente, declama o Monólogo das Mãos:




E aqui ela canta Basta um dia de Chico Buarque na peça Gota D'água também de Chico Buarque, nos idos dos anos 70:



E agora a Bibi faz a melhor interpretação já vista da música Gota D'Agua de Chico Buarque:

CONVITE PARA SAÍDA FOTOGRÁFICA EM SÃO PAULO




12ª Saída Fotocultura: Fotografando pela Vida
com Yuri Bittar

Fotografar, se divertir, aprender e contribuir para a sociedade!

Em parceria com o Hemocentro da UNIFESP faremos uma saída fotográfica diferente. A proposta desta vez é, além de praticar a fotografia, como sempre, também ajudar uma causa importante: a doação de sangue!

O mês de fevereiro é um dos piores para os hemocentros, por conta do carnaval. Vamos ajudar a divulgar esse essencial ato de cidadania e ainda fazer incríveis fotos que, além de belas, terão um importante cunho social.

Quando:
06/02/2010 – sábado / 10hs

Ponto de encontro:
Hemocentro da UNIFESP / Hospital São Paulo
Rua Botucatu, 620
(Próx. Metrô Santa Cruz) Vila Clementino - São Paulo


Como vai funcionar?
•Iremos nos encontrar no Hemocentro, onde quem puder e quiser doará sangue
•Ninguém será obrigado a doar sangue!
•Os participantes que não forem doar poderão ficar junto e fotografar da mesma forma.
•Poderemos fotografar uns aos outros fazendo a doação (momento principal do evento) e essas fotos irão ajudar muito a divulgar a idéia da doação!
•Será possível, ainda, fotografar as redondezas e estender o passeio até a região do Ibirapuera!
•Quem quiser pode chegar mais cedo e ir “adiantando” a doação.

As Saídas Fotocultura são livres e gratuitas, qualquer pessoa pode participar, com qualquer tipo de equipamento. Para se inscrever basta me mandar o nome por email, deixar recado aqui ou no Flickr, ou apresentar-se na hora do evento!


Fotografar é muito bom! Mas penso que se pudermos unir a isso um objetivo tão importante e nobre iremos tornar nossa fotografia muito mais profunda e valiosa! Ou como disse o poeta:

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
Fernando Pessoa

Aguardo todos lá!
Yuri Bittar
www.yuribittar.com

Apoio:
Confederação Brasileira de Fotografia

Mais Informações
HOSPITAL SÃO PAULO
Rua Botucatu, 620
(Próx. Metrô Santa Cruz) Vila Clementino - São Paulo
Horário de atendimento:De Segunda à Sábado das 08:00 às 17:00h
Fone: 5539-7289
www.unifesp.br/dmed/hemato/hemocentro
Postado em 9:52, 7 de janeiro de 2010 PST ( permalink )



AEROPORTO DE LISBOA - A TAP DESEJANDO BOAS FESTAS AOS PASSAGEIRAS




As empresas aéreas TAP e ANA foram muito originais neste Revellon.
Desejaram boas festas aos passageiros de maneira alegre e contagiante.
E posteriormente repetiram o balé maravilhoso e hiper animado no Aeroporto Tom Jobim no Rio de Janeiro.
Parabéns pela inicitiva!

NATAL E VIRADA DO ANO DE 2009:









Este foi no Rio de Janeiro:




quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

LEMBRANÇA DE MARIA - ANA MARIA




LEMBRANÇAS DE MARIA


Fria manhã, na cama, ele espreguiça o corpo
Estica pra lá, estica pra cá, boceja bocejo intenso
Ao mesmo tempo em que o despertador o assusta
Os pés, sem meias, frios, se cobrem novamente
Lá fora fina garoa brinda a vidraça embaçada
Precisa coragem para sair do ninho aquecido

O retrato de Maria parecia desconfiado
O jovem se pergunta se ele fora amado
Boceja longamente pensando nela
Que ela esteja feliz é o que importa
O relógio avisa que já passou mais tempo
Há um ano não via Maria

Num ímpeto se levanta vai à janela
A vidraça impetuosamente gelada o recebe
Vê sua imagem fosca refletida
Assim como fosca está Maria.

O TREM - ANA MARIA



O Trem

Piuííí...Piuíííí! Lá vem o trem
Puxando história pela locomotiva
Que rasga o vento até a estação
Vem gritando, anunciando chegada
Repete incansável cacoete da máquina erosiva
Tiqui-xiqui, tiqui-xiqui, tiqui-xiqui...
Um suspiro e uma arfada, um suspiro uma arfada
Lá vai o trem
Piuííí...Piuíí!!!


Robusta e elegante a máquina avança
De rumos traçados e trilho no chão
Lá vaia ela, a máquina de aço
Tiqui-xiqui, tiqui-xiqui, tiqui-xiqui...
Realizando momentos, levando emoção
Tirando a gente do nosso compasso
Entre suspiros e outras arfadas, suspiros e arfadas
Entre partidas ou chegadas, sem suspiros sem arfadas
Fazendo historia a composição.
Piuíí...Puííí!!!

Lá vai o trem de aço
Partindo daqui, partindo dali
Deixando aos poucos nossos cenários
Tiqui-xucu, tiqui-xucu, tiqui-xucu...
Não apita mais a locomotiva
Não ouvimos mais estardalhaço
Sem rastro nos trilhos lendários

Última chamada, último carro
Não haverá cacoetes, nem outro horário
Último trem.
Não haverá apitos, nem mais arfadas
Ticu-xucu, ticu-xucu, ticu-xucu...
Desaparecendo nas cordilheiras nevoadas
Nunca mais suspiros, nunca mais arfadas
Lá se foi o trem...


A VIDA DE DITINHO - ANA MARIA



A VIDA DE DITINHO

Lá pras bandas do Canavial dispois do Lajeado
Mora o Ditinho Sanfoneiro, filho do Zé Vermeio
Aquele famoso Zé, o que nunca comprô fiado
Esse acontecido também é bom, mas fica aqui adiado
Ele, o Ditinho, trabaiadô e de muito pouco proseio
Mora sozinho o moço e gosta de sê sanfonêro

Naquele cafundó de mundo
O Ditinho é muito feliz
Toca a safoninha vermeia
E é tudo que sempre quis

Na rocinha bem cuidada toda prantada de banana
No alto daquele morro onde ninguém qué prantá
Se alevanta bem cedinho e apronta a matula
Vai pro eito inda escuro e trabáia sem discansá
Vorta de enxada na mão quando já tá noite escura

Mas sábado é dia sagrado pro moço se adiverti
Fica na solêra da porta cantando o dia todinho
Tocando sanfoninha e cantando até o dia se í.
Entra um sábado e sái ôtro, e o Ditinho a ripiti
Naquela solerinha de barro, fica o moço sozinho.
Cantando modinha e tocando até o dia parti.

BENDITO SEJA O NATAL - ANA MARIA



Bendito seja o Natal!

Enternecido o homem estaciona a desavença,
Volta os olhos meigos para o irmão amigo
Alimenta a estranha boca faminta
Sorri com ternura para o desconhecido

LOUCURA DE AMAR - ANA MARIA




Loucura de amar

Sangra em mim o fogo de amar
Amo-te como um pássaro ama o vento,
Como o navio deseja o mar!
Amo seu cheiro, nosso acasalamento.
Seu vigor, seu dormir e acordar.

Um sentimento desnorteante que declara
Loucura como a de um Van Gogh
Amor que ninguém jamais viveu
Nem o pintor, nem Julieta, e nem Romeu.

Amo-te sobre tudo que existe em mim
Amo-te sobre meu próprio ser, querido
Como o céu ama a estrela brilhante
Como a brisa, a relva ama
O amante, o cupido.

REGRESSO - ANA MARIA




Regresso

Sendeiro turvo
De mortas folhas
Plúvea senda
De óbvios medos
Obscura sem legenda
Inócua trilha
Incapaz
de ser nociva
Por ela
seus passos calados
Rasteiros, sem pressa
Voltando para meus abraços...

INÚTEIS PALAVRAS - ANA MARIA



Inúteis palavras

Inúteis palavras
Com sede
de encontros
Enrijecidas bocas
sem encantos
Frágeis discursos
Com medo
de ontem
Endurecidas
almas em prantos

RENASCENDO - ANA MARIA




Renascendo

Ah, que saudade
de mim...
Tanto tempo
amarrada
em você
Obediente
ao seu dedo
em riste
Noites claras
nos olhos turvos
Dias escuros
na vida rasa
Perdi peso,
perdi riso,
perdi sonhos
Ganhei rasuras,
ganhei velhice.
Se por acaso
ainda houver
algo em mim
Que queira viver
depois de você
Vou querer
maluquice
Como criança
à véspera
de festa
Vou preferir
rir à toa
Cantar alegria,
dançar
e ir adiante
Ir
para qualquer lugar
sem você
Ir comigo mesma
Sem seu comando
Quero ser
minha dona
de novo.
Olhar no espelho
e ver
minha boca
sorrir
ouvir minha voz
Ver
meus pés caminhando
para fora de mim.

TOMÉ (Poesia Infantil) - ANA MARIA




TOMÉ

O pássaro azulado
foi visitar sua turma
voou muito dia e noite
só parou para ciscar
comeu folhas e sementes
até conseguir chegar

Tomé, o nosso pássaro
ficou muito emocionado
quando encontrou sua mãe
pai, tia e cunhado
Amigos e primos
todos muito chegados

Há muito tempo Tomé
Tinha partido da mata
Numa gaiola de arame
De maneira muito ingrata

Mas quando Tomé cresceu
Só pensava em voltar
Queria ver sua mãe
Irmãos e o pai abraçar
Então foi planejando
Daquela prisão escapar

E assim Tomé contou:
Numa manhã de sol
Quando o pirata chegou
Abrindo a gaiolinha
Para me alimentar
Fugi me debatendo todo
Contou Tomé a chorar

A família bateu asas
Bicos e pezinhos no chão
Lá estava o filho pródigo
Que se tornou azulão!


MINHA PINTURA (Poesia Infantil) - ANA MARIA




MINHAS PINTURAS

Na escola se chovia
No pátio não podia brincar
Então ficava na sala
Onde gostava de pintar

Um dia a árvore triste
Ficou linda de amarelo
A porta que era torta
Ajeitei com o martelo

A menina que sorria
Não tinha um chapéu bonito
Coloquei em sua cabeça
Um boné sem nada escrito

Na cadeira o velhinho
Lia atento seu jornal
Pintei na página interna
Os bichos do Pantanal

Nos pés do menino pobre
Calcei um tênis da moda
Vesti nele um jaleco
E na mão dele uma soda.

No carro velho riscado
Joguei tinta cor de rosa
Ficou lindo meu carrinho
E eu fiquei toda prosa.


CACHORRADA (Poesia Infantil) - ANA MARIA



Cachorrada

No rabo pousou o mosquito
Que ele ligeiro abanou
Na orelha uma mosca
Que depressa espantou

Com a língua lambeu a pata
Com os dentes se coçou
Com as orelhas se abana
No rabo o riso esboçou

Uns chamam Totó, Dino eToco
Outros Lessie, Rinti, e Pincel
Ainda há o Fino, Rex e Pitoco
Mas gosto da Luna e da Mel


MIGALHAS DE LEMBRANÇAS - ANA MARIA



Migalhas de lembranças

A saudade que pende no meu íntimo
Dela só eu sei, e ninguém mais
Fagulhas de sorrisos de seus lábios
Remetem ao passado, aos meus áis.
Alastrando rimas para fora do soneto
Fico triste ao me lembrar
Que você é nada mais
Que um retrato em branco e preto

As canções não têm mais razão de ser
Não sei mais falar de amor.
As palavras não têm mais razão de ser
Não entendo o que querem me dizer
Faço rimas distraídas sem valor
Digo coisas que nem sei mais traduzir
Migalhas de lembranças andam soltas
Da memória ao coração, mas sem furor

Penso até que não te amava tanto assim
E acho até que não queria voltar
Não quero mais seus braços esquecidos
Mas ficaria em sua lembrança, como amigos.

Faço rimas distraídas sem valor
Digo coisas que nem sei mais traduzir
Migalhas de lembranças andam soltas
Da memória ao coração, mas sem furor

Penso até que não te amava tanto assim
E acho até que não queria voltar
Não quero mais seus braços esquecidos
Mas ficaria em sua lembrança, como amigos.

LEMBRANÇA OFUSCADA - ANA MARIA




LEMBRANÇA OFUSCADA

As palavras não têm mais razão de ser
Não entendo o que querem me dizer
Alastrando rimas para fora do soneto
Fico triste ao me lembrar
Que você é nada mais
Que um retrato em branco e preto

É mentira, meu Deus. É mentira!
Na parede descorada desta vida
Sua imagem ofuscada inda reflete
Me lembro seu sorriso
Seu encanto, e nada mais
Apenas serpentina e confete
Apenas um navio sem o cais...

A PRIMEIRA PRIMAVERA - ANA MARIA




A primeira primavera...

Floria a primavera do quintal dos fundos. As folhas de um verde rubro pareciam feitas de casquinha de sorvete. As flores avermelhadas espalhadas por entres as ramagens vertiam das pontas dos galhos como línguas úmidas.

Há muito minha avó queria plantar algo que vingasse. Diziam que ela não tinha mão boa para isso. Devia ser verdade, pois no terreiro todas as plantas eram de sua irmã mais velha, a diabólica Lidiana. Sua mãe dizia: Lidiana deixa a Virginia em paz, não empanturra sua irmã. Mas isso era frase feita. Lidiana aporrinhava minha avó com coisinhas banais: Mamãe fez um vestido novo para mim. Ou ainda: Minhas plantas estão lindas, você viu?

Vovó conta que sua irmã passou a ser sua concorrente, embora se amassem muito. Mas foi Virginia que arrumou primeiro um belo namorado, e daí por diante a boca da irmã ficou mais quieta. Foi aí que vovó decidiu plantar uma primavera vermelha nos fundos da casa. Num canto abandonado atrás do poço artesiano, ela fincou algumas estacas de madeira fazendo um pequeno circulo, e no meio dele plantou a floreira. No começo ela não acreditava que vingaria, pois planta nenhuma vingou nas mãos dela. Mas depois de alguns dias a plantinha mostrava-se verde e firme. Virginia não contou nada para ninguém, ia escondidinha regar e arrancar as ervas daninhas.

Numa tarde de setembro quando sua mãe estava a baldear água, viu no canto uma pequena já folhagem bem cuidada e cercada por umas paliteiras. Chamou Lidiana e perguntou que planta era aquela que ela havia plantado, e Lidiana disse que só plantava flores, não mato.

Quando Virginia chegou da loja onde trabalhava de balconista correu para o fundo do quintal e lá ficou a conversar sozinha sentada ao lado do poço. Lá de dentro sua mãe viu e percebeu que a tal folhagem era obra de Virginia.

Floriam então lentamente as primeiras florzinhas vermelhas de Virginia, sua primeira primavera...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pequenos Deuses Caseiros - SIDÔNIO MURALHA




PEQUENOS DEUSES CASEIROS

Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.

Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.

Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas

Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.

PRESENTE REVELADOR - ANA MARIA





Engraçado que ele nunca quis me agradar tanto! Uau, este aniversário promete! – Pensava Francisca enquanto caminhava afoita em direção ao cabelereiro, queria deslumbrar, afinal era sua data.


Não tirava da cabeça o presente que descobriu na maleta do marido, uma lingerie amarela com a qual exuberaria num quarto qualquer de motel para agradar seu companheiro de mais de quinze anos. Norberto sempre foi escuso não gostava de demonstrar seus sentimentos. Fechava-se muitas vezes e não dizia palavra alguma tendo Francisca que adivinhar seu pensamento. Era chato isso sim, mas ela gostava de suas carícias, o admirava como marido. Amor não, ela achava que não havia mais amor entre eles, apenas um respaldo de respeito. Nunca tiveram filhos, vontade de Norberto, crianças atrasavam a vida – dizia.


Ao anoitecer a mulher postou-se produzida e perfumada diante da porta que ele abriria para comemorarem seu aniversário. O marido saiu cedinho bem vestido num terno alinhado, tudo para agradá-la no final do dia! Ali já estava há mais uma hora. Às vezes pegava o fone e ensaiava ligar, mas desistia, não queria parecer imediatista. Desligou o Frank Sinatra que cantava seguidamente a mesma música, e entreteu-se na novela. Ia ser uma noite como todas as outras, ela ficaria ali esperando por ele até ele chagar cansado e já alimentado. O trabalho dele era sempre mais importante! – queixava-se ela.


Na tela as mesmas personagens parecia muito com sua vida, a mesmice. Eis que entra em edição extraordinária o jornal dizendo de um incêndio em tradicional fábrica de tecido. Era a firma do Norberto. Os bombeiros diziam que havia ainda alguém lá dento. Ela apavorou-se, era ele que estava lá. Como ela poderia ficar achando que ele não lembraria de seu aniversário se até o presente comprou com antecedência! Era uma boboca, isso sim! – pensava enquanto roia as unhas esmaltadas. Via com aflição o trabalho dos homens da corporação em escadas magirus alçando o andar da janela do escritório do marido e retirando de lá duas pessoas desacordadas. Benzeu-se agradecendo por essa façanha. Os repórteres noticiaram as identidades das vítimas: Norberto Silveira e Carlos Lima, os paramédicos dizem que vão ficar bem. Francisca pensou, esses dois estão sempre juntos até na tragédia!


Os jornalistas amontoaram-se no local aproximando a câmera para melhor tomada de imagem e o que se pode ver chocou Francisca. Carlão usava calças com arrebites metálicos e correntes com grossos elos nas mãos, enquanto Norberto vestia uma delicada lingerie amarela...

PAPAI NOEL EXISTE SIM! - ANA MARIA






PAPAI NOEL EXISTE SIM!


É quase Natal!
A menina, filha da empregada, viu na sala de estar uma poltrona vermelha que flambava sonhos de criança e destilava desejos e pedidos, sobre o aparador uma touca vermelha com pompom branquinho denunciava a presença do Bom Velhinho:
- É a cadeira do Papai Noel?
O que responder para tal pergunta quando ela vem de uma criança de cinco anos que tem nos olhos o brilho do “eu acredito!”. Busquei rapidamente na memória uma resposta:
- É, é sim! Ele vem aqui todos os Natais.
- O que ele vem fazer na sua casa Tia?
E lá vem ela de novo com essa pergunta como se quisesse tirar de mim todas as respostas que eu nunca tive:
- Ele vem trazer os presentes para as crianças que foram boazinhas este ano, que obedeceram aos pais. Você foi boazinha? – Eu tinha que perguntar alguma coisa sob risco de não merecer crédito algum.
E ela consentiu ligeiramente com um confuso movimento de cabeça, mas imediatamente negou antes que Papai Noel a visse mentindo:
- Eu fiz arte. Acho que ele não vai trazer nenhum presente para mim – disse fazendo beicinho o que me tocou profundamente e fui logo tratando de defendê-la:
- Não, não fique assim. Papai Noel não esquece de ninguém.
E foi aí que ela puxou de leve a touquinha vermelha sobre o móvel:
- Não tire daí essa touca senão o Papai Noel não vem aqui.
- Essa touca é dele mesmo Tia?
E lá vem ela de novo buscando respostas difíceis:
-É sim. Ele vem de um lugar que tem muita neve e chega aqui com a touca toda molhada, então ele troca por esta que está seca. É...E depois a sua mãe lava a touquinha molhada e guarda para que ele possa trocar no próximo Natal.
Os olhos dela cintilaram de um modo inexplicável. Todo aquele cenário era mesmo do Papai Noel!
-Então é verdade, ele vem aqui! – exclamou a garotinha de olho na cadeira vermelha – Mas eu não vou ganhar nada dele né Tia?
E torna a menina a me cutucar para quase “prometer” algo:
- Claro que vai ganhar! Sente-se na poltrona dele e peça desculpa pela arte que você fez, diga-lhe que não vai fazer mais isso. Mas peça com muita força para ele te ouvir. Quem sabe ele não traz o seu presente? O que você pediu para ele?
- Eu pedi uma piscina. Será que se eu pedir desculpa pela arte ele traz a piscina? – perguntou já quase implorando para seu concordar.
- Acho que sim. Se ele não trouxer a piscina com certeza vai trazer outro presente. Sabe como funciona isso né? Ele ia te trazer a piscina, mas como você fez arte, ele usou o dinheiro para comprar comida para crianças que passam fome. Você passa fome?
- Não lá em casa tem comida – respondeu com olhinhos baixos.
- Então, como ele já gastou o dinheiro da piscina com comida para crianças pobres pode ser que ele não traga este ano, mas aí ele traz no próximo Natal. Senta aí e fala com ele. – E fui saindo para atender ao telefone que tilintava em outro cômodo. Passei por ela em seguida e a vi sentadinha na poltrona do Papai Noel, de olhinhos fechados muito concentrada em sua conversa particular.
- Pronto Tia, eu pedi desculpa e prometi ser boazinha. Se ele não puder me dar a piscina não tem problema. Fez beicinho de novo e deu de ombros.
No dia seguinte fiquei sabendo que ela contou para a irmã mais velha sobre a poltrona que ela viu, e a irmã disse que era mentira, que o Papai Noel não existia. E ela berrou:
-Existe sim! A cadeira estava lá! E estava também a touquinha seca que o Papai Noel vai trocar. A mamãe que lava a touca dele, né mãe? – A mãe consentiu com um risinho no canto da boca.
Na escola o Vinicius falou que ia ganhar uma bicicleta do pai dele, e ela disse que ia ganhar uma piscina do Papai Noel. O garoto logo foi dizendo que Papai Noel não existia, e ela saiu de novo em defesa de seus sonhos:
- Existe sim! Eu até sentei na cadeira dele que está lá na casa da minha Tia – falou quase aos gritos.
- Papai Noel não existe coisa nenhuma! – Tratou de logo ir complementando o menino.
- Existe! Existe! Existe! Lá tem até a touquinha dele que a minha mãe lava para ele. Você está dizendo que a minha tia é mentirosa seu idiota! – e a “tia” teve que interceder, pois a garota gritava enlouquecida – Eu vi a touquinha dele, eu vi! Existe sim, seu idiota!
É quase Natal.
Sob a árvore pairam alguns presentes em laços coloridos. Num deles uma piscina inflável de inestimável valor espera por sua dona. Graças à força de seu pedido e aos olhinhos infantis que falaram tão alto quanto seus sonhos...
Que venha o Papai Noel para atender a tantos pedidos... Eu acredito!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Rescaldo - Isabel Souza (homenagem à nossa portuguesinha querida)

Uma portuguêsa que tem o Brasil como pátria.
Alegre e cheia de risos, a Isabel foi entrando em uma de nossas oficinas e jamais saiu de nossas vidas.
Eis aqui um carinhoso poema de nossa lusitana:

Rescaldo 2009


Sempre quis acreditar
Na crença me acomodar
Olhando o acontecer
Como se fosse um prazer
Hoje,
Na verdade nua e crua
Só sinto do sol o calor
E o sorriso da lua
Meu sentimento à deriva
Minha atitude passiva
Com o que vejo ao redor

Aperta-me o coração!
Sento-me em um cantinho
Medito bem de mansinho
E, que vejo então?
À minha volta tristeza!
Tragédias - Mentiras

Políticos enriquecendo
Seres humanos embrutecendo
A cultura empobrecendo
Seqüestros – assaltos - iras
Numa constante incerteza

No Brasil - Sem novidade
“O mesmo banco”
“A mesma praça”
“O mesmo jardim”
Mesmo cheiro a impunidade
O povo acomoda-se enfim
Ele continua cativo
E o importante - é estar vivo
Alerta a todo o instante
Vislumbra um ano de esperança
Pedindo mais segurança
Apelando para a justiça
Pede um pouco de caviar
No fim do ano afinal
Acabará tudo em pizza
Como o mais rico manjar!


Muita coisa pra lembrar!
Assassinatos – Corrupção
Tráfico de drogas – Violência
No povo resta a paciência
E um sentimento profundo
Com a paisagem de um mundo
Egoísta e desumano!

Confrontos - bandidos e policiais
O PCC - quadrilha organizada
Em um país descoordenado
O crime banalizado
Ninguém agüenta mais!

Sanguessugas – mensaleiros
Neste mundo irregular
E deputados ligeiros
Num agito delirante
Seguram o seu lugar
De respiração ofegante

É grande a agitação
Dinheiro às mãos cheias
Recolhido com emoção
Em bolsos, cuecas e meias!

Mas o povo ainda crê
Que existe a felicidade
Jamais perde a esperança
Olhando as nuvens prevê
Que depois da tempestade
Sempre virá a bonança.

Isabel Sousa




quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PALHAÇARIA - AMM


(texto em andamento)
Ter o riso na ponta da língua
Ter nos olhos o brilho ao falar
Um pequeno gigante que míngua
Um rei que precisa reinar...




quinta-feira, 21 de maio de 2009

O MAIS IMPORTANTE CASO DE MINHA CARREIRA DE NEGOCIADOR - Ana Maria




O mais importante caso da minha carreira de negociador de seqüestros.


Na fria expressão do atirador não se via nada, nem aflição, nem cansaço, nem pressa. Matou quatro clientes e uns sete funcionários, e mataria quem mais considerasse necessário. Matou e posou os corpos numa janela sobre algumas cadeiras, e lá os deixou. Dali somente sairia com a grana que foi buscar. Nada mais importava. Mais de um milhão de reais estava fechado em duas maletas, prontas para serem levadas. Do lado de fora a polícia agia. A energia tinha sido desligada. A água cortada. Mas escuridão dentro do prédio passou a ser favorável ao seqüestrador. Lá fora os faróis acesos, as sirenes ligadas, os flashes de câmeras, tudo o auxiliava. O capuz e luvas escondiam seus traços e marcas, nem sua cor podia ser descoberta. Suas ordens às vítimas eram dadas por escrito em papeis com frases digitadas que já vinham prontas, e que ele guardava no bolso depois de usar. Uma mulher gorda foi escolhida para falar com a polícia através do celular dela enquanto ele ficava à sua frente mostrando papeletas para serem lidas em seqüência. Vez ou outra posicionava a arma em sua cabeça e ela gritava durante as transmissões. Um rádio transmissor da polícia nas mãos e ele controlava cada passo dos seus perseguidores. Um rádio de pilha ligado trazia as últimas notícias do fato. E o rapaz atento a qualquer movimento ou ruído. Restava ainda uma última exigência que faria aos federais, e essa seria aquela que o tiraria de dentro da agência bancária com a grana. Ele então esperou o momento exato para faze-la. Tudo estava saindo como ele havia planejado...

OUVI QUANDO A TELEVISÃO PERGUNTOU ALGO AO MEU NAMORADO...- Ana Maria





Ouvi quando a televisão perguntou algo para meu namorado...

Ouvi quando a televisão perguntou algo a meu namorado. Num relance a voz sonora e definida do locutor chamou-o pelo nome e lhe fez uma pergunta sobre a programação dos outros canais. Pasmei. Com a revista Ti Ti TI na mão, meu namorado respondeu de chofre e foi enumerando toda a programação para o locutor invisível. De beiço caído permaneci imóvel enquanto o imbecil continuava a longa lista de programação dos mais de vinte canais. Vez ou outra ele ainda me olhava como se a idiota fosse eu, como se fosse normal a televisão falar com alguém...Se liga cara! Se pelo menos ela estivesse conectada na tomada...

Carta ao filho na cidade



Carta ao filho na cidade

Darci Correia Araújo (Artista plástico e poeta popular em Goiânia, GO)



Salve, salve idolatrado querido filho. Deus te abençoe, assim mesmo de longe, e te cubra com o manto sagrado de Nossa Senhora. Antes de tudo, meu filho, a tua vaca Pombinha pariu uma bezerra, que é um brinco de bonita, e teu pai perdeu todos os documentos quando foi tirar o dinheiro da aposentadoria no Formoso do Araguaia. Mas não teve coragem de comprar um par de botina pra calçar no casamento do Antônio com a Terezinha da dona Socorro. Comprou só umas latas pra pôr a banha do Capado, um pano ruinzinho pra Ana Maria, duas bolas de arame farpado pra fechar a roça de mandioca - senão, o gado do Raimundo Dirico vai comer o restinho que sobrou - e 3 quilos de soda e 5 litros de querosene. Se eu não tiver gripada, vou produzir um sabão dos miúdos do porco.


Eu tava até sadia, mas fui fazer uns canteiros, que tá passando da hora de plantar as cebolas, e, naquele vaivém, me deu umas dores nas juntas, meu filho, que já passei tudo quanto há, até banha de cascavel, que me ensinaram. E foi com que melhorou um pouquinho. Mas não tô güentando juntar os estrumes de galinha de tanta formiga de fogo que deu este ano.


O João Bosco largou as pescarias, fizeram um fuxico tão grande aqui, dizendo até que ele estava pegando pirarucu pra vender. E veio os fiscal do Ibama pra prender as traias, remexeram na casa de farinhada, por debaixo do paiol, mas só encontraram mesmo os anzóis e uma redinha pequena toda cortada de piranha. Era uns rapaiz educado. Tinha um magrão que foi nas panelas, pegou um pé de galinha e saiu roendo, me abraçou chamando de tia, e, batendo no meu ombro, viu que era tudo mentira. Deus queira me perdoar se não foi aquele cabra que queria a bicicleta dele fiado, pra pagar com quê? Se não dá um prego, vive o tempo todo com um galo debaixo do braço, nas portas alheia pondo pra brigar.


Pois é, mudou um povo aqui pra perto que eu nunca tinha visto a tentação, trouxeram uma cachorrada que não sobra mais um indez nos ninhos de galinha. O velho é fazedor de cerca mais um dos dois filhos, tem outro que é casado com a própria irmã, só que é por parte de pai e não foram criados juntos. Ela tem dois meninos e tá buchuda de novo. A mulher do velho chama Fulozina, é parteira das boas, só que bebe uma pinga danada, mas é zelosa. Suas panelas de ferro são bem arriadinha e ela passa cinza com sabão no fundo antes de botar no fogo.


Tu ficou sabendo da morte do Joãozinho do Duca? Desapareceu no rio, não faz um mês. Tava banhando mais uns sete moleque e pulou de cima da piranheira. Aí diz que ele pulou e não saiu mais na flor-d'água, não sabem se se afogou ou se o bicho comeu. O povo juntou, procurou dia e noite, botou redes muito embaixo e nada. Aí as pessoas rezaram a missa de sete dias e puseram uma cruzinha no lugar. O velho quase dá um ataque, coitado, tá assim como quem vai até morrer.


Mande me dizer como está nos estudo; não vá fazer como as filhas daquele nosso conhecido que, depois de formadas, tavam até com vergonha do velho pai, coisa que quando elas moravam aqui viviam aí simplisinhas. Da última vez que vieram pra cá, era pouca gente que estavam conhecendo. Um orgulho que só vendo, tiveram coragem de cheirar os copos de beber na casa da comadre Júlia, só falando em higiene, higiene o tempo todo. Poucos foram com o tipo delas aqui.


Vou terminar agora. Tô muito sem assunto. Dá lembrança pro Expedito, pra Nenzinha e pra Rosa do Luiz Coelho. Fala pra Digé mandar minhas mudas de pimenta-dedo-de-moça e fazer dois pano de coador de café, que o meu tá passando muita borra. Depois eu levo um frango pra ela. Tá?


sábado, 4 de abril de 2009

MULHER FAZ DRAMA POR NADA! - Ana Maria






Mulher faz drama por nada

Aflita ao constatar que parte de seu corpo no espelho tinha sumido, a esposa pergunta ao marido:




- Você pode me ver? Olha pra mim, você consegue me ver?



- Vejo sim. É claro que posso, não estou cego.



- Mas você vê meu corpo inteiro, todas as partes?



-Que é isso Jurema, ta com faniquito? Hoje eu to cansado, não quero saber de farra por aqui.



-Não é nada disso Torquato, eu estou desaparecendo aos poucos. Olha pra mim. Você pode ver meu corpo inteirinho? Olha!



- Não, não consigo ver uma de suas orelhas e vejo apenas uma das mãos.



- Então estou mesmo desaparecendo, minha Nooossa Senhoooora!



- Que é isso mulher, fazendo tanto drama por nada? Que desaparecendo o quê?



- Então não estou desaparecendo, homem? E não é pra ficar desesperada se a gente não encontra mais parte do corpo? Vou me acabar em nada, uma fumacinha e pluft, acabou. Dona Jurema já era. Acha que não devo me preocupar, é?



- Mas até chegar o pluft pode levar uns quarenta anos, é tempo pra caramba! Tem muita gente que não vive tudo isso.



- Você não pode estar falando sério. Acha mesmo que eu devo me consolar com essa babaquice que me disse Torquato? Acorda homem, EU ESTOU SUMIIINDOOO!



- Ih, que coisa chata Jurema! Já passa das onze e eu levando às cinco. Relaxa mulher, você ainda tem uma orelha e uma mão, isso ainda tá bom demais. Agora me deixa dormir. E vê se não deixa cair nenhum pedaço seu no meu travesseiro. Vai dormir, vai. Boa noite.



DIA INÚTIL - Ana Maria






Dia inútil

O frágil vigor da manhã
deixava o homem preguiçoso
morgando pós despertador.


A cama amarrotada
Enguiçava os pensamentos dele
fazendo readormecer os olhos pesados.


Na rua iam e vinham
um corre pára
um vai e vem
um abre e fecha
que não tinha fim.

Mas ele delirava nebuloso
Em sonhos atribulados
Pesadelando com altos gemidos
Enquanto o sol rompia a fresta.

POEMA DE MUITAS FACES - Ana Maria




Poema de muitas faces...



Quando nasceu, um anjo torto
desses que vivem na sombra disse:
Vai! ser gauche na vida...

E ela foi!
Macabeando no viaduto
lenta de passos galopantes



ANTES Antes antes


Inimigo não se poupa. Ferro nele!


sorria lágrima de luto.
Rápida postou-se rente.


Demente,
no amargo parapeito
enquanto a tísica lhe ardia.


Glória negra peste branca
para ela Chicuta Campolargo!



DEPOIS Depois depois


A cabeça que fervia
galreio de boca muda
gritava pela vida fria


VIDA Vida vida


Erige,
toc toc ia e voltava
num olímpico olhar néscio
de suspiro estridente
clamava pela morte quente


morte Morte MORTE.


Virge!





Poema das sete faces – Carlos Drummond e Andrade
A hora da estrela – Clarice Lispector
Os devaneios do general – Erico Veríssimo
Utilização de ambivalências, antinomias


e “Método Lautréamont’

sábado, 28 de março de 2009

CUIDE DO PLANETA - FAÇA A SUA PARTE!!

Hoje às 20:30hs todos nós deveremos desligar a chave geral e deixar o mundo às escurars para cuidar do planeta.
.
Dedique pelo menos essa 1 hora ao nosso planeta.


Afinal de contas este é o maior bem que podemos deixar para nossos filhos: A VIDA !!





Sugestão: Adote a idéia e todos os dias desligue a chave geral por 1 hora. Escolha a sua hora e faça-o!
Além de você cuidar do planeta, certamente fará uma enorme economia na sua conta de luz!

ADOTE ESSA IDÉIA!



domingo, 8 de março de 2009

HOMENAGENS ÀS MULHERES...HOMENAGEM AO PUDOR FEMININO - AMM



Que dentre seus atributos possamos sempre enumerar o PUDOR.

Homenagem à mulheres que guardam o pudor como tesouro, ou como arma de sudução.

Não ha mulher mais bonita, mas delicada e desejada do que aquela que tem pudor, e charme.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Cecilia Meireles - Retrado

Na voz da própria poetisa: Retrato

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?









Cecília Meireles

"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."

(Romanceiro da Inconfidência)


Filha de Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil S.A., e de D. Matilde Benevides Meireles, professora municipal, Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de Janeiro. Foi a única sobrevivente dos quatros filhos do casal. O pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe quando ainda não tinha três anos. Criou-a, a partir de então, sua avó D. Jacinta Garcia Benevides. Escreveria mais tarde:

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."

Conclui seus primeiros estudos — curso primário — em 1910, na Escola Estácio de Sá, ocasião em que recebe de Olavo Bilac, Inspetor Escolar do Rio de Janeiro, medalha de ouro por ter feito todo o curso com "distinção e louvor". Diplomando-se no Curso Normal do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1917, passa a exercer o magistério primário em escolas oficiais do antigo Distrito Federal.

Dois anos depois, em 1919, publica seu primeiro livro de poesias, "Espectro". Seguiram-se "Nunca mais... e Poema dos Poemas", em 1923, e "Baladas para El-Rei, em 1925.

Casa-se, em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, com quem tem três filhas: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda, esta última artista teatral consagrada. Suas filhas lhe dão cinco netos.

Publica, em Lisboa - Portugal, o ensaio "O Espírito Vitorioso", uma apologia do Simbolismo.

Correia Dias suicida-se em 1935. Cecília casa-se, em 1940, com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

De 1930 a 1931, mantém no Diário de Notícias uma página diária sobre problemas de educação.

Em 1934, organiza a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, ao dirigir o Centro Infantil, que funcionou durante quatro anos no antigo Pavilhão Mourisco, no bairro de Botafogo.

Profere, em Lisboa e Coimbra - Portugal, conferências sobre Literatura Brasileira.

De 1935 a 1938, leciona Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literária, na Universidade do Distrito Federal (hoje UFRJ).

Publica, em Lisboa - Portugal, o ensaio "Batuque, Samba e Macumba", com ilustrações de sua autoria.

Colabora ainda ativamente, de 1936 a 1938, no jornal A Manhã e na revista Observador Econômico.

A concessão do Prêmio de Poesia Olavo Bilac, pela Academia Brasileira de Letras, ao seu livro Viagem, em 1939, resultou de animados debates, que tornaram manifesta a alta qualidade de sua poesia.

Publica, em 1939/1940, em Lisboa - Portugal, em capítulos, "Olhinhos de Gato" na revista "Ocidente".

Em 1940, leciona Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas (USA).

Em 1942, torna-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro (RJ).

Aposenta-se em 1951 como diretora de escola, porém continua a trabalhar, como produtora e redatora de programas culturais, na Rádio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro (RJ).

Em 1952, torna-se Oficial da Ordem de Mérito do Chile, honraria concedida pelo país vizinho.

Realiza numerosas viagens aos Estados Unidos, à Europa, à Ásia e à África, fazendo conferências, em diferentes países, sobre Literatura, Educação e Folclore, em cujos estudos se especializou.

Torna-se sócia honorária do Instituto Vasco da Gama, em Goa, Índia, em 1953.

Em Délhi, Índia, no ano de 1953, é agraciada com o título de Doutora Honoris Causa da Universidade de Délhi.

Recebe o Prêmio de Tradução/Teatro, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1962.

No ano seguinte, ganha o Prêmio Jabuti de Tradução de Obra Literária, pelo livro "Poemas de Israel", concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

Seu nome é dado à Escola Municipal de Primeiro Grau, no bairro de Cangaíba, São Paulo (SP), em 1963.

Falece no Rio de Janeiro a 9 de novembro de 1964, sendo-lhe prestadas grandes homenagens públicas. Seu corpo é velado no Ministério da Educação e Cultura. Recebe, ainda em 1964, o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro "Solombra", concedido pela Câmara Brasileira do Livro.

Ainda em 1964, é inaugurada a Biblioteca Cecília Meireles em Valparaiso, Chile.

Em 1965, é agraciada com o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras. O Governo do então Estado da Guanabara denomina Sala Cecília Meireles o grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro. Em São Paulo (SP), torna-se nome de rua no Jardim Japão.

Em 1974, seu nome é dado a uma Escola Municipal de Educação Infantil, no Jardim Nove de Julho, bairro de São Mateus, em São Paulo (SP).

Uma cédula de cem cruzados novos, com a efígie de Cecília Meireles, é lançada pelo Banco Central do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ), em 1989.

Em 1991, o nome da escritora é dado à Biblioteca Infanto-Juvenil no bairro Alto da Lapa, em São Paulo (SP).

O governo federal, por decreto, instituiu o ano de 2001 como "O Ano da Literatura Brasileira", em comemoração ao sesquicentenário de nascimento do escritor Silvio Romero e ao centenário de nascimento de Cecília Meireles, Murilo Mendes e José Lins do Rego.

Há uma rua com o seu nome em São Domingos de Benfica, uma freguesia da cidade de Lisboa. Na cidade de Ponta Delgada, capital do arquipélago dos Açores, há uma avenida com o nome da escritora, que era neta de açorianos.

Traduziu peças teatrais de Federico Garcia Lorca, Rabindranath Tagore, Rainer Rilke e Virginia Wolf.

Sua poesia, traduzida para o espanhol, francês, italiano, inglês, alemão, húngaro, hindu e urdu, e musicada por Alceu Bocchino, Luis Cosme, Letícia Figueiredo, Ênio Freitas, Camargo Guarnieri, Francisco Mingnone, Lamartine Babo, Bacharat, Norman Frazer, Ernest Widma e Fagner, foi assim julgada pelo crítico Paulo Rónai:

"Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo...A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.


Bibliografia:

Tendo feito aos 9 anos sua primeira poesia, estreou em 1919 com o livro de poemas Espectros, escrito aos 16 e recebido com louvor por João Ribeiro.

Dados obtidos em livros da autora e sobre ela, e no site do Itaú Cultural.
http://www.releituras.com/cmeireles_bio.asp

Cecilia Meireles - Elegia a pequena borboleta

Na voz da própria poetisa Cecilia Meireles: Elegia a pequena borboleta

Carlos Drummond de Andrade - Voz e imagem

Especial sobre a vida e obra de Carlos Drummond de Andrade exibido no canal Globo News, programa Arquivo N, em 08/2007, parte 3 de 3 parte 1


http://www.youtube.com/watch?v=g4Zgl_Npk_4&feature=related




http://www.youtube.com/watch?v=l7QbHvrDXeo&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=rd1_dLXT1jo&feature=related




http://www.youtube.com/watch?v=NhFbBFZ8_hE&feature=related




Carlos Drummond de Andrade em documentário de Fernando Sabino e David Neves. 1972. (no DVD Encontro Marcado Todos os direitos reservados)

http://www.youtube.com/watch?v=UP66vBqmiNE&feature=related




Drummond...saudade do poeta. Saudade da poesia apaixonada, ousada ... forte.



Leitura do poema Amor pois que é palavra essencial, pelo ator Sérgio Mamberti, para o filme O amor natural


Mundo grande de Carlos Drummond de Andrade na voz do poeta




Mundo grande
(Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade

Nao, meu coração não é maior que o mundo.
Ê muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme.
Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens.
as diferentes dores dos homens.
sabes como é difícil sofrer tudo isso,
amontoar tudo isso num só peito de homem...
sem que elo estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai’ inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos —— voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubrocomo é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de invidíduo
desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar.
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram
e trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

NUM VERÃO QUALQUER - AMM




Foi num desses verões escaldantes que na praia de São Vicente meus pés queimavam na areia branca. O guarda-sol amigo estreito e bom protetor não foi suficiente para dar sombra necessária.



Muitas pessoas iam e vinham de copos nas mãos algumas já bêbadas, chapéus na cabeça, jogando areia em corpos besuntados que douravam deitados. Era Janeiro e as férias urgiam em São paulo. Crianças perdidas e mães aflitas. E meus olhos que tudo seguiam.



Em poucos dias já sentia-me uma detetive em busca de crianças desaparecidas, de velhinhos que se perdiam ao ir molhar os pés na água do mar e não sabiam voltar ao seu grupo.



Essa temporada era para ser boa, então quanto retornava da praia parava diante do espelho à entrada de casa e sorria para mim pensando "o dia está lindo, o mar está calmo, e eu estou de férias!"...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Retrato Oval - EDGAR ALLAN POE



O RETRATO OVAL

Publicado na Folha da Manhã, domingo, 14 de fevereiro de 1937.
Neste texto foi mantida a grafia original




EDGAR ALLAN POE


Especial para a "Folha da Manhã"


O castello cuja porta de entrada meu creado ousára forçar, para que eu não passasse a noite ao relento, no estado lastimavel em que me encontrava, ferido, era um desses edificios de uma imponencia cheia de tristeza, que durante longos seculos se erigiram entre os montes Appeninos, tanto na realidade quanto na fantasia de "mistress" Radcliffe.



Segundo toda a apparencia, elle fôra abandonado por seus habitantes, não havia muito tempo.



Installamo-nos em uma sala pequena e das menos sumptuosamente guarnecidas. Ficava em uma torre bastante afastada do centro do edificio e mesmo assim mau grado seu estado de abandono e aspecto vetusto, sua decoração era rica. As paredes estavam cobertas com tapeçarias e panoplias varias, além de extraordinario numero de quadros modernos, na verdade, cheios de vida, em molduras luxuosas com arabescos dourados. Esses quadros —suspensos não somente nos pontos das paredes mais espaçosos e mais cheios de luz, mas tambem nos numerosos recantos formados pela singular architectura do castello —esses quadros— repito, por effeito, sem duvida, do estado de semi-delirio em que eu me encontrava, excitaram em mim uma especie de fascinação. Como já fosse noite, dei ordem a Pedro para fechar as pesadas janellas do quarto, accender todos os braços de um enorme candelabro, collocado junto de minha cabeceira e afastar largamente as cortinas de velludo negro com franjas, que envolviam o leito. Essas disposições tinham por fim permittir-me, caso não conseguisse dormir, ao menos examinar os quadros detalhadamente, com o auxilio de um opusculo, encontrado sobre o travesseiro e cujo assumpto era a critica e explicação desses quadros.



Fiquei, por algum tempo lendo, alheio a tudo o mais. Piedosamente erguia os olhos do livro e contemplava o quadro, cuja explicação já lêra.



As horas passaram rapidas e, finalmente, a meia noite bateu.



Como o candelabro não estivesse collocado a meu gosto, estendi a mão com cuidado para não perturbar o somno de meu creado e colloqueio-o de forma tal que elle lançava a luz mais directamente sobre o livro.



Porém esse meu gesto teve um effeito, que eu estava longe de prever. A luz das velas —pois eram muitas— cahia, agora, sobre um angulo do quadro até então mergulhado em espessas trevas, devido à cabeceira do leito, que era muito alta.



Um quadro, que eu ainda não vira, appareceu-me então inteiramente.



Era o retrato de um adolescente, quasi uma mulher. Envolvi todo quadro em um rapido olhar e, quasi em seguida, fechei os olhos.



Por que motivo? Não o compreendi immediatamente. Continuando com as palpebras cerradas, perguntava a mim mesmo por que as fechára. Fôra um movimento impulsivo, afim de ter tempo para reflectir, assegurar-me de que era victima de uma illusão visual... E tambem para acalmar minha imaginação e preparal-a para um exame mais detalhado e efficaz.



Ao fim de poucos instantes, fitei novamente o retrato.



Não podia mais duvidar do testemunho de meus olhos, porque o primeiro lampejo das velas sobre essa tela tivéra por effeito dissipar a estupefacção sonhadora em que meus sentidos estavam mergulhados e, de um só golpe, chamaram-me à vida normal.



O retrato, como já disse, era o de uma adolescente. Viam-se, apenas, a cabeça e os hombros, no estylo de Sully. Os braços e os seios e, mesmo, um pouco da luminosa cabelleira desappareciam insensivelmente na sombra vaga e tambem profunda, que constituia o fundo de téla. A moldura era oval, sumptuosamente dourada e filigranada, à maneira mourisca. Como obra de arte, não se podia sonhar coisa mais admirável. Mas não eram talvez, nem suas qualidades de execução nem a immortal belleza da retratada, que haviam determinado em mim uma emoção tão forte e repentina.



Podia, menos ainda, suppor que minha imaginação, sobresaltada em minha semi-somnolencia, tomára aquella physionomia pela de uma creatura viva. Notei logo que as particularidades do desenho, o aspecto do quadro, não deixariam de me afastar immediatamente de semelhante idéa, seriam mesmo sufficientes para me impedir admitttil-a, mesmo momentanea.



Reflectindo intensamente sobre esses diversos pontos, fiquei talvez uma hora, sentado no leito, com o olhar preso a esse retrato. Acabei de penetrar o verdadeiro segredo do effeito, que elle produzira sobre mim e deixei-me cahir, lentamente, sobre o travesseiro. Descobrira que a magia desse quadro consistia na expressão da vida absolutamente identica à propria vida.



Primeiramente eu estremecera e, depois, ficára confuso, dominado, petrificado. Presa de angustia profunda e respeitosa, voltei a collocar o candelabro em seu lugar primitivo. Tendo, assim, dissimulado a meus olhos o objecto de minha viva agitação, apanhei febrilmente o livro onde se falava nesse quadro e seu historico. Folheei-o até o numero, que correspondia ao retrato oval e li esse estranho e mysterioso comentario.



"- Era uma moça de rara belleza e caracter tão amavel, quão apurado. Sua "má hora" foi aquella em que conheceu, amou e desposou o pintor; elle, rude e apaixonado, trabalhador e já possuindo uma esposa: sua Arte. Ella, de rara belleza e um caracter tão amavel quão esmerado, toda luz e sorriso, alegre como um passaro. Para tudo tinha thesouros de amor, detestando apenas a arte, sua rival. Só temia as palhetas e os pinceis, todos esses instrumentos importunos, que afastaram della o pensamento do amado.



Assim, foi uma terrivel coisa para ella, quando o pintor lhe exprimiu o desejo de fazer seu retrato. Porém era humilde, submissa e durante varias semanas manteve-se sentada, muito quieta, na sombria e alta sala da torre, onde a luz só filtrava do alto, sobre a pallida tela. Porém elle, pintor acima de tudo, punha toda sua gloria em seu trabalho, que proseguia de hora em hora, de dia em dia. E era um homem apaixonado, genioso, taciturno e que se perdia, muitas vezes, em seus sonhos.



De tal forma que não notou, ou não quiz notar a acção malefica da luz, que cahia do alto, arruinando a saude e o espirito de sua esposa; todos a viam definhar, todos, menos elle.



No entanto, ella sorria sempre e sempre, sem o menor queixume, porque via o pintor cujo renome era grande, alegre e orgulhoso, trabalhar dia e noite com paixão febril no retrato daquela, que tanto amava.



Ai, d'ella! Cada dia mais sem forças, mais sem côr... Na verdade, os que vinham vêr o retrato confessavam em voz baixa que a semelhança era um milagre - provando não só o talento do pintor como seu grande amor por aquella, que pintava de modo tão maravilhoso...



Mas com o tempo, quando já a obra tocava a seu fim, ninguem mais foi admittido na torre; o pintor, no ardor incrivel de seu trabalho, não destacava mais do que raramente os olhos de sua tela, mesmo, afim de olhar para sua joven e linda esposa.



E não "queria" notar que as côres, que applicava sobre a tela, era como se as tirasse das faces da doce creatura, que se mantinha immovel, diante delle. E quando muitas semanas foram passadas e restava pouca coisa a fazer —um golpe leve do pincel sobre a bocca, um retoque nos olhos— a alma do modelo vacillou como a chamma de uma vela, que se extingue.



O golpe de pincel final foi dado e o pintor maravilhoso ficou, por alguns instantes, em extase, diante da obra admiravelmente perfeita; mas quando assim a contemplava, eis que um arrepio percorreu todo seu corpo e, muito pallido, elle exclamou:



"— Mas é a propria Vida!..."



Voltou-se rapidamente para a Amada.



"Ella estava morta..."
.

Da série Símbolos da História - Deu na Folha em 1932



SANTOS DUMONT FALLECEU HONTEM NO GUARUJA'O GRANDE INVENTOR-AERONAUTA BRASILEIRO DESAPPARECE NUMA HORA DELICADA DA VIDA NACIONAL - O CORPO TRANSPORTADO PARA S. PAULO - TRAÇOS BIOGRAPHICOS DO EXTINCTO

Publicado na Folha da Manhã, 24 de julho de 1932

Neste texto foi mantida a grafia original

Um laconico telegramma de Santos, annunciou hontem, à tarde, o fallecimento, no Guarujá, do grande inventor brasileiro Santos Dumont. A noticia correu célere por toda a cidade, causando profundo pezar. Alberto Santos Dumont desapparece numa hora delicada da vida nacional, isto é, quando a campanha constitucionalista empolga a população, de norte a sul do paiz. Assim, pois, as homenagens posthumas, a que merecidademente fazia juz o grande inventor, serão grandemente prejudicadas. Mas o pezar de todo o Brasil, qualquer que sejam as manifestações exteriores que se seguirão, não deixará de ser uma eloquente demonstração de reconhecimento pelo quanto Santos Dumont elevou o nome de sua Pátria, dentro e fóra de suas fronteiras.

Expressão maxima do genio inventivo de nossa gente, o "Pae da aviação" bem merecia melhor sorte para a sua gloriosa velhice. Mas a hora agitada que S. Paulo vive presentemente nos impede do tratar mais pormenorizadamento da personalidade do illustre extincto. A historia dirá melhor e mais amplamente desse nosso glorioso patricio.

DADOS BIOGRAPHICOS

Alberto dos Santos Dumont nasceu no municipio de João Gomes, hoje Palmyra, no Estado de Minas, a 20 de julho de 1873. Era filho de Henrique Dumont e de d. Francisca dos Santos Dumont, já fallecidos. Era irmão do dr. Henrique S. Dumont, fallecido, casado com d. Maria Amelia Ferreira Dumont; de d. Maria Rosalina Dumont Villares, casada com o dr. Eduardo de Andrade Villares, fallecida; de d. Sophia dos Santos Dumont, fallecida; de d. Francisca Dumont, fallecida; casada com o dr. Ricardo Severo; de d. Virginia Dumont Villares, casada com o sr. Guilherme de Andrade Villares, fallecido, de dr. Luiz dos Santos Dumont, fallecido, casado com d. Adalgisa Uchôa Dumont; de d. Gabriela Dumont Villares, casada com o dr. Carlos de Andrade Dumont Villares. Deixa trinta e dois sobrinhos, entre os quaes individualidades de relevo no nosso meio social.

A ACTIVIDADE DE SANTOS DUMONT

Tendo feito estudos especiaes nas escolas de São Paulo, partiu para Paris afim de construir um aerostato munido de um motor e de um propulsor.

A aviação nesse dominio contava apenas com as experiencias de Giffard e dos capitães Krelles e Renard. Devem-se a Santos Dumont as provas mais arrojadas nesse terreno.

Installado na capital da França, Santos Dumont mandou construir o primeiro aerotasto ao qual deu o nome de "Brasil".

A primeira experiencia com o "Brasil" effectuou-se a 4 de julho 1898, com pleno exito.

O segundo aerostato denominado "A Musica" venceu no concurso aberto pelo Aero Clube da França para a escolha dos apparelhos que servissem para o estudo das correntes atmosphericas.
O illustre aeronauta brasileiro concorreu ao premio sem competidores. A experiencia realizou-se em 11 de julho de 1901, gastando o aparelho, no percurso prescripto, 35 minutos.

Não satisfeito com esse resultado, mandou construir o "Santos Dumont n. 5" com o qual tentou ganhar novamente o premio Deutsch.

Essa prova quase custou a vida ao arrojado aeronauta patricio.

Com o "Santos Dumont n. 6" tentou novamente vencer aquelle recorde.

A experiencia foi assistida por milhares de pessoas.

O jury do concurso não lhe quis ainda conferir o premio Deutsch. O proprio Deutsch, consultado a respeito, opinou pela concessão do premio a Santos Dumont. O "az" patricio, ao receber os 100 mil francos, distribuiu-os pelos pobres de Paris.

Reconhecendo inadaptavel a forma espherica dos balões, Santos Dumont imaginou e construiu um outro apparelho de forma cylindrica com as extremidades conicas. Esse foi o "Santos Dumont n. 1" que subiu a 18 de setembro de 1898, sofrendo um accidente em virtude de uma falsa manobra dos que sustentavam as cordas.

A machina foi reparada e executou um segundo vôo com pleno successo.

Em 1899 appareceu o "Santos Dumont n. 2" mais resistente que os anteriores.

Diversas experiencias realizadas em Nice deram resultados estupendos. Na ultima dessas provas o apparelho soffreu um sério accidente. O illustre inventor construiu então o "Santos Dumont n. 3", realizando-se a primeira experiencia em Paris, em 13 de novembro de 1899.

Introduzindo novos melhoramentos, o scientista patricio construiu ainda o "Santos Dumont n. 4".
Nessa época (em 1900) H. Deutsch estabeleceu um premio de 100 mil francos para o aerostato que fizesse a volta completa em torno á torre de Eiffel, no prazo máximo de 30 minutos.

Foi finalmente construido ainda o "Santos Dumont n. 7" que realizou varias experiencias em Monte Carlo.

Todas essas pesquizas scientificas foram realizadas no dominio da aviação do mais leve que o ar.
Santos Dumont, abandonando esse systema de aviação, passou ao dominio do mais pesado que o ar, tendo construido diversos aeroplanos. As experiencias com um delles, realizadas em 23 de outubro de 1906, conduziram-n´o á conquista da taça Archdeacon (premio 3.000 francos).

Em 12 de novembro do mesmo ano, Santos Dumont effectuou um vôo de 220 metros a 8 metros do sólo.

CHEGADA DO CORPO A S. PAULO

O corpo, embalsamado, do grande aeronauta foi hontem mesmo transportado a esta capital e exposto, em camara ardente, armada em casa de parentes do illustre extincto, á avenida Paulista 105. Ainda não estão marcados o dia e a hora dos funeraes que provavelmente dar-se-ão amanhã.

O PATRIOTISMO DE SANTOS DUMONT

E´ certo que o glorioso Pae da Aviação desde muito se achava doente. Mas o seu estado de saude se agravou diante das ultimas calamidades.
As ultimas palavras que nos dirigiu foram de intensa vibração civica. Tinham a data de 14 do corrente. Vamos recorda-las:

"S. Paulo, 14 de julho de 1932. - Meus patricios:

Solicitado pelos meus conterraneos moradores neste Estado para subscrever uma mensagem que reivindica a ordem constitucional do paiz, não me é dado, por molestia sahir do refugio a que forçadamente me acolhi, mas posso ainda por estas palavras escriptas, affirmar-lhes, não só o meu inteiro applauso, como também o apello de quem, tendo sempre visado a gloria da sua patria dentro do progresso harmonico da humanidade, julga poder dirigi-se em geral a todos os seus patricios, como um crente sincero em que os problemas da ordem politica e economica que ora se debatem sómente dentro da lei magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa patria á superior finalidade dos seus altos destinos.
Viva o Brasil Unido! - Santos Dumont."

SERÃO CONCEDIDAS A SANTOS DUMONT HONRAS DE CHEFE DE ESTADO

Communicam-nos dos Campos Elyseos que o governo do Estado resolveu homenagear condignamente o grande inventor brasileiro Alberto dos Santos Dumont, hontem fallecido na vizinha cidade de Santos, deliberando prestar honras de chefe do Estado ao illustre extincto.
Assim que teve noticia da morte do glorioso pioneiro da aviação, o governo do Estado procurou obter de sua familia consentimento para realizar os seus funeraes, sendo attendido.
O corpo de Santos Dumont será transportado para esta capital, sendo immediatamente depositado na crypta da Cathedral, onde aguardará o momento em que possa ser transladado para o Rio de Janeiro, afim de ser inhumado no jazigo perpetuo.

Vidas Secas - GRACILIANO RAMOS - RESUMO




Vidas Secas

Graciliano Ramos

Do Etapa Vestibular




Vidas Secas é o último romance de Graciliano Ramos e a única experiência do autor com foco narrativo na terceira pessoa. A obra é constituída em forma de espiral, cujo início fechado ("Mudança", cap 1) abre-se no final, com o último capítulo ("Fuga") conduzindo os personagens para um destino inusitado, mas que mantém o elo da desdita, da miséria, da fome e da pobreza.


Entre os dois capítulos-limites são constituídos 11 quadros que, aparentemente, nada têm em comum a não ser os personagens e a paisagem.


Um tênue fio narrativo faz o leitor conhecer a história de uma família de retirantes nordestinos que foge da seca, encontra período de passageira estabilidade e parte novamente em retirada quando as chuvas deixam de cair, prenunciando um novo período de seca. A economia (de estilo, de linguagem, de vida e de cenário) pode ser destacada como a característica básica do volume.


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4d/Casal_de_retirantes.jpg

Palavras do Doutor: Investimento mal direcionado


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

TROPA DO JECA - conto caipira - AMM








Tropa de Jeca



Na cangalha trapos.


A estrada seca era estreita para a família de Jeca.


Na carroça Doralice com a de colo, a de dois, o de quatro e o de cinco.


De parelha iam à pé o Jeca, a de sete, o de nove e Josué que tem nome certo porque aquela doença ruim quase matou o moleque.


O de nove tossia cheio, e a de sete mancava com os pés apertados nos tênis do de cinco que não precisava calçar nada naquele momento.


Doralice chacoalhava a de colo que chorava por causa do desconforto da viagem no calor.


Jica a cabrita da família, trotava amarrada ao lado da tropa. Era ela que dava leite para os pequenos. Doralice secou depois do susto com a revoada de saci no terreiro.


O pai apressou-se e Josué tomou a dianteira da tropa.



A de colo chorava forte. Josué redeou Jica junto da carroça e com uma caneca embaixo da teta, ordenhou a cabrita ali mesmo. A de colo bebeu tudo bem ligeiro e amainou. Ainda teve que encher a caneca mais vêzes para os pequenos. Até Doralice bebeu leite da Jica.



E a tropa seguiu calada de olhar perdido na poeirinha que subia devagar.






Puisia Matuta - Briguemu



PUISIA MATUTA

(Autor desconhecido)




Ah!... dispois de tântu amô,

di tântu bêju gostôsu,

di tântu chêru cherôsu,

nóis briguemu...


Foi uma briga fatár

Ela disse: - Acabô

Eu disse: - Isso mermo.

acabô-si tudu!

I nóis fiquêmo mudo,

sem vontádi di falá,

i, na hora da partida,

nem siqué si oiêmo,

i nus xinguêmo,

cumu si podi xingá:

Aba de caruru!!!

Mandinga de sapo seco!!!

Eu dissi:- Ôcê vai pru Nortii eu pru Sur.


Nunca mais queru ti vê,

nem notíça queru tê,i

eu juro pur Deus,

nunca mais queru ti vê,

nem pintada di carvão,

du fundu du quintar...


Onti nóis si incontrêmo,

ninguém tentô disfarçá...

Parti pra riba dela,

Chêiu di fogo nu oiá,

i ela mim deu um arrochoqui,

si ieu fosse um cabra froxo,

tava aqui em dois pedaçu...


I aí, foi tantu bêju gostôsu,

qui nóis alembrêmo...

Cumu u Brasir é piquênu

num dá pra nus separá!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

DADOS INTERESSANTES DESTA CIDADE QUE NÃO DORME NUNCA!




SÃO PAULO - A CIDADE ONDE OS NEGÓCIOS ACONTECEM!


SÃO PAULO - A CIDADE ONDE O TURISMO E O LAZER NÃO DORMEM!



Turismo


» A cidade recebe anualmente 10 milhões de visitantes, entre os que vêm a negócios e/ou lazer que se hospedam na rede hoteleira de São Paulo. Destes, 27% são estrangeiros e 73% são brasileiros.


» Dos turistas internacionais que visitam São Paulo, 38% são da Europa, 30% dos EUA e Canadá, 21% do Mercosul, 7% da América Latina e 4% são da Ásia.


» Do total de turistas brasileiros e estrangeiros que a cidade recebe, 50% vêm a negócios, 35% a lazer e 15% por outros motivos.


» No Brasil os números são respectivamente 27,9% a negócios, 57% a lazer e 15,1% por outros motivos.


» Turistas de Negócios: (permanência média de 3 dias na cidade) - Gasto médio: R$ 600/dia.


» Turistas de Lazer: (permanência média de 7 dias na cidade) - Gasto médio: R$ 180/dia.


Eventos


A capital sul-americana de feiras de negócios realiza 90 mil eventos por ano, que geram:


» Um evento a cada 6 minutos.


» Cerca de 500 mil empregos diretos e indiretos.» 120 das 160 grandes feiras do Brasil.


» Uma feira de negócios a cada três dias.


» 75% do mercado brasileiro de feiras de negócios.


» R$ 2,4 bilhões de receita ao ano.


» R$ 700 milhões em locação de área para exposição.


» R$ 700 milhões em serviços.


» Cerca de 600 mil m² para realização de eventos.


» Só o Anhembi tem em torno de 360 mil m².


» R$ 8 bilhões em viagens, hospedagem e transporte terrestre e aéreo.


» Movimenta 29 mil empresas expositoras.


» Circulam pelos eventos 4,3 milhões de pessoas, entre profissionais e compradores, sendo 45 mil compradores estrangeiros.


» Os setores que mais realizam feiras, reuniões e eventos na cidade são, pela ordem, médico, científico, tecnológico, industrial e educacional.


Hotelaria


» As principais redes hoteleiras nacionais e internacionais estão aqui.


» São Paulo tem 410 hotéis e 42 mil apartamentos disponíveis.


» A taxa de ocupação média dos hotéis e flats de São Paulo em 2007 foi de 67%.


»A diária média no primeiro semestre do mesmo ano foi de R$ 155,00.


» 350 motéis.


» Os períodos de maior ocupação hoteleira são, respectivamente: Outubro 57,36%, Junho 56,51%, Agosto 56,27%, Novembro 56,23%, Julho 54,61%, Março 54,20%, Maio 53,39%, Setembro 52,14%, Abril 47,93%, Dezembro 47,44%, Janeiro 40,42% e Fevereiro 38,21%.


Cultura e lazer


» A oferta turística da cidade totaliza 410 hotéis, 280 salas de cinema, 88 museus, 120 teatros, 27 eventos culturais, 184 casas noturnas, 75 bibliotecas, 41 áreas de patrimônio, 41 festas populares, 72 shopping centers, 53 parques e áreas verdes, 10 centrais de atendimento ao turista, 39 centros culturais, 9 cineclubes e salas especiais de cinema, 7 casas de espetáculos, 7 estádios de futebol, 69 clubes desportivos, 10 ciclovias, 2 iate clubes, 12 clubes de golfe, 1.000 academias de ginástica e 5 parques temáticos.


» Um autódromo: É aqui que se realiza o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1.


» Com mais de 600 peças realizadas por ano, São Paulo é o maior pólo cultural do país (SPCVB 2005).


Gastronomia


» 12,5 mil restaurantes, 52 tipos de cozinhas, 500 churrascarias, 250 restaurantes japoneses, 15 mil bares, 3.200 padarias, 10,4 milhões de pãezinhos por dia e 7.200 por minuto, 1.500 pizzarias, 1 milhão de pizzas por dia, 720 por minuto, 2.000 deliveries.


» São Paulo é a segunda maior cidade em números de restaurantes.*Fontes: Editora Abril, Guia de Restaurantes Japoneses - Editora JBC e Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi)


Consumo e Finanças


» 240 mil lojas


» 4 mil farmácias» 5 mil pet shops


» 72 shopping centers, que recebem 30 milhões de visitantes por mês e contam com 7 mil lojas de vários segmentos


» 900 feiras livres semanais


» 864 mil transações de cartão de crédito por dia


» 1.931 agências bancárias


» 59 ruas especializadas em mais de 51 segmentos


» 34 mil indústrias


» O Produto Interno Bruto (PIB) da cidade é R$ 144 bilhões, ou seja, 15% do PIB nacional (SMF/2005).


» Os nove recursos mais importantes na capital são áreas comerciais, gastronomia, Sala São Paulo, eventos culturais, Mercado Municipal, Anhembi - Centro de Convenções, MASP, Parque do Ibirapuera e vida noturna. O aproveitamento desses recursos é de 56%. (Plano de Marketing do Turismo da Cidade de São Paulo - SPCVB).


Transportes


» 5,2 milhões de carros


» 32 mil táxis


» 21 empresas de rádio táxis


» 10 mil ônibus urbanos


» 990 linhas de ônibus


» 19 terminais de ônibus


» 04 linhas de metrô


» 57,6 quilômetros de linhas de metrô


» 54 estações de metrô


» 513 milhões de passageiros transportados por ano


» 270 quilômetros de linhas de trem


» 91 mil ruas e avenidas


» 5.500 semáforos


» 1.800 postos de gasolina


» 349 mil placas de trânsito


» 500 helicópteros * segunda maior frota do mundo;


» 39 Companhias aéreas


» 04 aeroportos na Grande São Paulo (1 em Campinas e 1 em Guarulhos)


Localidades operadas:


» 25 países e 75 cidades nacionais e internacionais


» 500 vôos diários de Cumbica


» 33 mil passageiros por dia


São Paulo é sede:


» 38% das 100 maiores empresas privadas de capital nacional


» 63% dos grupos internacionais instalados no Brasil » 17 dos 20 maiores bancos


» 8 das 10 maiores corretoras de valores


» 31 das 50 maiores seguradoras


» Aproximadamente 100 das 200 empresas de tecnologias


» BOVESPA – a maior bolsa de valores da América do Sul


» Bolsa de Mercadoria e Futuros - BM&F, a sexta maior do mundo em volume de negócios


» Hospital das Clínicas, o maior e mais renomado complexo hospitalar da América Latina


» O maior shopping center da América Latina – o Centro Comercial Aricanduva, com 500 lojas


» Das 58 editoras filiadas à Associação Nacional de Editores de Revistas, 43 são paulistanas


» Dos 7 portais de Internet mais conhecidos, 6 estão baseados em São Paulo


» 1.769 estabelecimentos de saúde, 40 hospitais públicos, 61 hospitais particulares, 24.957 leitos hospitalares, 99 bases móveis da Polícia Militar, 93 distritos policiais, 04 postos do Poupatempo, 146 faculdades, 26 universidades


» 22 Centros de Educação Tecnológicas


» 10 CITs - Centrais de Informações Turísticas


» A maior Parada do Orgulho GLBT do mundo, que atraiu em 2006 cerca de 2 milhões de pessoas


» A Corrida de São Silvestre, que atrai em média 15 mil corredores de todo o mundo de cerca de 20 países


Dados Gerais


» Fundação da cidade de São Paulo: 25 de Janeiro de 1554


» Localização: Região Sudeste do Brasil


» Distância da Costa: Costa dos Alcatrazes (186 km), Guarujá (93 km), Ilhabela (204 km), Santos (72 km)


» População metropolitana: 18 milhões de habitantes


» População municipal: 10,2 milhões de habitantes


» Área: 1.530 km²


» Idioma: Português


» Telefone: Brasil: 55 / São Paulo: 11


» Altitude: 750 metros do nível do mar


» Umidade Relativa do Ar: 78% (média anual)


» Clima: Tropical Temperado - ( 22ºC a 27ºC no Verão e 15ºC a 21ºC no Inverno)


» Religião Predominante: Católica


» Moeda: Real (R$)


» Fuso Horário: GMT 3 horas



* * Fontes: Editora Abril, PMSP, São Paulo Turismo, Ubrafe, Governo do Estado de São Paulo, Infraero, Fohb, São Paulo Convention & Visitors Bureau, Revista Latin Trade, IBGE, MEC, Sebrae, Guia de Restaurantes Japoneses - Editora JBC, Site Guia de Motéis, Banco Central do Brasil, ADETAXI, Metrô, Assoc. Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi) e SPTrans.


Japão - Veja as maiores curiosidades sobre essa potência


JAPÃO

Um exemplo de organização


No Japão, o número de acidentes de trânsito cresceu de 526.000 em 1983 para 803.000 em 1998. No mesmo período, o número de mortes se manteve estável. Nesses quinze anos, a quantidade de casamentos também permaneceu a mesma, em torno de 780.000 uniões por ano. Os dois dados fazem parte de um dos sites mais completos sobre o Japão, a segunda maior economia do mundo. Em http://www.jinjapan.org/ encontram-se essas estatísticas e outras informações interessantes para quem pretende conhecer um pouco mais da cultura local. Há desde a divisão geográfica do país até uma página especial para crianças. A altura do Monte Fuji também está entre os dados disponíveis. São 3.776 metros.

A FANTÁSTICA FÁBULA DESENCANTADA (sátira) - AMM






A fantástica fábula desencantada



Era uma vez dois irmãos Jacob e Wilhelm que viviam na Alemanha nos anos de 1730. Interessados por escrever contos de fadas, contos de encantamento e contos maravilhosos criaram mulheres encantadas perseguidas por madrastas malévolas com irmãs adotivas mimadas e incapazes. Em outro momento concebiam lindas princesas que de tão boas beijavam feras que se transformavam em lindos príncipes. Terminaram quase todas as fábulas com personagens viviam felizes para sempre. Até que um dia...Surgiu a tal Chapeuzinho Vermelho. Personagem que não se encaixava em nenhuma história. Moça ou menina ninguém sabe ao certo. Nem tampouco se sabia da existência de mãe ou pai dessa personagem, será que era órfã a pobrezinha? Nesse conto não havia nenhuma fada e nem havia nenhuma bruxa. Para falar a verdade nem ao menos se conhece seus verdadeiros autores, mas torcemos para que sejam os Irmãos Grimm.


Bem... Imagina-se que alguém nessa história deveria conhecer as tendências da moda e aproveitou-se para lançar o capote vermelho com capuz que veio fazer estrondoso sucesso no mundo da moda até os dias de hoje com algumas variantes na cor. Uns autores de causos e lendas penderam também para a predominância da cor e criaram um moleque negrinho brincalhão que usava capuz vermelho. Mas esse não era bom nem ruim, apenas arteiro.


Não percamos de vista nossa personagem, essa pobre moça sem nome que não era princesa, nem bela, nem nada, apenas nos consta que era boazinha e usava um capuz vermelho. Enfim uma personagem inútil, e o que escrever sobre ela? Teriam que criar alguém que tivesse ativa participação na história já que esta personagem ficava apenas indo e vindo da casa da vovó. Nem essa vovó da moça (única parente que se conhece mesmo após intensa investigação) fazia algo consistente na fábula, passava ela todo o tempo na cama, puro ócio.


Os fofoqueiros de plantão diziam que na verdade essa avó era para ter sido uma vedete do teatro de revista carioca que não conseguiu nenhum papel importante nas badaladas noites do Rio de Janeiro e estava à beira da aposentadoria pelo INSS, mas como haveria um enorme desencontro de tempo na história, botaram-na na cama.


Outros diziam que se sabia de fonte não fidedigna que a vó da moça era proprietária de uma elegante mansão na floresta, premio do jogo do bicho eles afirmavam, onde há tempos recebia garotos de programa na calada da noite e depois da orgia nadavam pelados no lago existente atrás da casa. E para impedir a neta xereta de chegar lá de sopetão e pega-la em plena orgia, dizia então a vó para a pobre e idiota menina que a floresta era escura perigosa e cheia de feras.








Mas nada abalava o bondoso coração da Chapeuzinho Vermelho que imbuída de sua angelical índole atravessava a indolente floresta para levar doces do Amor aos Pedaços para a vovozinha, e fazia isso todos os dias. Meu Deus, essa mulher deveria estar gorda como um cachaço! Ou prestes a morrer com altas taxas de açúcar no sangue... (Soubemos que há tempos não recebe mais os garotinhos de programa, mas finge doença para receber os médicos do SUS os quais tenta cortejar com sua silhueta magrela que míngua sobre os sujos lençóis da MMartan que um vendedor ambulante fez chegar aos cafundós.)Mas cá entre nós, houve um tempo em que suspeitou-se de que a moça queria apenas herdar a casa da velhinha.


E se isso era de fato verdade, essa tal Chapeuzinho Vermelho era tão determinada nessa maldade que enfrentou inúmeras vezes os animais da floresta sem nunca faltar em única visita à casa da avó. Até que um dia deparou-se com um Lobo que os autores resolveram chamar de Lobo Mau e até hoje chamam-no Lobo Mau. Esse bicho seria o personagem de mais forte atuação no texto, mas o roteiro mudou num instante. Ele era muito feio, feio pra caramba, mas tinha uma linda voz quando urrava elegante para ela, tinha corpo esbelto e peludo, a boca carnuda que cantava e cantava, tinha os olhos flamejantes e as unhas de fazer inveja a qualquer mortal. A moça pensou: É hoje ou nunca mais. Se não me agarrar agora com esse coitado que pensa que é mau vou morrer solteirona ou comida por um bicho papão. Foi assim que saborearam os docinhos da cesta, falaram da droga da vida, e amanheceram juntos na moita. Passou a chamá-lo carinhosamente de Lobão e assim tornou-se conhecido.A moça que não era encantada e nem encantadora só podia mesmo apaixonar-se por um animal sem pedigree que não se torna príncipe hora nenhuma nem depois do beijo.E como era de se esperar, com personagens como esses, não dá para casá-los e dizer que vão viver felizes para sempre... Não é mesmo?


Talvez por essa história parecer sem pé nem cabeça, e não merecer nenhum crédito é que eles não assinaram o texto quando o escreveram. Eu também não assinaria.





sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dicionário caipira


A
acabrunhado: triste, envergonhado

acoitá: esconder, proteger

agorá: desejar mal, desejar que algo bom não ocorra

agrado: o mesmo que gorjeta, presente

ara: ...ora!...


arcado: curvado

amuado: triste

avuado: distraído

B
bacurim, bacuri: criança recém-nascida


balangá: balançar

barriga d'água: efeito colateral de esquistosomose
beiço: lábios

bestagem: bobagem

bigo: umbigo

birrento: que faz
birra; desaforado

boca-de-pito: gole de café frio
C
caboco: pessoa muito simples
cafundó: fim do mundo, lugar ermo

cambada: bando (de malfeitores)

cambito: perna fina

campiá: procurar
cacunda: costas
cósca (fazer cosquinha): cócegas


D

dá o pira: ir embora

dá trela: alimentar conversa fiada

dá um pito: dar uma bronca

dasveis: às vezes

de banda: de lado

de jeito e manêra: de modo algum

desgueio: atravessado

destá: deixe estar



E
Emborná: espécie de alforge dotado de alça que se leva no pescoço e/ou ombro

enfezado: nervoso

enrriba: em cima

escangaiado: destruído

estórva: atrapalha



F
fasto: ré, andar para trás

fiá: vender fiado

fincá: enfiar, cravar

fôrgo: fôlego

fuá: encrenca, escarcéu

fúça: cara, rosto



G
gaitada: risada estridente

ganhá os tufo: ganhar muito dinheiro

gastura: nervoso

gorá: agourar, também se diz dos ovos que não fertilizam

gróta: trecho de mata de difícil acesso entre dois ou mais morros

guspe: cuspe



H
home quá: deixa para lá

humirde: humilde



I
inté: até

intojado: enjoado; metido



J
jacá: balaio

janota: homem vestido com muito apuro
Jojoca: soluço



L
ladino: esperto

lavá a égua: se dar bem; ganhar bom dinheiro

loróta: conversa fiada


M
marrudo: mal-encarado

meia-pataca: insignificante

mió ou milhor: melhor

mistura: guarnicão do prato principal

módequê?: qual a razão?

munheca: pão duro; sovina

muntá: montar



N
Nhô: tratamento respeitoso= senhor

nódia: nódoa


O
ocê: você

orná: combinar



P
pageá: adular

panca: jeito pedante
panelada: cozido de frango

papudo: convencido; cheio de si; pessoa com bócio

pata-choca: mulher desmazelada

pé de boi: pessoa decidida, muito trabalhadoura

pelejá: lutar

picá a mula: ir embora; esporear a montaria para sair mais rápido

picuinha: intriga

pinchá fora: jogar fora

pinguço: bêbado
purgá: verter pus


Q
quá!: qual o quê!

quebra peito: cigarro de fumo ordinário ou muito forte

quebranto: feitiço que qualquer um passa a outrem, por invejar demais algo que o outro possui quentura: calor

questã: briga jurídica; pergunta

quiprocó: briga generalizada



R
rabêra: o mesmo que rabeira

rádia: emissora de rádio

réiva: raiva

relá: tocar (com as mãos ou outra parte do corpo)

relampo: relâmpago

rinchá: relinchar; rinchar



S
sororóca: mandinga para estourar pipóca; estertor de doente terminal

sortá os cachorro: xingar; reclamar aos gritos

suzim: sozinho




T
tá loco, sô: mesmo que "duvido de você"

tacá: jogar, atirar com a mão (pedra)

táio: talho; corte

tôco; pessoa muito rude; pedaço pequeno de um tronco de árvore

trelê: resmungo

trem: objetos em geral= louças, móveis, mals, etc.

trincá: rachar

tropicão: tropeço muito forte




U
unhero: unha inflamada



V
Vam'bora: vamos embora

vixe: valha-me Deus!; Virgem Maria!


X
xicra: xícara

xixilenta: fedida; mal cheirosa
xingo: ofensas

xôxa: sem graça

xurumela: história mal contada

Z
zambeta: que tem a perna torta

zarôio: caolho zóio: olho
Zoada: barulheira
zoêra: tontura

zorêia: orelha

zunhada: unhada, arranhar com as unhas



Pequeno Dicionário de Caipirês / Antonio Carlos Afonso dos Santos - São Paulo: Editora Nativa, 2001


TOINHO E BIGAIU - A doença do moleque - AMM





A doença do moleque


Toinho andava disgostoso por causa da doença do menino Zeca. Um calombo crescia no pescoço dele que não havia modo de brecar. A mulher dele, dona Bigaiu mulher simplória, mas determinada, cansou de ver a testa febril do moleque e resolveu ir até a casa da benzedêra Filó buscar ajuda.


Danou a correr pela trilha de terra que inté levantava poêra.Chegou esbaforida que só vendo!


Filó pegou uma benzeção no terreiro e voltou depressa com uns galhos de mato na mão, e juntas foram até a casa ver o menino doente.


Filó fez um chá com o mato que trouxe e disse que o menino estava com caxumba. Isso era certo! Toinho e Bigaiu se olharam e disseram: Ah, sei.


Filó recomendou que o garoto ficasse deitado para não complicar a doença. Disse e olhou para o casal. Tornou a explicar. É perigoso ele ficar correndo por aí, ele pode ficar rendido. E o casal se entreolhando com expressão de tudo entendido: É verdade, é verdade!


Filó percebeu que ainda faltava informação para o casal e disse: Seu Toinho, se o menino não guardá repouso a caxumba desce pro escroto e ele pode ficá istérico. É isso que dizem por aí.


Agora sim parecia que tudo tinha sido entendido. Se ainda faltasse alguma explicação, eles que fossem buscar com o doutor letrado, pois o repertório de Filó tinha se esgotado. Então voltou para casa.

domingo, 11 de janeiro de 2009

AVENTURA NO CINEMA - (da série infanto juvenil) - AMM





Aventura no cinema


Andei rápido pela sombra não queria chegar lá todo suado. Que primavera estranha, um calor danado! Olhei pro relógio tantas vezes que parecia que o tempo não passava. Não é bom chegar no cinema quando o filme já começou ir entrando pela escurão tropeçando nos degraus. E como encontrar a turma? No mínimo iam me zoar. Poxa, ainda tem a fila do ingresso caramba! Mas não estava muito grande e logo logo estava eu com ingresso da sala quatro na mão. Eu tava louco pra ver o filme do Pacino. Adoro ele! Às vezes não gosto quando ele faz papel de bandido. Pra mim ele devia ser sempre mocinho. Ebaaaaa. Corri pra entrada, mas não corri muito não queria chegar esbaforido. Mais esbaforido do que eu já tava. Olhei pro meu tênis novinho e fiquei super contente, agora sim eu fazia parte da turminha! Todos iam de tênis novo. Eu tive que quase implorar pra minha mãe comprar um. Ela fez chantagem disse que só compraria se eu desse banho na Teca. Tive que dar e foi super divertido. A Teca tem pêlo marrom e brilha quando tá limpo. Brincamos muito na água. Labrador é assim mesmo, adora brincar na água. O próximo banho eu quero dar de novo. Tadinha, ela vai pro petshop e aquele cara estúpido nem brinca com ela. Noooosa, quando abri a porta foi aquele breu. Entrei e parei, não via nada. Na telona estavam mostrando as saídas de emergências e aquelas coisas que eles mostram pro público. Aí eles pediram pra desligar os celulares. Putz, peguei o meu pra desligar e vi uma mensagem da turma. Eles tinham ido assistir outro filme de aventura na sala sete. Caramba! Tentei sair, mas o filme já ia começar e tive que sentar pra não atrapalhar os outros. Sentei em qualquer lugar e tentei me concentrar no filme, mas minha cabeça estava lá na sala sete. Que zoêra! Ai o Pacino apareceu com aquele jeitão de galã e eu comecei a me interessar pela história. A pessoa do meu lado não parava de comer pipoca, aqueles combão, sabe? Fazia crock crock quando mastigava e tinha o cheiro de manteiga. Olhei tantas vezes que ela teve que me oferecer e eu aceitei é claro. Foi aí que percebi que ela era linda! Não pensei mais na sala sete. Pensei um pouquinho e fiquei curioso, o que será que eles estavam pensando de mim? Tudo na quatro estava bom demais! De vez em quando nossas mãos se encontravam dentro do combo. Não prestei mais atenção no filme. Deixei meu ombro encostar no dela, e ela deixou o pé dela encostado no meu. Quando as luzes acenderam vi direitinho o rosto dela parecia uma bonequinha japonesa. O cabelo bem pretinho cortado que nem uma tigelinha. Limpei o sal que estava parado no canto da boca dela e ela fez “aahhh”. As mulheres são todas assim que nem anjinho?


Marcamos pro outro sábado A era do gelo. Não vou querer chegar atrasado nem um minuto.

LÁ VEM A COLHER ! - AMM


Lá vem a colher!

No prato os grãos de feijão estavam pretos de raiva. Nadavam em caldo grosso e isso não lhes agradava nadinha.

De repente uma mistura de farinha se embolou a eles deixando-os secos e presos entre si. Isso não lhes agradava nadinha.

E lá vinha uma colher de sopa. Imaginem uma colher de sopa!

E não adiantou nadinha que eles não gostassem da colher, pois foram engolidos rapidinho.

ABROLHOS - AMM




Do outro lado do balcão os olhos esbugalhados laçaram-se em minha direção. Bêbados mal conseguindo manterem-se fixos , engoliam-me.
Oscilavam em longas piscadelas daquelas que quase não voltam, mas iam se reabrindo lentamente.

Às vezes pareciam distantes, mas voltados para mim. Outras, mais intimidativos, me assediavam trôpegos.

Eram olhos de olhar evasivo, perdidos embora me seguissem.

Desequilibrados pelos enormes e seqüenciais goles de vodca os olhos passaram a vagar em sua órbita. Pesados fecharam-se num sono ébrio esquecendo-se de mim.

MEDONHA TRANSFORMAÇÃO - AMM




Matei uma mulher esta noite...

Acordei estranha esta manhã, parecia sufocada. Peguei-me apalpando os braços, pernas, tocando meus olhos, lábios, como se estivesse constatando a existência de cada órgão. Permaneci sentada à beira da cama por não sei quanto tempo enquanto olhava atentamente o quarto, o rádio relógio. Fui checando tudo. Cheguei a encantar-me com a cortina branca que sacudia com a brisa na manhã ensolarada. Senti-me satisfeita por estar bem. Tem sido assim desde os meus vinte anos...

...Estava eu parada à beira de uma rodovia. Passava da meia noite chovia muito, os clarões dos raios afugentaram os motoristas da estrada. Exceto o automóvel branco de um homem pardo e sua esposa que assustados com o temporal resolveram encostar por uns instantes. Deram comigo e mostraram pavor quando um clarão me alumiou. Fui logo cumprimentando o casal e pedindo carona. Não portava mala, apenas pequena mochila às costas, o que facilitou que me aceitassem. Estava molhada e pedi desculpas por isso. Eles, sem graça, sorriram e fizeram sinal de que isso não seria problema.

Transcorria tensa a viagem por causa do tremendo temporal, e também por causa da estranha passageira dentro do veículo. Segui calada, e isso causava ainda mais constrangimento aos ocupantes.

Era tudo tão desconfortável que me provocava taquicardia. Tanto que aos poucos algumas mudanças físicas começaram a me inquietar. Senti meus cabelos se arrepiarem devagarinho e, embora tentasse, não conseguia controlar isso. Minhas unhas cresceram num piscar de olhos e os pêlos surgiram nas mãos trêmulas, nos braços, pernas, rosto e peito. Tentei esconder-me do casal dobrando meu corpo para frente, mas quanto mais aflita mais favorecia o surgimento de outras mudanças. Minha boca foi tomando forma animalesca e os dentes aumentaram de tamanho mal cabendo dentro dela, a língua de formato alongado e estreito tinha aspereza ao toque não retinha a saliva que escorria pelo queixo de couro rijo. Senti meu coração pular compulsivamente dentro do peito e rugi quando tentei dizer algo. Assustada, a mulher voltou-se para mim e arregalou os olhos castanhos ao ver o animal no banco de trás. Não conseguiu emitir qualquer som, pois minhas unhas cravaram sua jugular fazendo escorrer o sangue quente que engoli vorazmente. O automóvel titubeou na pista e rodopiou no asfalto molhado, o motorista gritava alucinadamente enquanto tentava frenar o veículo desgovernado. De repente ele foi lançado para fora do carro, estilhaçando o vidro do pára-brisa, quando do impacto contra o guard-rail. Saí calmamente e pus-me a andar pelo acostamento com a chuva fria sobre minha cabeça, relaxada e calma, seguia devagar com passos marcados por um rítimo quase musical.

O corpo todo suado e o coração aos pulos foram entrando em normalidade com a chuva fria que tudo acalma. Tentei falar algo para ouvir minha própria voz e o som era agradável. Meu corpo tinha de novo as formas femininas.

Caminhei. Caminhei sorrindo satisfeita.

DIA DE AZAR - (Conto insólito) - AMM





Querido diário,

Hoje acordei naqueles dias. Nem devia ter me levantado da cama, mas aquele maldito rádio-relógio liga sempre às sete horas. Será que não dá pra programar finais de semana nele? Qualquer hora jogo aquele idiota contra a parede!

Mas hoje se não fosse o rádio-relógio seria o telefone. Não é que tem gente mal educada que liga pra casa dos outros às sete e meia da manhã? Meu essa gente não dorme né? Caramba, quando eu desliguei o infeliz do relógio pra dar mais um soninho de quarenta minutos me vem esse demônio do telefone tilintar no meu ouvido. Putz, mas quando encontrar meu irmão vamos acertar isso. E sabe pra que ele me acordou diário? Pra me avisar que estava na hora de levantar e que eu poderia me atrasar para a prova do vestibular. Carácas, ele me irritou muito com isso, nem me lembrava dessa tal prova. Eu odeio que me acordem cedo!

Afinal me levantei, pois parecia que havia um complô pra acabar com meu sossego. Vixi, já estava me atrasando. Me vesti rapidinho e passei pela cozinha pra um nescauzinho básico bem geladinho, e chuáá, derramei o copo de chocolate na camiseta. Não te falei que era um complô? Putz, ainda querem que eu me submeta a uma prova de vestibular num dia azarento como de hoje! Voltei correndo pro quarto, troquei pela primeira que estava sobre a poltrona e saí em disparada que nem doida.

No quintal aquele gato fedorento da Dona Fran me espreitou outra vez não me deixando passar. Meu, comecei a gritar: “Tira esse bicho traiçoeiro da minha frente senão eu ponho fogo nele”. Ah, foi belezinha, ela veio que nem bala, de cara feia dizendo que ia me denunciar pra Associação Protetora dos Animais. Eu nem tchum pra ela e saí correndo enquanto gritava que não ia dar tempo disso porque o gato dela tinha as horas contadas. Quem tem gato que cuide dele.

Perdi o ônibus das sete e cinqüenta. É hoje!

Pensei em voltar me deitar de novo e recomeçar, mas havia uma prova me esperando. Mas lá vinha a Dona Wilma com o fusca azulzinho dela. Ela estava indo levar a Vera pra fazer a prova. Acenei e ela parou. Pelo menos uma coisa deu certo hoje. Até o pneu furar e ela não ter o maldito macaco pra trocá-lo. Meu, que zica! Mas aí, ela que é tão expedita, deu sinal pra um táxi e nos mandou para a prova. Santa Wilma! Ufa, chegamos quando os portões estavam fechando.

Prova fácil, pensei eu, molezinha. Fui entrando para a minha sala em meio a uma multidão que caminhava junto. Parecia que estávamos indo pra câmara de gás. Odeio filas!

Lotação completa na sala. Um tom formal entre todos. Silêncio sepulcral. Notei que eu estava roendo o lápis. Que nojento isso! A inspetora pediu: coloquem sobre a carteira o RG e o protocolo de inscrição. Ahn! Meu mundo veio abaixo! Senti meu sangue subir para a face e um formigar na ponta dos dedos.

Maldita hora que troquei de blusa!

Eu disse que seria melhor não ter saído da cama. Não disse?

RÁPIDA SOLUÇÃO! - (mini conto ) - AMM




Á beira do abismo com os pés juntados Jurema sentia-se feliz por ter finalmente arranjado uma maneira rápida de acabar com seu casamento tempestuoso.

FÓRMULA EM CENA - mini conto - AMM





Nenhuma pista. Tamborello foi a última.

MÁ NOTÍCIA ! - mini conto - AMM




Sofri estranhamente quando soube que tinha dois meses para viver o resto de minha vida. O que vou fazer enquanto espero todo esse tempo passar?

CLARA HIPOCONDRÍACA - AMM




É pouco, dizia Clara, quando o assunto era doença
Ninguém sentia mais febre , ninguém podia supor.
E quando a amiga reclamava
Ela logo ia dizendo: é pouco! A minha é a maior dor.

A mais ardida gastrite
A lente com maior grau
A fratura mais exposta
A pressão mais oscilante
A raiz mais inflamada
A unha mais encravada
A febre mais convulsiva
A mais alérgica rinite
O parto mais perigoso
A mais famosa faringite

É isso, dizia Clara, a minha doença é maior
É mais contagiosa, mais aguda e dolorida
Tanto que ninguém, nenhum médico até hoje
Me curou nem da popular dor de barriga.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

REZA BRABA - AMM




Reza braba

Soco forte no queixo. Tonteou prum lado, e lá vinha outro murro de punho fechado.

Tonteou de novo. Caiu o pobre. O rosto inchou na hora. A boca floreou. O sangue verteu. As pernas trogloditaram pela estrada seca numa fuga desesperada. O homem tinha medo da surra, mas não podia evitá-la. Apenas pedia “PelamordeDeus pára cum isso”. Já ia pra lá mês que apanhava quando passava por lá, o coitelinho. Apanhava por apanhar...

O amor que morava no coração dele, rareou. Chegou a raiva. Muita raiva dos Nereu.

No espelho de casa viu os olhos avolumando. Pensou nos Nereu. A cara arredondava pra caber os olhos crescidos. Inchavam, cresciam de dar medo. Duas bolas acesas na cara redonda do infeliz. Pensou na raiva. Chamou a mulher aos berros. Assustada, benzeu-se e entoou uma reza em voz alta. Era o coisa ruim! - dizia ela. Ele rezou também. De nada adiantou. Suas orelhas se movimentavam sem querer, à olhos vistos.

Incharam e cresceram, cresceram de dar medo. As duas orelhas ficaram enormes, maiores que a cara. A mulher gritava. Ele espumava de raiva. Ela rezava fazendo o sinal da cruz. De nada adiantou.

SACI NÃO EXISTE ! - AMM





Saci não existe!


O fogão de lenha clareava o cômodo bem arrumado de Juvenal no sitio Florada do Norte. Juvenal então se embrenhou na roça desde moleque e de lá nunca saiu.

Plantava cana e um eito grande de milho do qual se orgulhava. O trabalho sob o sol nunca desanimou o sitiante.

Incrédulo de todas as religiões até mesmo das lendas sobre saci ou lobisomem, achava graça quando alguém dizia que viu um saci, ou que tem medo de lobisomem. Tinha pena das pessoas que acreditavam em coisas do outro mundo: “Essas coisas não existem”...
Nessa noite quando Juvenal insono perambulava pelo cômodo, viu na parede sua sombra e a fazia crescer quando se afastava, e a diminuía quando se aproximava.

Brincou com essa figura por alguns segundos a voltou-se para o bule de café que era mantido na beira do fogão. No entanto algo lhe chamou a atenção e o fez olhar novamente para sua sombra que não diminuiu quando ele se afastou. Intrigado Juvenal aproximou-se o mais que pode quase encostando o nariz na parede, e mesmo assim a sombra ficou imóvel. Ele riu desconcertado e voltou para seu café tentando esquecer o acontecido. Mas olhou novamente para parede e lá estava a sombra dele com o nariz encostado à parede como se fosse um espelho negro. O homem assustou-se e a caneca de café quente lhe caiu sobre o pé descalço levando-o saltitar agarrado ao pé tal a ardência da queimadura. Parou ao ver que sua sombra saltitava numa só perna e com os braços levantados parecendo rir. Juvenal encostou-se no fogão e agarrou um tição posicionando-se em defesa daquilo que lhe era estranho e que estava dentro de sua casa: “quem está aí?”. Não havia resposta apenas a sombra que teimava em mover-se quando Juvenal estava parado com o tição aceso na mão. Ali ficou até o fogão queimar toda a lenha e a sombra desaparecer.

Durante o dia o homem não sossegou e já temia pela noite que teria. Na roça conversou com os colegas de empreita que lhe disseram que era o saci que estava brincando com ele. Outros disseram que o saci tinha sido visto pelas redondezas e que gostava de brincar com gente que não acreditava nele. O vendeiro afirmou que era o saci e completou que se tratava de um moleque negrinho com capuzinho vermelhinho, e sempre trazia um pito nos beiços, que pulava sempre porque só tinha uma perna. Foi quando Juvenal lembrou-se da sombra pulando numa perna só com os bracinhos levantados: “É ele! Só pode ser essa coisa ruim que ta lá em casa. E agora o que eu faço pra mandar ele embora?”. E muitos palpitaram dando ao rapaz muitas fórmulas para despachar o saci. Ele tinha que caçar ele numa peneira e engarrafar a coisa ruim. Ou então provocar um redemoinho para levar o negrinho embora. Ou até acender vela no terreiro à meia noite perto do galinheiro para que a coisa levasse uma galinha e fosse embora de vez.

Ao anoitecer Juvenal tratou de arrumar logo uma peneira e se posicionar no quintal para caçar o negrinho. Esperou muito até o que o sono veio e a coisa não apareceu.

Acordou com frio já de madrugada e resolveu ir para cama. Ao entrar notou que a porta estava escancarada e viu na parede a sombra que pitava. As pernas do homem tremeram pela primeira vez. O negrinho sagaz pulou para cima do fogão e derrubou as panelas que estavam dependuradas, fez uma ventania na casa que os móveis até andaram de lugar. Juvenal rezou muito sem saber para qual santo deveria rezar. Apenas rezou pedindo para levar de lá a coisa ruim. Pela manhã Juvenal não foi para roça, foi à igreja ver o Padre Luiz que lhe ensinou umas rezas e lhe deu água benta para jogar no saci. Isso sim seria certeiro para afastar de vez a coisa ruim.

À noite Juvenal ficou à porta da casinha onde havia uma vela acesa e um potinho de água benta. Ajoelhado o homem rezava fervorosamente desta vez para o santo certo.

Santo André das Almas estava ali representado pela imagem postada ao lado da vela e pelas rezas de Juvenal. Quando num certo momento as galinhas cacarejaram numa arruaça no galinheiro, e as cabras correram alvoroçadas pelo quintal, Juvenal já podia adivinhar o que estava acontecendo, era o saci brincando com as criações.

Podia ser ouvida ao longe a oração de Juvenal. Com o vento a vela se apagou então o homem apanhou o pote de água benta e se levantou. Numa mão o pote e na outra a imagem de Santo André. A ventania aumentado, aumentando e as tralhas do quintal voando de um lado para outro. Juvenal rezava, rezava, rezava e salpicava gotículas de água benta pelo ar. Até que num momento qualquer tudo cessou, a ventania abrandou e a criação aquietou-se. A reza continuou até que o homem viu as folhas do canavial se afastando com alguém correndo desembestado no meio da plantação.

No dia seguinte na roça havia muita especulação sobre o acontecido no sítio, mas Juvenal disse para os colegas: “saci não existe, mas se ele resolver aparecer lá de novo eu cato ele ponho num saco e trago aqui pra vocês verem a coisa ruim”. Os colegas foram unânimes em dizer: “não carecia essa prova de jeito nenhum”.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

CONTAS PAGAS - AMM




Noite fria na dura calçada da capital paulista. Uma névoa pinta os ares e turva os olhos da profissa exageradamente maquiada que baforava um Free com filtro. A roupa inadequada para o clima era apropriada para atrair olhares masculinos. Estava fraco, passava de meia noite e nenhum cliente apareceu.

Geni era diferente das outras moças, tinha os cabelos naturalmente ruivos e os lábios atraentes, vestia-se com estilo próprio e era a mais procurada. Mas estava cansada. O salto alto já a incomoda quando enrosca nos buracos do cimento. As esbeltas pernas geladas cobertas por meias pretas movimentavam-se com elegância de um lado para outro no passeio público. Os seios quase à mostra exuberavam como grandes frutas maduras. Vez ou outras ensaiou poses ousadas com o poste de iluminação. Mas não havia ninguém na rua além das moçoilas.

Tinha que pagar o aluguel no dia seguinte ou corria risco de ser despejada. Há muito pensava em se mudar para um apartamento só dela, mas os ganhos ainda não eram bastante. Esperava pelo cavalheiro estrangeiro que prometeu vida séria num país que ela nem sabia dizer o nome. O nome dele também era tão complicado de dizer que ela nem ousava. Começa com “V”.

Um farol então quebra a esquina e quase cega os olhos verdes da moça. O automóvel avança devagar próximo da calçada e como numa vitrine o motorista passa os olhos pelas dezenas de raparigas que precisam ganhar a vida. A luz do freio se acende ao lado de Geni. Ela se curva sexy e encara seu cliente com um enorme sorriso de contas pagas. A porta se abre para ela que altiva se senta ao lado do motorista. Quase não entendia o que ele perguntava, mas respondia “Yes”. Foram para um luxuoso hotel localizado nos Jardins onde parecia uma rainha sobre o tapete vermelho do hall. Foi quando notou que o cliente era seu estrangeiro.

Geni nunca mais foi vista na calçada de lama. Mas escreveu para as amigas da calçada da fama...

AMM

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Meu interior - Gilda Pereira de Souza



Meu interior
(Dedico à artista plástica Alice de S. Carracedo)



As cores de
Meu arco-íris
Eu mesma pintei

Os acordes de
Minha melodia
Eu mesma criei

As flores do jardim
Que enfeitam meu lar
Eu mesma plantei

As luzes que iluminam
O palco da minha vida
Eu mesma acendi

E as poesias do livro
Que contam
As histórias que vivi
Eu mesma escrevi.



Gilda Pereira de Souza

domingo, 3 de agosto de 2008

COMPARANDO ESFORÇOS - AMM




Lá estava eu na oficina com a minha CB 125 para uma revisão. Diante de tantas motos cilindrosas de alta potência, me sentia até pequenininha.

O Nando, dono da oficina, mecânico habilidoso e experiente, fazia qualquer tipo de reparo mecânico e deixava a máquina novinha em folha. Ele tinha muito orgulho do que conhecia, e sabia que nem na oficina das fábricas os consertos eram feitos com tanto primor.

Enquanto esperava a minha vez de ser atendida, ouvia as queixas do Nando, dizendo que trabalhava feito um doido e não dava conta de saldar as dívidas. Reclamava que ressuscitava uma moto e não ganhava quase nada por isso. Ele falava enquanto lidava com Yamaha que chegou de um acidente. Notei que o dono da moto, ali num canto, não falava nada, apenas ouvia.

O Nando virou para ele e disse que a moto já estava nova de novo. O proprietário agradeceu elogiando o trabalho do rapaz. O jovem descontente com o valor que iria cobrar pelo serviço tão esmerado, comparou seu trabalho ao de um cirurgião:

- Aí, doutor Fernando, o senhor é cirurgião, e sabe que não é fácil abrir o cara, trocar válvulas, coração, e limpar os canais, e o paciente acordar assim novinho em folha. Senhor não acha que meu serviço é igual ao seu, e que eu deveria ganhar o mesmo que o senhor ganha nas cirurgias de coração?

E o médico, pacientemente, respondeu:

- Não, Nando, não se podem comparar os trabalhos. Tente fazer isso tudo com o motor funcionando.

DOENÇA ESQUISITA - conto caipira - AMM




Toinho andava disgostoso por causa da doença do menino Zeca. Um calombo crescia no pescoço dele que não havia modo de brecar. A mulher dele, dona Bigaiu mulher simplória, mas determinada, cansou de ver a testa febril do moleque e resolveu ir até a casa da benzedêra Filó buscar ajuda.

Danou a correr pela trilha de terra que inté levantava poêra.

Chegou esbaforida que só vendo!

Filó pegou uma benzeção no terreiro e voltou depressa com uns galhos de mato na mão, e juntas foram até a casa ver o menino doente.

Filó fez um chá com o mato que trouxe e disse que o menino estava com caxumba. Isso era certo! Toinho e Bigaiu se olharam e disseram: Ah, sei.

Filó recomendou que o garoto ficasse deitado para não complicar a doença. Disse e olhou para o casal. Tornou a explicar. É perigoso ele ficar correndo por aí, ele pode ficar rendido. E o casal se entreolhando com expressão de tudo entendido: É verdade, é verdade!

Filó percebeu que ainda faltava informação para o casal e disse: Seu Toinho, se o menino não guardá repouso a caxumba desce pro escroto e ele pode ficá istérico. É isso que dizem por aí.

Agora sim parecia que tudo tinha sido entendido. Se ainda faltasse alguma explicação, eles que fossem buscar com o doutor letrado, pois o repertório de Filó tinha se esgotado. E voltou para casa.




CONTO DO IMPROVISO - AMM



Agonizava Seu José Pereira da Silva no passeio estreito de uma Rua Singular. No bolso da camisa a velha carteira de identidade lhe dava o nome.

Olhares apressados de curiosos conferiam atônitos a gravidade da vítima sem nenhum compromisso com ela. Passos ligeiros quase lhe pisavam na mão. Alguns paravam por alguns minutos e esperavam que ele reagisse, e como isso não acontecia, torciam para que finasse logo pois tinham pressa.

Eu me abaixei e segurei sua cabeça seguindo orientação de um bombeiro num programa de televisão. Era para fazer apenas isso, então fiz. Perguntaram-me se era meu parente, e quando eu respondi que nem o conhecia, mostraram-se irônicos.

Olhos fechados, corpo trêmulo, espumando pela boca rija, era assim que estava José Pereira estirado na calçada de cimento, depois de ter sido atropelado. “Foi só de raspão”, diziam alguns. Mas ainda assim lá estava o homem quase sem vida. Desconhecido de todos, ninguém se interessou por sua salvação.

Uma mulher falava afoita: “Eu vi tudo, ele atravessou sem olhar. É nisso que dá a pressa!”. E dessa forma o pobre desconhecido Zé Pereira passou a culpado do próprio atropelamento.

Alguém chamou o resgate do Corpo de Bombeiros dizendo que a Rua Singular estava com trânsito parado por causa de um homem quase morto, que viessem logo para liberar o trafego.

Mas não deu tempo, Zé finou. Finalmente, levaram-no. E assim pode o transeunte circular à vontade sem ter que desempenhar nenhum outro papel. E fluiu o trânsito para alegria dos apressados motoristas.




Alô? Falta bom senso - Ana Maria




Tenho ouvido que a Telefônica é a campeã de reclamações por parte dos usuários assinantes e fico perplexa diante disso. Fico sim, porque me lembro de ter ouvido há alguns anos, não muitos, que o sistema de telefonia no Brasil era o empregado mais barato que alguém podia ter, o mais eficiente, e o que cobrava o menor imposto. Não é para ficar perplexa com a involução do sistema?

Eu, assim como milhares de brasileiros, que têm telefone em casa ou no escritório foram sentindo no bolso o “crescimento” de nossas contas telefônicas na mesma proporção que aumentaram os problemas com a empresa responsável. Ou seria irresponsável ?
Hoje a Telefônica detém o rancking de maior empresa no ramo de “saídas estratégicas” para burlar o usuário. E com isso foram se somando centenas de processos e reclamações que ela ostenta com um certo “orgulho”, o que me faz temer pelo insucesso dos resultados de defesa ao consumidor.

Não se trata de “perseguição”, não. Certa vez, decidi testar a idoneidade da empresa e retirei da tomada uma de minhas linhas telefônicas, que depois de muitos chamados para resolver um chiado que havia na linha, não fui atendida à contento tornando a linha inoperante. Aguardei a conta telefônica que me veio cobrando uns tantos pulsos. Assustei. Liguei para eles, e depois de muitos telefonemas, pois os operadores estavam sempre ocupados, consegui finalmente me posicionar. Mas a operadora, que já tinha sido informada de que o aparelho telefônico não estava conectado, alegou que seriam então cobranças de pulsos derivados de serviços e testes que os técnicos faziam em nossas linhas. Ahn? Duzentos e quarenta pulsos de testes? A coisa ficou pior ainda. Cobravam o que não usei, mas que a própria Telefônica usou.
Telefonemas pra lá, e pra cá, e não consegui nada em termos de ressarcimento. Desliguei de vez essa linha encrencada.

Hoje a Anatel obriga que a Telefônica cobre em minutos, e não pulso. Alega que é para que o consumidor possa controlar o tempo que utiliza o telefone. Até me pareceu algo de bom senso essa medida. Mas como faremos isso se esse tempo está por conta da prestadora de serviços? Deveríamos sim, ter um equipamento telefônico OFICIAL que marcasse em nossa casa a quantidade de minutos utilizados, aí sem saberíamos o quanto nos seria cobrado, e saberíamos que estaríamos pagando pelo que usamos. É assim com a Sabesp, Comgas, Eletropaulo...

È só uma questão de bom senso..............ou de boa fé.

Alooow?...

NAVALHA NA CARNE - Crônica - Ana Maria




Zuleido é o nome dele! Ele é o cara!
Já sabemos que ele não é um entregador de pizza, mas que seu caso poderá acabar em pizza.

Ontem um caseiro derrubou um certo ministro só de reconhece-lo como freqüentador de uma casa suspeita no interior de São Paulo. Desesperado, o ministro meteu os pés pelas mãos quando mandou vasculhar a conta bancária do caseiro, e para isso envolveu o colega da Caixa Econômica Federal. Queria aterrorizar o pobre infeliz, o único entre dezenas de nobres homens, que falava a verdade. Essa pizza ainda está sendo assada mas o braseiro já enfraqueceu e não aquece mais os noticiários.

Hoje não é de caseiro que falamos, mas de um mega empresário da construção civil que molhava a mão de muitos parlamentares para que suas obras fossem contratadas pelo governo por valores descomunais. Nos deparamos com obras inacabadas, mas pagas. Com dinheiro que vai e vem pelos corredores do Palácio. Com secretárias e assessores que circulam com sacolas e envelopes recheados de bufunfa para comprar homens desonestos. E dessa forma, infelizmente, descobrimos que há tantos espertos destes nas vitrines de Brasília, e de outros Estados brasileiros, que fica até difícil abonar tantas mãos estendidas para Zuleido. E eu que pensei que o caso LALAU fosse o mais forte comprometimento do judiciário brasileiro!

Reconheço a dificuldade dessa articulação policial diante de tantos ilustres nomes apresentados como suspeitos, mas ao mesmo tempo parabenizo o Sr Zuleido que, genialmente, colocou tantos parlamentares à sua mão. E mais ainda, pelo enorme feito, ou não feito, de obras espalhadas pelo Brasil sem que nenhum mortal as tenha reclamado ou sentido falta delas. Ilusionista. Talvez o homem não seja um empresário comum, mas sim um ilusionista de jogada mortal, e agora é a vez do Xeque-Mate.

Estão sentindo o cheiro da pizza?

Crônica desesperada - Ana Maria




Há que amar e calar, dizia o poeta mineiro.

Talvez ele já nos desse pistas de como sobreviver nos dias de hoje, sem ao menos tê-los vivido.

Atrelada ao meu patriotismo, me calo. Um calar cúmplice de tantas maledicências, de tantos duros golpes. Mas um calar necessário.

Quisera gritar ao mundo meu desespero pelo que enxergo para o nosso futuro desde há muito. Lastrar sobre as falcatruas que são estampadas nos jornais todos os dias, executadas por, nada mais nada menos que, nossos representantes legais nos órgãos do governo. Nossos eleitos brasileiros.

Temera sempre que o descaso fosse tão retumbante e brilhasse mais forte que o amarelo de nosso lábaro. Que o verde amarelasse e minguasse como hoje em dia está acontecendo. Que o azul acinzentasse poluído pelos gases maléficos de nossas indústrias se tornasse natural. Que o nosso branco avermelhasse. Mas me calei. Calamos todos nós e nos fizemos cúmplices desses fatos.

O medo de viver, ou de não consegui-lo, nos obriga a traçar trilhas primordiais e não sonhadas. Nossas crianças não brincam, lutam e birram. Nossos idosos, abandonados à própria sorte, nada mais têm para nos ensinar. Os professores, sem estímulo, desarticulam- se da promessa de ensinar para travar luta contra a violência nas escolas.

As famílias que antes se reuniam no reduto para trocar experiências, traçar caminhos, hoje desacampadas e sem agregação, perdem-se nas ruas e nas delegacias.

Não somos mais os mesmos brasileiros, somos sim apenas expectadores do caos.

E agora?

Operação Hurricane - Crônica - Ana Maria



Chegou mesmo como um verdadeiro furacão o enxame de notícias quase simultâneas sobre os envolvidos na máfia dos bingos. A história está num crescente sem fim.

Liminar daqui e outro jeitinho dali fazem os bingos atuarem a pleno vapor. Alguns andaram fechando as portas, porque será? Será que se tratava de uma “articulação” para fazer de conta que a lei estava sendo cumprida?
Mas quem ganha com isso tudo? Os apostadores comuns não ganham...

Apesar de tudo ouvi a Dercy Gonçalves dizer em entrevista televisa, semana passada, que ela e os milhares de idosos sentem muito essa proibição dos bingos. Disse que os velhinhos passam horas deliciosas na aventura de jogar onde também se relacionam com colegas. E que ela gostaria e até já tentou, ser a porta-voz dos idosos no sentido de tentar falar com Presidente e se legalizar esse brinquedo. Fico aqui pensando se os bingos não podem ser “abraçados” pelo “Código Nacional do Idoso”, tornando-se parte integrante das atividades oferecidas para essa classe. Talvez fosse um caminho para a legalização desse entrenimento. Por outro lado vejo com clareza que eles, os bingos, não podem viver apenas dos “benefícios” dos aposentados.

Entre os suspeitos na Operação Hurricane, estão bicheiros, delegados e magistrados acusados de crimes como corrupção, tráfico de influência e envolvimento com jogos ilegais e formação de quadrilhas. E com isso, formaram-se toneladas de documentos investigados, escutas telefônicas, e gastos de avião que levam pra lá e cá os envolvidos. Custos altíssimos com o incansável trabalho da Polícia Federal que destinou centenas de homens para essa operação. Tudo para esclarecer quem compra, quem vende sentenças, e quem autoriza que o jogo ilegal funcione. Mas com nomes tão ilustres envolvidos nessa operação, é bem capaz que a Policia Federal não encontre provas de nada.

Aqui, onde a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, é bem capaz de prenderem a centenária Dercy por incitar os idosos ao jogo ilegal. E não ficaria surpresa se numa “blitz” num bingo qualquer encanassem também os aposentados que lá estivessem gastando seu salário mínimo.

Tudo a seu tempo...Enquanto esperamos para ver o que sobrou do furacão sentimos o braseiro desta pizza também esfriando. É tudo muito rápido. Já passaram a Navalha nela.

Mini Contos - Ana Maria



Na calada da noite ele visitava a libertina. Constrangia-se quando atrasado saía com o sol raiado.



Sofri estranhamente quando soube que tinha dois meses para viver o resto de minha vida. O que vou fazer enquanto espero todo esse tempo passar?



Não viveu para contar, mas falou o nome de outro durante toda a noite.



Á beira do abismo com os pés juntados Jurema sentia-se feliz por ter finalmente arranjado uma maneira rápida de acabar com seu casamento tempestuoso.



As mãos pregadas à cruz de madeira ainda sangravam depois de 2000 anos.



Ao telefone a voz rouca e ínfima pedia socorro, mamãe. E o corpo da mãe inerte ao lado do aparelho, sangrava há horas.



Durante a viagem senti um solavanco do carro na estrada e logo em seguida tive a impressão de estar caindo por um precipício. Mas do porta-malas, onde estava, era impossível saber o que realmente estava acontecendo. È tudo que posso lhe contar São Pedro.



Na bebida envenenada a empregada doméstica via sua chance de finalmente ficar às sós com o patrão. Na casa seriam apenas ele, e ela.



AUTORIDADE MÁXIMA! Ela a dona da casa. Mas ele o chefe do lar, o dono do controle remoto da televisão.



No sofá o gato estrebuchava asfixiado pelo marido insensível e ciumento.



As mãos trêmulas de Isabel seguravam firme o revólver que mataria seu amante infiel.

VIDA DE CACHORRO! - AMM



O cachorro pensativo se distrai com a chegada de uma mosca mal educada que pousa em sua orelha esquerda.
Flap Flap Flap pra lá. Flap Flap Flap pra cá. E mosca vai, mas volta.
O cão se levanta e vai deitar sob a mesa do jardim. Suas patas dianteiras esticam para frente e ficam sob seu focinho preto. Lá não tem moscas. Mas tem formigas. E elas sobem pelas patas do cão. Vapt pra lá. Vapt pra cá. Bate com as patas no chão espalhando as formiguinhas pelo gramado, e vai repousar em lugar menos povoado.
Preguiçoso ele insiste e deita-se no tapete da sala de estar. Lá não tem moscas e não tem nenhuma formiga. No tapete ele gosta de dormir.
Mas lá vem a Margarida de vassoura na mão e Vupt pra lá. Vupt pra cá. Espanta o animal de lá.

SONHOS DE CRIANÇA - AMM



Da sacola saiam gargalhadas espalhafatosas que até tremiam as alças molengas. A mão enluvada penetrou lentamente provocando mistério e trazendo a pomba que alçou vôo imediatamente.
De repente um livro amarelo saltou para fora assustando a criança curiosa. Do livro voaram porcos, lobos, coelhos, raposas, e outros animais dos contos de fadas, e deu pra ver um pedacinho da imagem do Pequeno Príncipe.
E lá vinha uma cartola preta de onde escapuliam línguas de tintas. O lápis ia rabiscando o espaço criando gnomos e fadas, rainhas e castelos, enquanto a tinta ia colorindo tudo.
A sacola foi aos poucos se escancarando e a mão foi lentamente trazendo criaturas pequenas e delicadas. Eram os incansáveis habitantes da Terra do Nunca.
E lá vinham outras gargalhadas estridentes. E a sacola foi aos poucos desaparecendo dentro da luva branca.



Vida torta - Ana Maria



O sapato esquerdo,
torto, surrado,
Num canto jogado,
esquecido.
Buraco na sola,
Couro trincado,
Cor desbotada,
Demais laceado.

Segredo - Ana Maria



Sabe guardar um segredo?
Tenho uma história, um mistério.
Se prometer não contar, concedo.
Promete? Promete que estou pronto.
Só conto se prometer. É sério.
Não promete. Então me quedo.
O que custa prometer?
Olha que não conto...
Guardar segredo não dói. Promete, vai!
Do que afinal você tem medo?
Ái, que vontade de contar tudo.
Seu tonto!

Saudade - Ana Maria



Solidão que cala, encurrala
Mãos que não mais tão perto
Olhos jamais vistos de novo
Sonhos que lentamente
perdem-se
Medo que invade.
Instala-se!
Costurando assim
com linhas mortas
sem cores
a vida sem covo.
Os mortos que amamos
que nos herdem!

Repatriando - Ana Maria



Motivam-me seus olhos
A recolher pedaços
Trocar novos passos
Formar outro ser
Com o que for possível juntar.

Detalhes estarão perdidos
Os sonhos quebrados
Caminhos interrompidos
A língua truncada

Alguém sem o mesmo rumo
De identidade desconfiada
Atrapalhada e confusa
Sem a mesma história,
presumo
Mas que tem seus olhos
para ser mirada.

PROSTITUTAS - AMM



Travessuras de gruas robustas em noites de lua
Cardumes escusos de mulheres no escuro da rua
Saltitantes vaga-lumes rústicos em atitude corrupta

Nuas.
Frustram.
Relutam.

Olhar em fagulhas de unhas pontudas
Bocas carnudas, e bundas tesudas.


Estranhas!
Anônimas!
Ingênuas!
Fajutas!


Fúteis madames da noite impura
As putas, vacas tetudas de rude ternura
Mulas enxutas em salto agulha
Escutam insultos, mergulham de bruços
Risadas tocas, trituram os lucros
Simulam prazer com muito talento
E mostram orgulho!
Depois morrem de algo virulento.

Poema confuso - Ana Maria



Estrada estreita. Difícil.
Porta amarela. Trancada.
Criança pálida. Perdida.
Aliança dourada. Esquecida.
Janela do céu. Quebrada.
Marca profunda. Estranha.
Tela molhada. Descoberta.
Boca vermelha. Vazia.
Cama espalhada. Aquecida.


Estrada espalhada.Estranha.
Porta vermelha. Vazia.
Criança molhada. Aquecida.
Aliança do céu. Quebrada.
Janela profunda. Trancada.
Marca dourada. Perdida.
Tela pálida. Esquecida.
Boca amarela. Descoberta.
Cama estreita. Difícil.


Estrada dourada. Vazia.
Porta estreita. Perdida.
Criança do céu. Aquecida.
Aliança pálida. Difícil.
Janela vermelha. Descoberta.
Marca amarela. Esquecida.
Tela profunda. Quebrada.
Boca espalhada. Vazia.
A cama molhada... Estranha.

Patriazinha - Ana Maria




Quero cantar esta cidade!
Sorrir para ela, meu riso rasgado
Abraçá-la no meu abraço apertado
Dizer que a amo de verdade
Pisar suas ruas, cheirar suas flores!
Seus ruídos noturnos, seu gemido
Seu choro, seu grunhido
Quero escutar sua voz, minha senhora!
Conte-me sua história,
Seus lamentos, sua glória
Abraça-me cidade minha!
Você, quase patriazinha,
Quase peito, quase lar
Que nunca me desampara
Que floresce, que anoitece
Que brilha, e entontece
Que grita e emudece
Abre teus braços cidade boa
E fecha-os em torno de mim
Maravilhosa cidade que ferve
Escandalosa terra da garoa

Oh grandiosa cidadezinha!
Grande sim, gigante sim, mas “inha”
Aqui estou, fico, e ficarei.
Aqui aprendi tudo que sei
Dou-te os meus dias, minh’alma
Meu canto, meu riso, minha calma.
Em troca apenas, eu peço:
Além do carinhoso abraço
Para este paraíso incauto
Permita-me reprisar este verso:
“Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá”

Paraíso - Ana Maria



Aqui o galo canta fora de hora
Flores desabrocham a noite
Enfeitam a madrugada.
Onde rio desliza, não corre
Vento sussurra em brisa
Criança ri, não chora


Aqui as letras cantam
Homens amam
Mulheres parem

Onde o tempo não passa
Tardes não caem
Onde as mãos se apertam
Olhos se vêem
Risos se espantam

Aqui se vive
Desafia-se a alma
Aquieta-se o espírito
Morre-se aqui.
Não sem antes amar.

Lá vem o trem! - Ana Maria



Piuííí...Piuíííí! Lá vem o trem
Puxando história pela locomotiva
Que rasga o vento até a estação
Vem fazendo barulho, anunciando chegada
Repete incansável cacoete da máquina erosiva
Tiqui-xiqui, tiqui-xiqui, tiqui-xiqui...
Um suspiro e uma arfada, um suspiro uma arfada
Lá vai o trem
Piuííí...Piuíí!!!


De porte elegante a máquina avança
De rumos traçados e trilho no chão
Lá vaia ela, a máquina de aço
Tiqui-xiqui, tiqui-xiqui, tiqui-xiqui...
Realizando momentos, levando emoção
Tirando a gente do nosso compasso
Entre suspiros e outras arfadas, suspiros e arfadas
Entre partidas ou chegadas, sem suspiros sem arfadas
Fazendo historia a composição.
Piuíí...Puííí!!!

Lá vai o trem de aço
Partindo daqui, partindo dali
Deixando aos poucos nossos cenários
Tiqui-xucu, tiqui-xucu, tiqui-xucu...
Não apita mais a locomotiva
Não ouvimos mais estardalhaço
Nem há marcas dos trilhos lendários
Última chamada:
Ultimo carro. Não haverá cacoetes, nem outro horário
Último trem: Não haverá apitos, nem haverá mais arfadas
Ticu-xucu, ticu-xucu, ticu-xucu...
E desaparece nas cordilheiras nevoadas
Nunca mais suspiros, nunca mais arfadas
Já foi o trem...

Terror na infância! - Ana Maria





Na infância tem o conto
Que apesar de atrocidades
Sempre traz final feliz
A Gata Borralheira, e a tal da Chapeuzinho

A Bela Adormecida e o Pequeno Polegar.

Personagens que levam a vida por um triz.

Depois de sofrerem muito, têm lição para ensinar




Na Europa o Pequeno Príncipe
No Brasil Meu Pé de Laranja Lima

Mas as cantigas de menina
Oh meu Deus, estas são de assustar!
Quem teve a infeliz idéia de atirar o pau no gato
E inda fazer o pobrezinho não morrer, agonizar ?

Para a criança inocente mamãe canta a canção:
Terezinha de Jesus deu uma queda foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão.
Cobravam o pagamento certamente. Cobravam seu quinhão
Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada.
Samba Lelê precisava
De uma boa palmada.
Meu Deus, não bastasse a dor da fratura
Inda ganharia, a infeliz, uma dolorosa corretura.



Ha também a ironia que mamãe sabe cantar
No refrão ela ri e inda por cima, se põe a gargalhar:
A Barata diz que tem sete saias de filó
É mentira da barata, ela tem é uma só
Ah ra ra, iá ro ró, ela tem é uma só !

Madrugada adentro e nada de adormecer
Cansada, ela ajeita o travesseiro e o cobertor
Humm...Lá vem agora o golpe de aríete!
É a hora do terror!
E ela com voz macia, cantarola com amor:
Boi, boi, boi.
Boi da cara preta
Pega esta criança que tem medo de careta...


Estranhos momentos - Ana Maria



Sob os pés descalços feridos
Louças quebradas em cacos
Rastros estranhos aos poucos
Esquecidos!

A porta escura entreaberta
Janelas trancadas
Cama vazia
Fotografia esquecida
Um soldado sobrevivente
Estranho soldado sobre aparador!

A luz difusa do abajur
Flor murcha no vaso
Aliança no bolso
Sonho perdido
Estrada longínqua
Beijo esquecido
Estranho beijo sobrevivente!

Imagem no espelho
Sombra perdida
Boneca de pano, morta
Cartão postal não enviado
Jardim ainda florido
Estranho jardim...

O horizonte da colina, orvalhado
Tela descoberta
Nela, céu de brigadeiro
Estranho orvalho acoberta...

Corpo que malha - Ana Maria



Inspira, expira, inspira, expira, inspira,
Tum, tum, tum, tum, tum,
Mexe e remexe, mexe e remexe
Corpo que a tudo responde
Onde tudo se esconde
Onde vai você?
Parte a todo instante
De chegada constante
Quem é você?
De pele macia, cheiro gostoso
Cadência e molejo, imenso desejo
Sua na rua, inspira e expira
Malha, remalha, toalha, navalha
Inspira, respira, de novo na mira
Mas luta e reluta, chuta se salva
Respira, respira, respira, respira

O que busca esse corpo
Que nunca está pronto?
Surge, ressurge, abala, embala
Corpo de musa, mulher confusa
Enverga, contorce, esfrega
Esconde, se entrega
Tum, tum, tum, tum, tum...
Sua, se cansa, suspira
Respira, respira, respira, respira...

Malha, o que valha
Se olha, se molha
Se fere, se ama,

Exercícios de voz - Ana Maria




Devaneios musicais me aquecem.
Obstinada entre clave de sol, do e si
Ádvena harmonia me vem à tona
lampejos graves incandescem.
Exercito o diafragma. Respiro.
Até que suave nota encontro
e o piano acrisola o canto.
Entôo suave melodia. Suspiro.



(ádvenas = estranhas, estrangeiras, esquisitas)
(acrisolar = purificar, limpar, tirar impurezas)